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Como um rumor sobre sequestro de mulheres dividiu a Síria

11 set 2026 - 11h22
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Resumo
Na Síria pós-Assad, boatos sobre a "casa das irmãs" — um suposto local para onde mulheres de minorias, sobretudo alauitas, seriam levadas e forçadas a se converter ao islamismo — têm gerado pânico e fuga de famílias. Embora autoridades e agências de checagem apontem falta de provas e uso de imagens geradas por IA, o rumor é instrumentalizado por grupos e ativistas no exterior para alimentar tensões sectárias, enquanto o novo governo tenta estabilizar o país e conter a desinformação.

Boatos diz que vítimas são levadas à "casa das irmãs" e são forçadas a se converter ao islamismo. O lugar, que ninguém sabe se existe, tem sido usado para gerar tensão no país pós-Assad.Foi uma batida na porta e uma ameaça velada que motivaram a professora de matemática Laya, mãe de três filhos, a deixar a Síria.

Outro exemplo do tipo de boato que circula é o de que mulheres de comunidades minoritárias estão sendo vendidas como escravas sexuais
Outro exemplo do tipo de boato que circula é o de que mulheres de comunidades minoritárias estão sendo vendidas como escravas sexuais
Foto: DW / Deutsche Welle

Até recentemente, a mulher na casa dos 40 anos, que pediu que a DW não usasse seu nome completo por motivos de segurança, morava em Damasco, capital do país. Ela e a família são alauitas, da mesma seita religiosa do ex-ditador sírio Bashar al-Assad, e costumam ser alvo de ataques por serem vistos como aliados de Assad.

"Mas nós nunca o apoiamos. O pai dele matou membros da minha família. Na verdade, nós o odiávamos", diz ela à DW. Ainda assim, Layla descreve ter sentido medo quando grupos rebeldes, que ela chama de "extremistas", entraram em Damasco em 2024 pela primeira vez após a queda do regime de Assad.

No início, ela e o marido decidiram ficar na Síria. Mas então um estranho bateu à porta. "Ele disse que sabia que minha filha tocava piano e tinha aulas de dança. 'Você deveria parar com isso. Se não parar, talvez a levemos para a casa das irmãs', continuou ele", conta Layla.

Nos círculos islâmicos conservadores, é malvisto que mulheres toquem instrumentos musicais e dancem em público. E Layla já tinha ouvido falar da chamada "casa das irmãs" - ela havia lido na internet que era um lugar onde mulheres sírias de outras seitas eram forçadas a se converter ao islamismo. Alguns dias depois, a família decidiu deixar o país. Agora, estão no Líbano.

"Eu simplesmente não quero que meus filhos cresçam assim", explica Layla.

A "casa das irmãs"

As notícias sobre a "casa das irmãs" começaram a causar grande repercussão na Síria em maio, depois que a família de Batoul Alloush, uma estudante universitária alauita de 21 anos, comunicou o desaparecimento dela - possivelmente por sequestro -, e ela reapareceu mais tarde vestindo trajes religiosos e afirmando que havia deixado a família para se converter ao islamismo. Já havia outros relatos de mulheres desaparecidas, inclusive da minoria alauita.

Reham Suleiman, psicóloga que trabalha para as Nações Unidas e com a comunidade alauita, explica à DW que tem conhecimento em primeira mão de vários casos de sequestro. "E não se trata apenas de um incidente isolado ou de uma coincidência", afirma. Segundo Suleiman, há evidências de que algumas dessas mulheres foram sequestradas para obter resgate, por vingança ou para serem forçadas a se casar.

Mas outros casos aparentemente foram encerrados depois que as mulheres relataram estar visitando amigos, buscando escapar de suas famílias ou ter fugido com um parceiro amoroso. A própria Alloush declarou que queria se converter ao islamismo e deixar a família. Os pais dela, porém, afirmam que a jovem foi drogada ou forçada a agir contra sua vontade.

Entidades como a Anistia Internacional e a Comissão de Inquérito da ONU sobre a Síria afirmam que os casos - cujo número varia entre 40 e 60 - não foram totalmente investigados.

Informações contraditórias

As autoridades sírias realmente investigaram a "casa das irmãs". Uma porta-voz da Ministra de Assuntos Sociais da Síria, Hind Kabawat, disse à DW que o ministério não concedeu licença a nenhuma instituição com esse nome e que quaisquer centros desse tipo que não possuíssem licença seriam fechados.

Agências sírias de checagem de notícias, como a Verify-Sy, descobriram que as fotos do suposto prédio da "casa das irmãs" foram criadas com inteligência artificial. "Diariamente circula um fluxo constante de alegações não comprovadas sobre supostos sequestros e assassinatos, prisões e casos de tortura em centros de detenção", disse um porta-voz da Verify-Sy à DW.

"Checar muitas dessas informações é um desafio quando as evidências disponíveis em fontes abertas são escassas, contraditórias ou, de alguma forma, insuficientes."

Portanto, não está claro se a "casa das irmãs" existe de alguma forma. Mas, seja real ou não, alguns grupos parecem tê-la instrumentalizado para seus próprios interesses, segundo publicou recentemente o veículo de mídia independente Shaam News Network (SNN).

"Apesar da ausência de qualquer evidência física, as plataformas e páginas de redes sociais começaram a divulgar 'a casa' como um fato comprovado", afirmou a SNN. "E isso gradualmente se tornou o foco de narrativas mais amplas sobre o 'sequestro organizado' de mulheres alauitas."

Influencers estrangeiros

Uma entidade privada chamada Mecanismo de Investigação Sírio (SIM), fundada em maio de 2026, associa a "casa das irmãs" a uma organização muçulmana que realiza atividades de proselitismo para angariar novos convertidos. O SIM alegou que as mulheres desaparecidas foram coagidas a se converter e mantidas na "casa".

Em uma entrevista no YouTube, o diretor do SIM, Yasir Saleti, que mora na Alemanha, afirma que há evidência de "engenharia demográfica". O SIM não respondeu aos pedidos da DW por mais comentários.

Uma organização sediada em Berlim, a União dos Alauitas Sírios na Europa (USAE), também tem feito repetidamente posts sobre a "casa das irmãs".

Em sua página pessoal no Facebook, Muaiad Ibrahim, que figura como vice-diretor da USAE em documentos judiciais oficiais, critica regularmente o novo governo sírio. Recentemente, ele manifestou apoio ao maior líder religioso da Síria durante o regime de Assad, Ahmed Hassoun. No final de agosto, Hassoun foi condenado à prisão perpétua após ser considerado culpado por incitação à guerra civil e cumplicidade em homicídio doloso.

Outras organizações estrangeiras criadas recentemente - incluindo algumas que afirmam ter uma rede de milhões de defensores dos direitos humanos, mas cujos links levam a sites incompletos - também têm divulgado repetidamente histórias sobre a tal "casa das irmãs".

A agência árabe de jornalismo investigativo DARAJ ressalta que algumas dessas organizações têm sido criticadas por seu aparente apoio ao regime de Assad.

Danos causados

"Esse tipo de informação vai e volta em ondas, mas tem um impacto real e é bastante poderoso", afirma Gregory Waters, pesquisador sênior do Atlantic Council, que viajou extensivamente pela Síria e acompanha os acontecimentos no país por meio de seu site, o Syria Revisited.

"Há nisso uma intenção política de isolar os alauitas, de instigar o medo neles e impedi-los de se relacionar com o governo e com os sunitas, e, talvez, até certo ponto, levá-los a se aproximar de redes insurgentes [antigovernamentais]." A propaganda online se alimenta de acontecimentos reais nas comunidades minoritárias, inflando ainda mais os medos que já existem, afirma ele.

A Verify Sy realiza uma auditoria mensal sobre desinformação online. Pesquisadores da organização afirmam que o incitamento é o segundo objetivo mais comum. Segundo Waters, as autoridades sírias vêm tentando controlar os influenciadores locais que disseminam desinformação, embora, obviamente, não possam exercer influência sobre aqueles que estão no exterior.

Como em qualquer outro lugar do mundo, há um amplo leque de opiniões dentro de cada comunidade síria, observa Waters. "Há quem insista que existe um programa de limpeza étnica, e há outros que dizem que a vida está boa, que estamos totalmente integrados ao Estado."

Embora isso dependa da região do país em questão, ele não acredita que as relações entre as diferentes comunidades estejam piorando. "Na Síria, tudo é específico do ambiente local", explica Waters. "Portanto, em alguns lugares, poderíamos dizer que as barreiras entre as comunidades se tornaram mais rígidas nos últimos dois anos e que houve pouco progresso na redução dessas barreiras. Mas, mesmo assim, esses obstáculos não estão ficando mais altos."

Estabilidade antes de tudo

Para Naseef Naeem, diretor de pesquisa da Fundação Candid, com sede em Berlim, no momento, de modo geral, o governo de Damasco está ocupado estabelecendo instituições, assumindo o controle da situação de segurança e tentando estabilizar o país. O especialista da entidade, que presta consultoria sobre assuntos sírios, acrescenta que, mais cedo ou mais tarde, a Síria precisará de um diálogo nacional mais amplo entre os diferentes grupos comunitários.

Enquanto isso, tanto ele quanto Waters acreditam que a economia síria, devastada após anos de guerra, pode ser a chave para melhores relações. "Assim que a recuperação econômica realmente começar, muitos desses fenômenos desaparecerão gradualmente", diz Naeem.

Por exemplo, aponta Waters, durante o verão, muitos turistas locais, vários deles sunitas, foram até o litoral sírio, uma região onde vivem muitos alauitas. "Houve um enorme boom turístico", explica. "Todo mundo está interagindo, e amigos que estão lá me contaram que não houve assédio nem violência. O governo e as autoridades de segurança realmente deram ênfase ao apoio ao setor de turismo nas áreas costeiras este ano, e isso teve um impacto muito positivo."

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