'Não vemos terceira onda com força para reduzir atividade econômica', diz sócia da Tendências
Para a economista Alessandra Ribeiro, pandemia, vacinação lenta e crise energética são riscos que podem limitar crescimento, mas não mudar tendência de recuperação
Até fevereiro, o clima entre os economistas era de pessimismo geral. Aos poucos, durante o último mês do primeiro trimestre, isso foi mudando, conforme saíam dados que indicavam que a atividade econômica ganhava tração. Esse movimento culminou com a divulgação, nesta terça-feira, 1º, do resultado do Produto Interno Bruto (PIB), que cresceu 1,2% no primeiro semestre.
Entre os fatores que fizeram mudar o panorama econômico estão o impulso decorrente do crescimento dos Estados Unidos e da China e a ineficácia das medidas de isolamento social, diz a economista Alessandra Ribeiro, sócia da Tendências Consultoria. Assim, o recrudescimento da pandemia que começa a ser verificado agora também não deve ser suficiente para mudar o rumo da economia.
"Está cada vez mais difícil levar as pessoas ao isolamento. Uma terceira onda aparece como risco no sentido de limitar a expansão da economia, mas vemos esse efeito perdendo força para trazer a atividade econômica muito para baixo", destaca Alessandra. Outros riscos no radar são a lentidão na vacinação e a crise energética, de acordo com a economista.
Apesar de a recuperação começar a se consolidar, ela deve vir acompanhada de uma desigualdade ainda maior, acrescenta Alessandra. "O que observamos é que o mercado de trabalho formal tem mostrado recuperação e o informal ainda está num ritmo lento. Olhando para frente, essa é a tendência."
A seguir, os principais trechos da entrevista.
Houve um momento no primeiro trimestre em que parecia que a economia ia se deteriorar ainda mais. Os economistas estavam pessimistas com a aceleração da segunda onda da covid, a desvalorização do real e a interferência do presidente Jair Bolsonaro na Petrobrás. O que aconteceu para esse cenário mudar?
Nós, na Tendências, também estávamos entre os mais cautelosos com a atividade econômica. Tínhamos uma projeção de queda de 0,6% no PIB do primeiro trimestre, depois atualizamos para alta de 1%. Teve uma surpresa com a resiliência da economia brasileira nesses primeiros meses do ano. Tínhamos alguns fatores de preocupação: o fim do auxílio emergencial até março e o efeito disso no consumo, ao lado das pressões inflacionárias em itens muito sensíveis na cesta de consumo, como alimentação e combustível. Ao mesmo tempo, havia uma incerteza grande em relação à situação fiscal, com aquele imbróglio no Orçamento limitando o apetite para decisões de consumo e investimento. Demos muito peso para esses elementos. Talvez tenhamos subestimado algumas coisas. O primeiro fator importante é o cenário externo: a melhora na China, nos Estados Unidos e também na Europa, mas aí um pouco menos. Isso teve um efeito importante para as economias emergentes. Temos exportações importantes tanto de commodities como de produtos manufaturados. Em relação ao consumo, se de um lado teve um efeito negativo em classes mais baixas, teve outro efeito nas classes mais altas. Essas voltaram a consumir, especialmente até fevereiro. Vimos isso batendo em vendas de bens duráveis, como automóveis. No investimento, também houve um efeito positivo nas linhas relacionadas à agropecuária e ao transporte. Outro ponto é que as medidas de isolamento tiveram menor eficácia. Houve uma queda na mobilidade na segunda quinzena de março, mas muito menor do que no ano passado.
Estamos, então, crescendo à custa de mortes? Ou por que as exportações de commodities estão em alta graças às economias chinesa e americana?
Do lado externo, há um suporte importante. Quando EUA crescem 6,5% e China, 8,5% ao ano, o efeito na gente é grande tanto do ponto de vista de commodities como do de manufaturados. Nesse primeiro trimestre, a agropecuária puxou o crescimento na margem, e muito baseado na soja. A indústria extrativa também ajudou. Mas também tem, sim, a questão de as medidas de isolamento terem menos eficiência, e o reflexo disso aparece no número de mortes. Agora, outro ponto é a própria adaptação de muitos negócios à pandemia. O pessoal não fica mais paralisado como no começo, aprendeu a lidar com a quarentena.
O PIB cresceu, em parte, porque não houve uma redução significativa da circulação de pessoas. Isso dá espaço para o contágio do coronavírus se acelerar novamente. Qual impacto podemos esperar da pandemia na economia nos próximos trimestres?
À luz do que a gente aprendeu nesse começo de ano, tenderia a achar que os efeitos de uma terceira onda para a economia devem ser similares aos do primeiro trimestre. Está cada vez mais difícil levar as pessoas ao isolamento. Uma terceira onda aparece como risco no sentido de limitar a expansão da economia, mas vemos esse efeito perdendo força para trazer atividade econômica muito para baixo. Além desse risco, temos outros: o ritmo de vacinação lento e a questão energética. Todos esses elementos parecem mais como limitadores, mas não como fatores que vão mudar dramaticamente o cenário de crescimento deste ano. Sobre a crise energética, vários especialistas têm falado que é difícil ter aquele quadro de 2001, com uma restrição fortíssima na oferta. Devemos ter energia mais cara com risco de blecautes pontuais. Muitos economistas estão falando de um PIB de 5% neste ano, achando que vai ter até um 'boom' a partir do terceiro trimestre, conforme se tenha mais pessoas vacinadas. Nós estamos com 4%. Até vemos uma aceleração no terceiro e no quarto trimestre, mas ainda temos posição mais cautelosa por causa desses riscos.
A taxa básica de juros, a Selic, em um patamar baixo ajudou a economia no primeiro trimestre. O Banco Central, porém, começou a elevá-la. Essa mudança pode segurar a economia no fim do ano?
Mesmo com a mudança na política monetária, ela continuará estimulativa. Vai dar menos suporte para a economia, mas ainda vai dar. O juro neutro hoje é estimado entre 6,5% e 7% por algumas casas. Abaixo desse patamar, ainda é estimulativo. Nós estamos projetando 5,5% de juros para o fim do ano.
O agronegócio, um setor que emprega pouco, foi o que mais cresceu no início do ano. A sra. também comentou que, no primeiro trimestre, houve queda no consumo entre as rendas mais baixas e aumento entre as mais altas. Esses fatos indicam que veremos uma retomada mais concentradora de renda?
Esse é o cenário. A crise foi muito regressiva e afetou muito mais os mais pobres do que os mais ricos. O que observamos é que o mercado de trabalho formal tem mostrado recuperação, e o informal ainda está num ritmo lento. Olhando para frente, essa é a tendência. Trabalhadores formalizados, com maior escolaridade, tenderão a puxar mais do que o informal.