Favela do Vidigal, no Rio, vê drama da fome se agravar
Com a pandemia, aumentou muito o número de moradores dali que dependem da doação de alimentos
A pandemia do coronavírus tem desestruturado famílias que já conviviam com o mínimo possível. Não é diferente para quem mora no Vidigal, bairro que reúne alguns poucos privilegiados, em casas e prédios charmosos – por ali passaram a cantora Gal Costa e o ator Caio Blat -, e milhares de outras pessoas que habitam a favela situada na zona sul do Rio.
No local, tem aumentado o número dos que procuram a associação de moradores para conseguir algum alimento.
“Toda hora vem alguém perguntando se temos cesta básica. É uma tortura dizer ‘não’, corta o coração da gente”, relata o diretor da associação, Moisés Alves.
O Vidigal registra oficialmente seis casos da covid-19, com uma morte. No bairro, com cerca de 35 mil habitantes, moram muitos vendedores ambulantes, quase todos sem trabalho, em razão da necessidade do isolamento social para evitar a expansão da doença.
“Temos muitos aqui abaixo da linha da pobreza. Há ações importantes, como da igreja católica e de ongs, com suas doações. Mas a demanda tem subido nas últimas semanas e é muito difícil atender a todos”, explica Moisés, que presenciou dias atrás uma cena chocante.
“Uma senhorinha que cuida da sobrinha com câncer e ainda cria uma criança veio comprar três pães e contou que fica sempre na expectativa de sobrar um pãozinho pra ela comer. São histórias que se repetem a cada dia na nossa comunidade.”
A associação tenta dar suporte a aproximadamente 200 moradores do Vidigal, devidamente cadastrados na entidade. Mas só consegue atendê-los quando recebe doações.
“Não temos renda, dependemos da boa vontade alheia. Semanas atrás, um amigo do Leblon doou 25 cestas básicas. Outro doou água mineral, teve quem nos entregasse centenas de sabonetes. Mas isso tudo acaba logo. Não sei, por exemplo, se a alma caridosa que cedeu 25 cestas vai fazer isso de novo no mês que vem.”
Enquanto esperam a colaboração de quem esteja disposto a atenuar o drama da comunidade, moradores do Vidigal trabalham em conjunto para combater a propagação da covid-19.
Chegaram a convocar para esse domingo (26) um mutirão de higienização, com cada qual lavando a entrada de sua casa com água e sabão. Mas o evento acabou cancelado depois que a Companhia Estadual de Águas e Esgotos do Rio de Janeiro (Cedae) se comprometeu a fazer esse serviço nesta sexta-feira.
“A limpeza é fundamental para a gente não ver a situação piorar. Na parte de baixo do morro, eu e outros colaboradores temos nos preocupado com isso. Que bom que a Cedae resolveu agir”, diz o líder comunitário José Antonio do Nascimento. A Comlurb (Companhia Municipal de Limpeza Urbana), segundo ele, doou sacos para o depósito do lixo.
Quem tiver interesse em fazer doações para o Vidigal pode entrar em contato com a associação, pelo telefone 3322-9723, ou mandar mensagem para amv.vidigal@hotmail.com a fim de obter informações.