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Bolsonaro defende cloroquina e pede ministros "sintonizados"

Presidente disse que passou a divulgar, nos últimos 40 dias, a possibilidade de tratamento da doença desde sua fase inicial

8 abr 2020
20h52
atualizado em 9/4/2020 às 07h55
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Presidente Jair Bolsonaro durante pronunciamento em cadeia nacional de rádio e TV
Presidente Jair Bolsonaro durante pronunciamento em cadeia nacional de rádio e TV
Foto: TV Brasil / Reprodução / Estadão Conteúdo

O presidente Jair Bolsonaro defendeu nesta quarta-feira, 8, em pronunciamento em rádio e TV, o uso da cloroquina no combate ao coronavírus, destacando resultados positivos em pacientes diagnosticados com a covid-19, embora não haja estudos conclusivos sobre a eficácia do medicamento. Na declaração em cadeia nacional - a quinta desde o início da crise envolvendo a pandemia -, o presidente também voltou a criticar medidas de isolamento social e a volta ao trabalho, mas adotou um tom mais conciliador em relação a governadores.

"Após ouvir médicos, pesquisadores e chefes de Estado de outros países, passei a divulgar, nos últimos 40 dias, a possibilidade de tratamento da doença desde sua fase inicial", afirmou o presidente, citando o caso do médico Roberto Kalil Filho, diretor-geral do Centro de Cardiologia do Hospital Sírio-Libanês, que se recuperou após ter sido contaminado com o coronavírus. Ele admitiu nesta quarta-feira ter tomado a cloroquina e disse que recomendaria a seus pacientes. "Essa decisão poderá entrar para a história como tendo salvo milhares de vidas no Brasil. Nossos parabéns ao Dr. Kalil."

A defesa da aplicação da cloroquina, sem restrições, contraria o que diz o ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta. A recomendação da pasta tem sido de adotar a substância apenas em casos mais graves. A cloroquina ou a sua variação, a hidroxicloroquina, é usada para o tratamento da malária e de doenças autoimunes.

Na segunda-feira, Mandetta afirmou ter sido pressionado por dois médicos a editar um protocolo para administração do remédio em pacientes da covid-19, após reunião com Bolsonaro. Ele se recusou alegando ausência de embasamento científico.

Na fala de hoje, Bolsonaro disse que seus ministros "devem estar sintonizados com ele". "Tenho a responsabilidade de decidir sobre as questões do País de forma ampla, usando a equipe de ministros que escolhi para conduzir os destinos da nação", afirmou o presidente.

O uso amplo da cloroquina também virou uma arma política na batalha entre Bolsonaro e os governadores. Em recente postagem no Twitter, o presidente desafiou o chefe do Comitê contra a covid-19 em São Paulo, Davi Uip, e também o cardiologista Roberto Kalil - que contraíram coronavírus - a dizer se haviam usado cloroquina no tratamento contra a doença. O governador de São Paulo, João Doria, reagiu. "Peço respeito à medicina e aos médicos. Nossa guerra é contra o coronavírus. O ministro Mandetta vem cumprindo bem sua função como ministro da Saúde. Não faz sentido atacar o médico David Uip, pelo dito gabinete do ódio. E nem o doutor Roberto Kalil. Por favor, respeitem os médicos e a medicina, os enfermeiros, aqueles que estão doando seu conhecimento e dedicação para ajudar as pessoas a manterem sua saúde", disse Doria. "O governador não precisa querer politizar assunto da cloroquina", rebateu Mandetta.

No pronunciamento, Bolsonaro citou que tem falado da cloroquina há 40 dias. O uso da substância contra o coronavírus entrou no debate da pandemia há menos tempo, no dia 19 de março, quando o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, levantou a possibilidade de o remédio ser eficaz para a covid-19. A fala provocou corrida às farmácias e deixou pacientes que dependem dela sem o medicamento. No dia seguinte, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) passou a restringir a sua venda, exigindo receita médica.

Pronunciamentos

Desde que o primeiro caso de infecção pelo novo coronavírus foi confirmado no Brasil, Bolsonaro fez cinco pronunciamentos em cadeia nacional de rádio e TV. Em todos ele foi alvo de panelaços nas janelas.

O terceiro foi o mais duro, preparado sob a consultoria ideológica do "gabinete do ódio", chefiado pelo vereador Carlos Bolsonaro (Republicanos-RJ). Na ocasião, o presidente comparou o coronavírus a uma "gripezinha" e pregou a reabertura do comércio e das escolas. No último pronunciamento, Bolsonaro amenizou o tom e pregou um pacto nacional com Congresso, Judiciário, governadores, prefeitos e a sociedade para o enfrentamento da pandemia.

A fala em cadeia nacional, no entanto, não representou uma trégua. O presidente manteve as críticas a governadores e ao próprio ministro da Saúde. A recusa do ministro de contrariar recomendações de organizações de saúde para atender o que prega o presidente levou a um estremecimento na relação e a rumores de que ele seria demitido.

Em entrevista na segunda-feira, Mandetta admitiu que seus auxiliares na pasta chegaram a limpar suas gavetas. Na ocasião, em um pronunciamento à imprensa, ele pediu "paz" para trabalhar e reclamou de críticas que, em sua visão, criam dificuldades para o seu trabalho.

Dias antes, Bolsonaro havia afirmado que Mandetta "extrapolou" e que faltava "humildade" ao chefe da pasta da Saúde. E destacou que não o demitiria no "meio da guerra", apesar de ninguém em seu governo ser "indemissível".

A avaliação do presidente é de que seu ministro adotou uma postura arrogante diante da crise e deveria ouvi-lo mais. "Algumas pessoas do meu governo, algo subiu à cabeça deles. Estão se achando demais. Eram pessoas normais, mas, de repente, viraram estrelas", afirmou o presidente no domingo, ao receber apoiadores no Palácio da Alvorada. Era uma indireta por Mandetta ter participado de uma "live" da dupla sertaneja Jorge e Mateus, quando voltou a defender o isolamento social, um dos pontos de divergência com o chefe do Executivo.

Estadão
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