Coreia do Norte investe lucros com guerra em mais armamentos
A Coreia do Norte tem lucrado bilhões com o envio de tropas e armas à Rússia na guerra da Ucrânia, dinheiro que impulsiona sua economia e reduz o impacto das sanções. Sob a liderança de Kim Jong-un, o país investe esses recursos na expansão de instalações nucleares, modernização naval e obras civis e de transporte na fronteira. Contudo, grande parte dos avanços beneficia apenas as elites da capital, e especialistas alertam para os riscos de crise econômica quando o conflito acabar.
A guerra na Ucrânia e a aliança com Moscou deram ao país um novo impulso econômico, permitindo que o regime leve adiante uma série de projetos há muito desejados.O líder norte-coreano Kim Jong-un está usando o dinheiro que o regime recebeu pela participação de suas tropas na guerra na Ucrânia para financiar uma longa lista de projetos que antes estavam além de seu alcance financeiro.
Em maio, o Serviço Nacional de Inteligência da Coreia do Sul estimou que Pyongyang recebeu, no mínimo, 7,7 bilhões de dólares (R$ 39,2 bilhões) em ajuda financeira e benefícios econômicos da Rússia nos três anos anteriores por enviar homens e material para a guerra de Moscou contra a Ucrânia, podendo o valor chegar a 14 bilhões de dólares (R$ 71,3 bilhões).
Trata-se de uma quantia significativa, considerando que o PIB da Coreia do Norte em 2024 foi de 26,6 bilhões de dólares (R$ 135,65 bilhões).
O apoio de Kim à Rússia tem sido lucrativo, e uma série de relatórios começa agora a identificar para onde esse dinheiro está sendo direcionado.
Parte dos recursos está sendo reservada para a Política de Desenvolvimento Regional 20x10, apresentada em janeiro de 2024 e que prevê a construção de instalações industriais modernas em 20 cidades regionais por ano durante os próximos dez anos, com o objetivo de melhorar os padrões de vida fora de Pyongyang.
Investimentos avançam com apoio russo
Observadores afirmam que mais programas civis estão sendo planejados, embora a maioria pareça destinada às "elites" que vivem em Pyongyang.
"Antes da aliança com a Rússia, a infraestrutura em geral era precária devido a uma combinação de má gestão econômica e sanções", disse Martyn Williams, pesquisador sênior do programa para a Coreia do Centro Stimson, em Washington.
"Com o colapso do consenso no Conselho de Segurança das Nações Unidas e a retomada do comércio com a China e a Rússia, as coisas estão começando a avançar agora", afirmou ele à DW.
"Há vários programas de grande escala para construir fábricas e hospitais em todo o país, [Kim] ordenou o desenvolvimento de distritos inteiramente novos em Pyongyang e existe um projeto habitacional rural que está construindo dezenas de milhares de casas no campo", disse ele, além de investimentos na "modernização de vários setores da economia".
Há, no entanto, problemas estruturais que ainda precisam ser superados, afirmou.
"Há investimentos sendo feitos na construção, mas o grande hospital novo no centro de Pyongyang foi concluído há algum tempo e permaneceu sem uso por um período, até que medicamentos e equipamentos pudessem ser obtidos", disse. "A Coreia do Norte é excelente em construir, mas manter tudo funcionando é o ponto-chave, então observamos para ver se isso acontecerá."
AIEA alerta para nova instalação nuclear
Mas parte desse ganho financeiro está claramente sendo destinada ao setor militar. Na quarta-feira (09/09), a Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) informou ter identificado uma nova instalação de enriquecimento de urânio no Complexo Nuclear de Yongbyon, com cerca de 28 cascatas de centrífugas.
A AIEA estimou que a instalação permitiria ao regime produzir 85 quilos de urânio altamente enriquecido para uso militar por ano, quantidade suficiente para quatro ogivas nucleares.
Imagens de satélite também mostram que o país está ampliando e modernizando o porto de Nampo, na costa oeste, e o de Chongjin, na costa leste da península, para acomodar uma nova geração de navios de guerra.
Na segunda-feira, Kim participou da cerimônia de incorporação do destróier Kang Kon, de 5 mil toneladas, em Wonsan. O líder norte-coreano afirmou que a embarcação é capaz de lançar armas nucleares e poderá "desferir um golpe retaliatório mortal contra os inimigos".
A terceira área de forte investimento tem sido a melhoria significativa de estradas, portos e pontes. Trata-se de uma infraestrutura que ficou estagnada durante anos de isolamento sob sanções internacionais, mas que hoje é necessária para facilitar o envio de mais tropas para a Rússia e a chegada, em troca, de tecnologia militar avançada, energia e bens de consumo.
Na terça-feira, a Coreia do Norte e a Rússia inauguraram sua primeira ponte rodoviária sobre o rio Tumen, com postos alfandegários e instalações de armazenagem em construção dos dois lados da via fluvial. A ponte ressalta os laços em rápida expansão desde que Kim e o presidente Vladimir Putin anunciaram uma parceria estratégica abrangente em 2024.
A rota permitirá um volume maior de intercâmbio por caminhões, reduzirá custos e poderá ser utilizada para o transporte de norte-coreanos, armas e munições para a Rússia. Também reduz ainda mais o efeito das sanções contra a Coreia do Norte.
"Muitos desses projetos, como a melhoria das conexões ferroviárias e rodoviárias transfronteiriças, a construção de instalações alfandegárias e assim por diante, começaram antes da pandemia e seguiram um padrão de avanços e paralisações desde então", afirmou Marcus Noland, vice-presidente executivo do Instituto Peterson de Economia Internacional, em Washington.
"Depois dos tempos difíceis durante a pandemia, que também foi acompanhada pelo fechamento das fronteiras, a economia norte-coreana parece ter crescido nos últimos anos graças às receitas relacionadas à guerra na Ucrânia e ao cibercrime."
Interior segue estagnado
Noland afirmou ter a impressão de que Pyongyang está relativamente bem do ponto de vista econômico, assim como várias cidades na fronteira com a China graças à retomada do comércio, "mas o interior do país continua estagnado".
Embora o conflito na Ucrânia e a aliança de Pyongyang com Moscou tenham sido uma bênção econômica para a Coreia do Norte, dizem os analistas, não está claro o que acontecerá quando a guerra inevitavelmente chegar ao fim.
"O regime norte-coreano pode enfrentar dificuldades se a paz chegar à Ucrânia", afirmou Noland. "Se as receitas relacionadas à guerra secarem, o país poderá experimentar uma queda econômica e um descontentamento associado após um período de expectativas crescentes", enfatizou.
"Não estou dizendo que isso seria suficiente para desestabilizar o sistema, mas acredito que uma transição para a paz na Ucrânia poderia apresentar desafios que o regime teria de administrar."
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