China anuncia menor meta anual de crescimento desde 1991
Segunda economia do mundo, país asiático prevê incremento entre 4,5% e 5% no PIB. Aposta de Pequim em "crescer com qualidade" esbarra em baixo estímulo ao consumo, dizem especialistas.O governo da China anunciou nesta quinta-feira (05/03) a menor meta de crescimento anual em décadas, entre 4,5% e 5%. A medida foi divulgada pelo premiê Li Qiang em relatório na reunião anual da Assembleia Nacional Popular, o parlamento chinês.
O país asiático é a segunda maior economia do mundo, mas enfrenta sérios desequilíbrios estruturais e pressões comerciais dos EUA, apesar de manter um alto volume de exportações.
"As conquistas do ano passado foram arduamente conquistadas", disse Li Qiang, ao abrir a reunião. "Raramente, em muitos anos, encontramos um cenário tão grave e complexo, onde choques externos e desafios estavam entrelaçados com dificuldades domésticas e escolhas políticas difíceis", complementou o premiê chinês.
Com a exceção de 2020, quando nenhuma meta foi estabelecida por causa da pandemia do covid-19, a meta de crescimento deste ano é a menor desde 1991. No ano passado, a China registrou um crescimento de 5% no Produto Interno Bruto (PIB) - a meta foi de 5% nos últimos três anos.
Em 2025, o país asiático figurou em terceiro lugar no ranking das nações que mais cresceram, atrás de Índia (7,5%) e Indonésia (5,1%). O Brasil ficou em sexto, com 2,3%, à frente dos Estados Unidos, sétimo colocado, com 2,2%. Na participação do PIB mundial, os EUA ainda lideram, com 26,10%. A China está em segundo lugar, com 16,6%, de acordo com os números do ano passado.
Com a economia doméstica estagnada, a China manteve o crescimento por meio das exportações. O superávit comercial disparou para quase 1,2 trilhão de dólares no ano passado, embora as exportações para os EUA tenham caído depois que o presidente Donald Trump elevou drasticamente as tarifas.
"Crescimento com qualidade"
O Partido Comunista (PCC) vem repetindo a intenção der se afastar de motores econômicos tradicionais, como exportações e manufatura, em direção ao consumo. A batalha tem sido árdua, com a confiança do consumidor em baixa.
As questões estão no topo da agenda das "Duas Sessões", uma série de reuniões da Assembleia Nacional Popular e do órgão consultivo político, a Conferência Consultiva Política do Povo Chinês, iniciadas nessa quarta (04/03). Membros do parlamento se reúnem para aprovar projetos de lei e reformas que, em grande parte, já foram decididas pelo presidente Xi Jinping e pela elite do PCC.
O governo afirmou que o foco, agora, é o crescimento "de alta qualidade", por meio da modernização da indústria, investimento em novas tecnologias e promoção do desenvolvimento verde.
Isso agora é mais importante do que a velocidade do crescimento, disse à AFP Zhiwei Zhang, da Pinpoint Asset Management, e o corte na meta do PIB "é um grande passo que simboliza essa mudança na prioridade da política".
Outras metas para 2026 incluem 4% para o déficit, um teto de 2% para a inflação e um limite de 5,5% para o desemprego nas zonas urbanas - todas sem alterações em relação a 2025.
Os objetivos divulgados indicam "uma economia que entra numa fase de expansão mais lenta", afirma Sarah Tan, da agência de rating Moody's Analytics. "A sustentabilidade está se impondo à velocidade como principal prioridade para o crescimento", diz ela, acrescentando que uma meta menos ambiciosa também retira de Pequim a pressão para adotar políticas agressivas de estímulo e concede ao país uma "maior flexibilidade".
Dificuldades para alavancar consumo interno
Segundo dados oficiais, a segunda maior economia do mundo cumpriu o objetivo ao crescer 5% em 2025, embora especialistas continuem apontando problemas, como fraca demanda interna, risco de deflação, tensões geopolíticas, crise imobiliária e redução nas taxas de natalidade.
"As políticas, de modo geral, vão se manter inalteradas neste ano. Veremos alguma flexibilização monetária adicional, mas pouco em termos de apoio orçamental. E, apesar de [as autoridades] afirmarem querer reequilibrar a economia em direção ao consumo, as medidas concretas nesse sentido continuam tímidas", analisou Julian Evans-Pritchard, da consultora britânica Capital Economics, num relatório.
Segundo ele, há "pouca urgência" do governo chinês para reanimar a demanda interna. Evans-Pritchard prevê que a segunda maior economia do mundo "continuará enfrentando dificuldades devido ao excesso de capacidade [industrial] e à fraqueza da inflação durante algum tempo".
"É um momento em que o governo central deveria aumentar seu déficit orçamentário para impulsionar a economia", disse Zhu Tian, professor de economia da China Europe International Business School, à agência de notícias AFP.
Desenvolvimento interno
No orçamento preliminar para 2026, o governo chinês também reduziu o aumento anual dos gastos com defesa para 7%, abaixo dos 7,2% dos últimos anos.
Além dos planos para 2026, Pequim publicou nesta quinta um rascunho do 15º Plano Quinquenal, com os objetivos o país até 2030. Entre os pontos, está o foco em impulsionar o consumo, assim como o desenvolvimento tecnológico em áreas como inteligência artificial, manufatura avançada e segurança energética e de recursos.
A China vem investindo pesadamente em indústrias de alta tecnologia, como semicondutores e inteligência artificial, para aumentar sua autossuficiência em tempos geopolíticos turbulentos.
O plano quinquenal também delineou metas que incluem dobrar o PIB per capita de 2020 até 2035, reduzir a taxa de desemprego do país para abaixo de 5,5% e impulsionar o progresso ambiental.
fcl/cn (ap, afp, lusa)