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Coletores de material reciclável enfrentam fome e exploração

Catadores perderam mais da metade da renda, continuam trabalhando e muitos ainda não receberam o auxílio emergencial do governo

14 mai 2020
15h12
atualizado às 15h29
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Fátima, de 65 anos, trabalhava 8h por dia coletando materiais recicláveis com sua carroça até poucas semanas atrás, quando testou positivo para o coronavírus. Moradora do Jardim Itapema, bairro pobre da zona leste de São Paulo, ela não teve o privilégio de entrar em quarentena: seu auxílio emergencial do governo demorou para ser aprovado - assim como o de muitos brasileiros -, e a idosa se expôs à doença com medo de se endividar no fim do mês.

Coletores de material reciclável enfrentam fome e exploração em meio à pandemia
Coletores de material reciclável enfrentam fome e exploração em meio à pandemia
Foto: Fábio Motta / Estadão Conteúdo

Agora acamada e com a saúde frágil, Fátima vive das doações de parentes e 18 coletores autônomos da região, que dividem com ela um galpão de reciclagem próximo de sua casa. Todos tiravam cerca de R$ 1,5 mil por mês antes da pandemia, mas, agora, lucram no máximo R$ 500 para sustentar a família. "O momento está difícil para a gente. Os lugares onde coletávamos estão fechados e ninguém aqui recebeu o benefício [federal] até agora. Deixamos de pagar algumas coisas e já tem gente sem ter o que comer", diz o catador Carlos dos Reis, o 'Carlão Catador', de 52 anos.

Para amenizar o problema, o grupo criou a campanha Panela Velha, na qual moradores do entorno lhes pagam de R$ 25 a R$ 30 em troca da retirada de materiais na porta de casa. A iniciativa está garantindo que eles comprem máscaras para trabalhar e tenham o mínimo para sobreviver com a revenda, deixando o material em quarentena por dez dias para evitar o contágio. "Se não fosse isso, estaríamos sem um real no bolso, dependendo da boa vontade dos outros", afirma Reis.

Mas a ação solidária não reflete a realidade da capital paulista. Rodinei Aparecido faz coletas com um carrinho de supermercado na região da Brasilândia - bairro de São Paulo com o maior número de mortes confirmadas ou suspeitas por covid-19 - e está ganhando cerca de R$ 200 por mês, valor insuficiente para pagar o aluguel do barraco onde mora com a esposa. Antes da crise, fazia cerca de R$ 700 e chegava a R$ 1 mil quando dava sorte.

Sem máscaras e luvas, Aparecido reclama da forma como os ferros-velhos estão usando a pandemia para explorar os catadores. Ele ganhava cerca de R$ 3 pelo quilo das latinhas até dois meses atrás; agora, se tirar um real é muito. "Nem bico aparece direito. Se não fosse doação, estaríamos comendo bolacha com café o dia todo."

Segundo João Bourroul, da ONG Pimp My Carroça, o oportunismo desses estabelecimentos é cada vez mais nítido na cidade. "O valor está próximo do que era no carnaval, época na qual a quantidade de materiais [pelas ruas] aumenta e o preço dos recicláveis cai", explica. "Com o comércio fechado, pessoas em casa trabalhando, sem festas, tenho minhas dúvidas se o consumo de latinha aumentou tanto assim a ponto do preço despencar."

Burocracia da Prefeitura incomoda catadores

Ciente de que são trabalhadores mais expostos à covid-19 por mexerem no lixo, o município pagará, por três meses, um auxílio mensal de R$ 1,2 mil para 900 coletores das 25 cooperativas credenciadas na Autoridade Municipal de Limpeza Urbana (Amlurb). Além disso, 1,4 mil catadores autônomos, que participaram de cursos de reciclagem do órgão, terão direito a R$ 600 no mesmo período.

Embora o prefeito Bruno Covas diga que o objetivo da ação é "preservar e priorizar a vida dos mais vulneráveis", dados do Movimento Nacional dos Catadores de Recicláveis (MNCR) mostram que não é bem assim. Os beneficiados pelo programa correspondem a só 30% dos cerca de 7 mil coletores da cidade. Para complicar a situação, 27 cooperativas foram desconveniadas pela Prefeitura por não atenderem à burocracia da Amlurb, que pede a renovação do contrato a cada seis meses.

Segundo uma das líderes do MNCR, Luzia Honorato, a baixa renda dos grupos de coleta leva muitos a não cumprirem o prazo semestral, já que os documentos exigidos geram despesas que a categoria nem sempre consegue arcar. "As cooperativas têm despesas caras com caminhões e manutenção de equipamentos. Esses custos são mais prioritários para a sobrevivência do catador do que os da documentação. Nem sempre dá para lidar com tudo", explica.

Enquanto a burocracia vigora, cerca de 700 cooperados pobres, que poderiam estar recebendo o benefício municipal, seguem sem amparo da Prefeitura na pandemia. Na cooperativa desconveniada Viva Bem, por exemplo, apenas 20 dos 77 catadores estão trabalhando, em respeito às regras de distanciamento social. Todos estão sobrevivendo com a renda reduzida a mais da metade e só 26 deles tiveram o auxílio emergencial do governo federal liberado até agora.

"É desesperador. Muitos ainda estão com o cadastro em análise", afirma Tereza Montenegro, coletora e fundadora da Viva Bem. "Quem tem convênio [com a Amlurb], pode ter dinheiro para comer; quem não tem, não. A prefeitura parece que fez uma divisão entre os que 'podem viver' e os que 'podem morrer'. Estamos trabalhando a duras penas, mesmo fazendo o mesmo serviço que as conveniadas", critica.

Procurada pelo Estado, a Prefeitura informa que a Amlurb lançou o programa Recicla+SP, em dezembro de 2019, para regulamentar a documentação das cooperativas desabilitadas, até a realização de um novo chamamento público.

ONG ajuda coletores com doações e 'vaquinha'

O movimento Pimp My Carroça, que ajuda coletores de todo o Brasil, criou uma campanha de financiamento coletivo, no site Catarse, para distribuir uma renda mínima aos catadores mais vulneráveis, priorizando os autônomos não beneficiados pela Prefeitura. A instituição conseguiu até agora R$ 277 mil e a meta é chegar aos R$ 500 mil.

Caio Cesar, de 43 anos, é um dos que esperam pela ajuda. Ele e a esposa trabalham com uma caminhonete antiga há cinco anos e lucravam cerca de R$ 1,7 mil por mês antes da pandemia. Com os comércios fechados, ficaram sem ter onde retirar material, a renda zerou e mesmo quando aparece uma coleta, saem no prejuízo.

"Quando conseguimos achar algo, não pagam nada. Recebíamos 40 centavos pelo papelão no ferro-velho e agora pagam 15. Às vezes, não rende nem o combustível. Coloco R$ 30 de gasolina e volto com R$ 20 para casa", diz Cesar, que está dependendo dos R$ 600 do governo federal.

João Bourroul, do Pimp, conta que empresas estão doando cestas básicas e ajudando na vaquinha com grandes valores em dinheiro. Além disso, a ONG administra o aplicativo de celular Cataki, que conecta catadores a clientes para a compra e venda de materiais recicláveis. Devido à pandemia, o app estará funcionando apenas para doações aos coletores até a quarentena acabar.

Assista ao apelo dos profissionais da reciclagem:

Em meio ao caos, a exceção

Apesar da crise, há casos raros como o de Rodrigo Lucena, de 34 anos. Catador desde os dez e morador de rua desde os cinco, ele não foi alfabetizado na infância, nunca frequentou a escola, mas fidelizou uma vasta cartela de clientes para bicos com cargas pesadas em suas duas carroças de trabalho, como móveis, refrigeradores, eletrônicos e entulhos.

A terceira carroça ele usa para dormir. Ela conta com televisões LCD, caixas de som, ar condicionado e antena para sinal de TV paga, além de frases críticas como "os catadores sempre fizeram muito mais que todos os ministros do meio ambiente."

O luxo misturado com a simplicidade das ruas não é para menos: antes da pandemia, ele tirava por volta de R$ 5 mil por mês, trabalhando 15h por dia, das 5h às 20h, de segunda a sábado. Com a quarentena, o ritmo caiu e os lucros diários agora variam de R$ 40 a R$ 200. Com medo de a situação piorar, ele solicitou o auxílio emergencial do governo, mas o pedido ainda está em análise.

"Eu estou preocupado e tem gente na pior. Os coletores que não têm o mesmo ritmo de negócios que eu estão sendo extorquidos pelos ferros-velhos, que estão aproveitando a pandemia para lucrar", critica.

 

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Estadão
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