Maria, de 1 ano e 5 meses, morreu nos braços da mãe; conheça histórias de crianças vítimas de covid
Maria enfrentou a doença por quase um mês, Lucas desenvolveu síndrome rara e Bernardo piorou rápido. 'Estadão' reúne histórias de crianças que morreram em decorrência do novo coronavírus
Na manhã de 11 de março deste ano, os médicos desligaram os aparelhos que mantinham com vida a pequena Maria, de um ano e cinco meses, após uma luta de quase um mês contra a covid-19. Quando morreu, a bebezinha não tinha idade suficiente para entender o que era a pandemia que a levou. Mas a assistente social Lorena Ferrari, mãe da menina, sabe bem o que é saudade.
Em 15 de fevereiro, uma segunda-feira, Lorena percebeu que Maria estava com febre e que a respiração da criança não estava normal. Resolveu, então, levar a bebê a um hospital particular de Varginha, no sul de Minas Gerais, onde vive a família. Uma médica plantonista avaliou a menina e achou que aqueles sintomas eram de gripe, sem qualquer gravidade. A mãe ainda chegou a pedir um raio X para o pulmão e insistiu que a respiração da filha estava estranha, mas a profissional disse que o procedimento era desnecessário porque iria expor a bebê à radiação. A médica mandou Maria para casa, mas pediu um teste de covid para ela, que seria realizado na quinta.
A pequena piorou nos dias seguintes. Na quarta, a mãe a levou novamente ao hospital. Assim como da primeira vez, a médica de plantão não quis auscultar o pulmão da bebê, relata Lorena. Preocupada, ela foi até o consultório da pediatra que acompanhava a menina, e uma avaliação rápida apontou que a criança estaria com pneumonia. De volta ao hospital, Maria passou por um raio X, que apontou que seu pulmão estava 25% comprometido.
Sem UTI pediátrica para covid na cidade, a pequena foi levada para Pouso Alegre, já intubada, na noite de quinta. A partir daí, o quadro só se agravou. No sábado, ela teve uma parada cardíaca de 24 minutos, mas foi reanimada. Na segunda, Lorena percebeu que a filha não tinha mais nenhum reflexo. Os médicos, então, deram a notícia que ela mais temia: Maria havia sofrido morte cerebral. O desfecho da história, entretanto, só aconteceria 22 dias depois, em 12 de março.
"Os médicos precisavam fazer exames para diagnosticar a morte cerebral, mas, para fazer os procedimentos, eles precisavam diminuir a quantidade de oxigênio que Maria recebia. Quando eles diminuíam, a saturação dela caía. Isso não é permitido por lei. A gente teve que esperar até 11 de março, quando a saturação dela estabilizou. Eles fizeram os exames e constataram a morte cerebral. No dia seguinte, os órgãos dela foram deixando de funcionar, e os médicos foram desligando os aparelhos. Ela morreu nos meus braços", relata Lorena.
A mãe de Maria passou a usar antidepressivos e remédios para dormir. Começou a trabalhar no RH de uma empresa, fazendo trabalhos administrativos, para tentar ocupar um pouco a cabeça. Precisa estar bem para cuidar da filha mais velha, de 10 anos, que também sofre com o luto da morte da irmã - as duas eram muito apegadas. Para ajudar a lidar com a dor, Lorena criou uma página no Instagram, onde posta fotos e textos sobre a filha. "É muito delicado lidar com a ausência."
Lucas, de um ano, era filho único e a maior alegria de Jéssika
Os primeiros sintomas de Lucas, de um ano, surgiram em 8 de maio do ano passado. O menino, que nunca rejeitava uma mamadeira, passou a apresentar falta de apetite, além de febre. Filho único, veio inesperadamente, e era a maior alegria da professora Jéssika Ricarte, que havia passado dois anos tentando engravidar, sem sucesso.
Diante dos sinais que a criança apresentou, Jéssika resolveu levar o filho a um pronto-socorro municipal de Tamboril, cidade a 300 km de Fortaleza, capital cearense. Um exame com oxímetro mostrou que a saturação de Lucas estava em 86, o que já indicava a necessidade de oxigênio suplementar. Mesmo com isso, o médico se recusou a testá-lo para a covid-19 e disse que o quadro da criança não era mais que uma dor de garganta. "Antes de existir covid, existem outras doenças, mãe", disse o profissional, segundo relato de Jéssika.
A professora acreditou no médico - não sabia que aquele nível de saturação exigia tratamento rápido - e voltou para casa, acreditando que estava tudo bem. Iniciou um tratamento de dez dias com antibióticos, receitados pelo profissional, e percebeu que o filho estava melhorando com os medicamentos.
Com o fim do tratamento, no entanto, Lucas começou a piorar. "Quando parei de dar os antibióticos, percebi que a respiração dele não tinha voltado ao normal", conta. O menino passou a ficar muito sonolento, cansava com movimentos simples e passou a vomitar muito. Jéssika resolveu levar o filho ao hospital novamente, em 3 de junho. O médico que o atendeu pediu teste de covid, que deu positivo, e o garoto passou a receber máscara de oxigênio.
Lucas precisava de uma UTI pediátrica. Foi transferido, então, para o Hospital Regional de Sobral, cidade com mais estrutura para tratar casos graves da doença. Uma tomografia mostrou que seu pulmão estava comprometido e que seria preciso intubá-lo com urgência para melhorar a oxigenação. Durante o processo de intubação, a criança sofreu uma parada cardíaca, mas foi reanimada. Jéssika viu tudo.
Na UTI, a criança piorou. Uma tomografia apontou que ele estava com miocardite, uma inflamação no miocárdio, músculo do coração. O quadro mostrava que Lucas tinha desenvolvido a Síndrome Inflamatória Multissistêmica Pediátrica (SIM-P), enfermidade grave e rara associada à covid-19, e que pode ser mortal.
O garoto iniciou um tratamento com imunoglobulina para diminuir a inflamação. Reagiu bem após algumas doses e conseguiu retomar as funções normais do coração. Mas, em 28 de junho, um novo problema: Lucas teve um derrame causado pela covid.
Àquela altura, depois de tantos agravamentos no quadro de saúde, era improvável que os pais recebessem em casa o mesmo Lucas que conheciam antes da internação, caso ele sobrevivesse. Apesar dos prognósticos negativos, a criança começou a reagir, e os médicos passaram a vislumbrar a possibilidade de a criança receber alta da UTI.
Em 8 de julho, uma chamada telefônica feita pelo hospital pôs fim a essa esperança. Temendo que a ligação trouxesse a notícia que menos desejava, Jéssika atendeu com apreensão. Do outro lado da linha, a médica dizia que Lucas se recuperava bem, mas teve uma parada cardíaca na madrugada, decorrente de um mal súbito. Os profissionais tentaram reanimá-lo por 45 minutos, sem sucesso. Apesar de lutar com valentia, Lucas perdeu a batalha travada contra a covid por mais de um mês.
"Quando meu filho morreu, isso destruiu a minha vida e a do meu marido, a dos avós dele. O primo dele, de 8 anos, tem problemas psicológicos porque vive esse luto tão cedo. Eu tô com tanta saudade do meu filho. É muito, muito difícil", desabafa.
A postura do presidente Jair Bolsonaro frente à covid torna a morte de Lucas mais dolorosa para Jéssika. "Eu estou fazendo terapia para o meu luto e, no luto, tem uma fase que é a da raiva. O objeto da minha raiva foi o presidente. É muito triste você, como mãe, ouvir alguém menosprezar uma doença e a vida de outras pessoas. Você é o líder do nosso país, você deveria dar o exemplo."
"Quando o Lucas faleceu, eu achei que tinha sido um castigo meu. No dia 7 de julho (um dia antes do Lucas falecer), eu saí do hospital e vi que o Bolsonaro tinha testado positivo para a covid. Eu não queria que ele morresse, mas eu queria que ele sentisse metade do que meu filho está sentindo, para ele reconhecer que essa doença é séria."
Bernardo, de três anos, morreu uma semana depois de ser diagnosticado com covid
Bernardo Rivera, de três anos, tinha a saúde debilitada por um afogamento sofrido em setembro do ano passado e recebia cuidados em uma estrutura de UTI montada dentro de casa. Ao contrair o coronavírus, acabou não resistindo: morreu uma semana depois de testar positivo para a covid.
O pai, José Rivera, exibe força ao falar sobre a morte do filho. Diz que precisa apoiar a esposa, que sofre muito com a ausência de Bernardo. "Eu vejo que ela acorda no meio da noite, sem ar, chorando pela falta dele." Mas a serenidade é apenas uma das formas de se lidar com o luto. A saudade não deixa de ser dolorosa. "A dor de um pai enterrar um filho é muito grande. Nós sentimos isso na pele, sabemos o quanto é difícil. Uma criança com tanta vida pela frente…", lamenta.
Mesmo com a dor da perda, Rivera, vereador em Alumínio, cidade da Região Metropolitana de Sorocaba (SP), tenta usar a visibilidade do seu mandato para mostrar que a população precisa se proteger. Ele ressalta a importância de que autoridades políticas liderem o processo de conscientização da população sobre as medidas de combate ao coronavírus.
"Depois do que aconteceu, muita gente vem falar comigo, vem perguntar a minha opinião. Essa é a importância que tem a nossa voz para a população. Eu quero conscientizar as pessoas. Se o Bernardo salvar uma vida, eu fico contente", diz ele.
O vereador culpa o presidente Jair Bolsonaro pelas mais de 460 mil mortes causadas pela doença no Brasil. Assim como ele, Rivera achou que a covid seria uma doença leve, uma gripe mais forte, que mataria apenas as pessoas com comorbidades. Mas, ao contrário do chefe do Executivo, mudou de ideia ao perceber o agravamento da pandemia. Antes do filho, ele perdeu um cunhado para a doença, também este ano.
Comentários
Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie.