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Conflito no Irã ameaça exportação de grãos e suprimento de fertilizantes do Brasil

5 mar 2026 - 08h46
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Os agricultores brasileiros podem ser afetados pela escalada ‌do conflito no Oriente Médio, de acordo com analistas e dados de mercado que mostram que a região é um destino fundamental para as exportações agrícolas do Brasil e um importante fornecedor de fertilizantes como a ureia.

Os ataques dos EUA e de Israel contra o Irã, que tem alvejado países vizinhos na região, podem provocar cancelamentos de contratos de grãos e escassez de fertilizantes no Brasil, que é altamente dependente de importações, devido às interrupções no tráfego marítimo pelo Estreito de Ormuz.

Os exportadores estão ⁠avaliando se devem descarregar cargas de grãos em Omã para evitar problemas no Golfo Pérsico, de acordo com a consultoria Argus.

"Ainda não ‌há clareza se essa opção é viável, porém a alternativa seria o cancelamento dos embarques", disse a Argus à Reuters. "Também ainda é incerto se todos os volumes poderiam seguir de Omã até seus destinos finais por caminhão ou ferrovia."

Cargas a granel, ‌como milho, entram na região pelo Estreito de Ormuz, disse Arthur da Anunciação ‌Neto, sócio-diretor da Alphamar Agência Marítima.

As ameaças à navegação em águas cada vez mais perigosas aumentaram o custo do ⁠seguro marítimo, afirmou. Dez navios estavam programados para partir para o Irã com mais de 600 mil toneladas de soja e farelo de soja brasileiros, segundo dados da Alphamar. Essas cargas, dependendo das circunstâncias, podem ser desviadas para outros destinos, disse Neto.

O Irã foi o principal destino das exportações de milho do Brasil no ano passado, comprando cerca de 9 milhões de toneladas, ou aproximadamente 20% dos embarques. A maior parte do milho brasileiro é embarcada no segundo semestre do ano.

ROTAS DE NAVEGAÇÃO CRIATIVAS

Os ‌produtores de fertilizantes do Oriente Médio, especialmente o Irã, também são fornecedores importantes para os agricultores brasileiros.

Dados da consultoria Agrinvest mostram que ‌o Brasil supriu 100% de suas necessidades ⁠de ureia com importações em 2025. ⁠Estima-se que 41% dessas importações, ou quase 3 milhões de toneladas, passaram pelo Estreito de Ormuz antes de chegar ao Brasil, segundo os ⁠dados.

Francisco Vieira, sócio-diretor da consultoria Agroconsult, afirmou que a guerra provavelmente restringirá ‌o fornecimento de ureia e aumentará os ‌preços no curto prazo.

"Do Irã não deve vir nada", disse Vieira. "Não se sabe se as fábricas estão sendo atingidas."

Dados do governo brasileiro mostraram 7,7 milhões de toneladas de importações de ureia no ano passado, com remessas do Irã representando menos de 2,5%. No entanto, estimativas privadas sugerem que o Irã seja a origem de cerca de 1,3 milhão a ⁠1,4 milhão de toneladas das importações brasileiras anuais.

As remessas do Irã são frequentemente encaminhadas via Omã devido às sanções dos EUA que afetam pagamentos internacionais envolvendo contrapartes iranianas.

"A ausência de fornecedores do Oriente Médio causará um desequilíbrio na oferta (de ureia)", disse Renato Françoso, da StoneX, à Reuters. O Oriente Médio exporta cerca de 22 milhões de toneladas de ureia, o que representa aproximadamente 40% do comércio global, afirmou.

Tomás Pernías, analista de Inteligência de Mercado ‌da StoneX, acrescentou que dependendo do país, seria possível pensar em rotas que ficam mais afastadas do Estreito de Ormuz, como alternativa.

"A Arábia Saudita poderia escoar parte da produção pelo Mar Vermelho, e Omã possui saída para o mar que ⁠está afastada do estreito... No entanto, há dúvidas sobre a viabilidade econômica de realizar as operações logísticas por meio desses países", afirmou ele.

PROBLEMAS À VISTA

Um conflito prolongado pode afetar as entregas de fertilizantes antes do ciclo de plantio da safra 2026/27 do Brasil, que começa em setembro, dizem analistas.

Thamires Cateli, fundadora da consultoria e corretora Hudie Consulting, disse que a guerra no Irã fez com que os vendedores retirassem suas listas de preços de ureia esta semana, interrompendo o comércio global.

Alguns países podem substituir parte dos embarques de ureia iraniana para o Brasil, mas esses efeitos indiretos ainda não estão claros.

O Egito, que responde por cerca de 8% da oferta global, depende do fornecimento de gás natural de Israel para sua produção, que também pode estar ameaçado, disse Françoso.

A China, outro grande produtor de fertilizantes, vem reduzindo as exportações nos últimos anos para abastecer seu mercado interno. A Rússia, que representou cerca de 16% do fornecimento global de ureia em 2024, também poderia suprir essa lacuna.

No entanto, ataques com drones, como o ocorrido contra uma fábrica de fertilizantes na região russa de Smolensk no mês passado, denotam ameaças a cadeias alternativas de fornecimento de insumos como ureia.

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