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Como um fundo de capital político dos EUA está influenciando a eleição no Brasil

Cofundada pelo vice-presidente americano J.D. Vance, a Rockbridge oferece ao candidato do PL, Flávio Bolsonaro, vantagens estratégicas na disputa apertada com Lula

16 out 2026 - 13h27
(atualizado às 14h12)
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Resumo
A Rockbridge Network, fundo de capital político dos EUA cofundado por J.D. Vance, busca influenciar a eleição brasileira aproximando investidores da campanha de Flávio Bolsonaro. Apesar de denúncias sobre suposto financiamento estrangeiro ao TSE e ao STF, a rede atua sem repasses diretos comprovados, fornecendo métodos de mobilização, relatórios e acesso direto a Washington com foco em terras raras. A oposição explora o caso acusando o candidato de submissão aos interesses norte-americanos.

No primeiro turno das eleições no Brasil, em 4 de outubro, Flávio Bolsonaro (PL) terminou à frente com 47,03% dos votos válidos, contra 45,16% do atual presidente, Luiz Inácio Lula da Silva (PT). A diferença foi de pouco mais de 2,2 milhões de votos, e as primeiras pesquisas para o segundo turno apontam empate técnico. Numa disputa assim, fatores que seriam marginais numa eleição folgada passam a ser decisivos. Um deles vem de Washington e tinha nome pouco conhecido no Brasil até setembro de 2026, às vésperas da eleição: Rockbridge Network.

Um fundo de capital de risco para a política

A Rockbridge foi criada em 2019 pelo atual vice-presidente dos EUA, J.D. Vance - então investidor do Vale do Silício -, e por Chris Buskirk, editor do site pró-Trump American Greatness. Num folheto de 2021 distribuído a doadores e revelado pelo New York Times no ano seguinte, a rede se definia como "uma espécie de firma de capital de risco político". A ideia era reunir doadores insatisfeitos com o Partido Republicano tradicional e aplicar seu dinheiro em um portfólio de projetos: mídia própria, preparação de quadros para um futuro governo nos EUA e mobilização eleitoral nos estados americanos.

A fórmula funcionou. Em 2024, segundo a agência de notícias Reuters, a rede tinha um orçamento de cerca de US$ 75 milhões para o ciclo eleitoral, voltado a jornalismo de direita, pesquisas e mobilização de eleitores em estados decisivos para a eleição presidencial nos EUA. Parte relevante de sua estrutura é composta por entidades que não são obrigadas a revelar seus doadores. Entre os financiadores, a imprensa americana identificou Peter Thiel, cofundador e presidente da empresa de tecnologia Palantir, e Rebekah Mercer, uma das donas do site de notícias de extrema-direita americano Breitbart.

Donald Trump participou por telefone de uma reunião da rede em abril de 2024, e meses depois escolheu Vance como companheiro de chapa. Desde a vitória republicana na eleição de 2024, a Rockbridge funciona como ponte entre doadores e governo: altos funcionários da administração passaram a fazer apresentações para seus membros.

O Brasil não é o primeiro destino externo das ações da Rockbridge. Em setembro de 2025, a rede lançou um braço na Coreia do Sul, presidido por Kim Hae-young, ex-parlamentar do Partido Democrático da Coreia, de centro-esquerda. O conselho reúne o ex-primeiro-ministro Kim Boo-kyum, do mesmo partido, o ex-ministro das Finanças Bahk Jae-wan, de um governo conservador, e Chung Yong-jin, presidente do grupo Shinsegae. Em Seul, a Rockbridge se apresentou como canal de acesso ao governo Trump para as elites dos dois lados do espectro político. No Brasil, o padrão seria outro.

O que se sabe sobre a Rockbridge no Brasil

Em 25 de setembro de 2026, a Folha de S.Paulo revelou que a Rockbridge havia iniciado sua instalação no país. Documentos obtidos pelo Intercept Brasil detalham o projeto. Um plano de negócios de abril de 2026, marcado como "não público" e assinado com a marca "Rockbridge Network Brasil", descrevia a operação como um "fundo de venture capital político", eco quase literal da autodefinição da matriz americana. As anuidades dos membros financiariam projetos em três frentes consideradas "em desequilíbrio": imprensa, universidades e Legislativo.

Um segundo documento, confidencial e sem assinatura, tinha Flávio Bolsonaro como destinatário. Propunha um Conselho de Tecnologia de 23 empresários, 19 deles estrangeiros, para assessorar diretamente o candidato à Presidência pelo PL e aproximar investidores americanos de um eventual governo seu em setores como defesa, energia, data centers e terras raras. O texto apresentava o conselho como útil "como ferramenta de campanha" e "como plataforma de governo", e acenava com compromissos de investimento antes mesmo da posse. Não há indícios de que o material tenha chegado ao candidato, e várias das empresas listadas negam ter sido consultadas.

Os nomes envolvidos, no entanto, estão próximos da campanha de Flávio Bolsonaro. O empresário Pedro Sang, apresentado no documento como diretor executivo da operação brasileira, disse ao Intercept que o conselho "foi só uma ideia, que nunca prosperou nem avançou". Sang conheceu a Rockbridge por meio de André Marinho (Novo), candidato ao governo do Rio e filho do empresário Paulo Marinho, suplente de Flávio no Senado.

Marinho escreveu um memorando sobre uma parceria Brasil-EUA em terras raras num eventual governo Flávio, que hoje descreve como "exercício hipotético". Nove dias depois de o arquivo ser criado, Flávio disse na CPAC, evento político conservador americano em Dallas, que o Brasil era a solução para os Estados Unidos se livrarem da dependência da China em minerais críticos.

No novo episódio da série Revelando, "Pátria submissa", Wagner Moura fala sobre o acordo em andamento para entregar aos EUA as terras raras brasileiras em caso de vitória de Flávio Bolsonaro.

Tallis Gomes, fundador da Easy Taxi, afirmou em abril, no podcast Os Sócios, que fazia parte da Rockbridge e que Flávio lhe pedia propostas por escrito para o plano de governo. Hoje, diz ao Intercept participar apenas de um grupo de networking. Em 1º de outubro, aliados do candidato do PL disseram à Folha que empresários ligados à rede produziram relatórios e prestaram consultoria à campanha.

A Rockbridge negou por semanas ter planos para o Brasil, até admitir que abriu nos Estados Unidos uma empresa, a Rockbridge Brazil LLC, registrada no Wyoming em maio. Afirma que a iniciativa não prosperou, que a empresa nunca recebeu recursos nem operou e que brasileiros produziram documentos com seu nome sem seu consentimento. A campanha de Flávio Bolsonaro nega ter recebido recursos estrangeiros.

A disputa judicial e o limite da prova

A acusação de financiamento externo para a campanha partiu de Renan Santos, então candidato à Presidência pelo Missão, que afirmou, sem apresentar provas, que a campanha de Flávio Bolsonaro recebia dinheiro da rede de forma indireta. A partir disso, o deputado Lindbergh Farias (PT-RJ) acionou o STF em 11 de setembro. O PT pediu ao ministro Flávio Dino um inquérito da Polícia Federal, e a campanha de Lula levou o caso ao TSE, pedindo registros de encontros, contratos e despesas.

A lei eleitoral brasileira proíbe doações de entidades estrangeiras a campanhas. Até agora, porém, não há prova pública de que dinheiro da Rockbridge tenha chegado à candidatura de Flávio Bolsonaro, e é improvável que os tribunais concluam qualquer investigação antes de 25 de outubro, data do segundo turno da eleição presidencial.

Como influenciar a eleição sem fazer doação

O debate concentrado no dinheiro, contudo, faz a pergunta errada. A Rockbridge não precisa ter transferido um dólar para ter peso nesta eleição.

A primeira é programática. A rede oferece a Flávio Bolsonaro algo que nenhum outro candidato tem: um canal direto com o círculo que cerca o vice-presidente dos Estados Unidos, que lidera a maioria das pesquisas para a indicação republicana para as eleições presidenciais americanas de 2028. Quem registrou a Rockbridge Brazil LLC foi Chris Applegate, encarregado da relação de Vance com doadores.

Com parte das exportações brasileiras sujeita a tarifas de até 37,5% desde julho, na segunda rodada de sanções comerciais depois que a Suprema Corte americana derrubou o tarifaço de 2025, a promessa de recompor a relação com Washington tem valor eleitoral, sobretudo entre empresários e exportadores.

A proposta de cooperação em terras raras, recurso do qual o Brasil detém a segunda maior reserva do mundo, atrás apenas da China, dá conteúdo concreto a essa promessa. E ela coincide com a prioridade da diplomacia econômica de Trump na disputa com a China por cadeias de suprimento. O candidato pode se apresentar não apenas como aliado ideológico de Trump, mas como seu interlocutor preferencial.

A segunda é organizacional. O que a Rockbridge vende nos Estados Unidos é método. Seu folheto de 2021 previa mídia própria, programas para influenciadores e um "governo em espera" para preparar quadros, e a rede financiou a mobilização de eleitores nos estados decisivos em 2024.

O plano brasileiro reproduzia esse modelo. Mesmo que a entidade nunca tenha operado formalmente no país, o conhecimento circula por pessoas, e algumas delas, segundo aliados do próprio Flávio Bolsonaro, já trabalharam para sua campanha. Em um segundo turno decidido por poucos pontos, a capacidade de mobilizar empresários, financiar conteúdo e levar eleitores às urnas por vias legais e domésticas pode valer mais do que qualquer transferência internacional.

A terceira é o efeito bumerangue. A Rockbridge pode ser decisiva também contra Flávio Bolsonaro. A campanha de Lula já incorporou o tema à sua propaganda, com a acusação de que Trump quer "colonizar" o Brasil. Em 2025, o tarifaço dos EUA rendeu ganhos de popularidade ao presidente, ao transformar uma disputa comercial em questão de soberania. A presença de uma rede ligada ao vice-presidente americano em torno de um candidato oferece ao governo a mesma narrativa. O ativo que aproxima Flávio Bolsonaro dos empresários é o mesmo que o expõe junto ao eleitor nacionalista.

O que fica para depois de 25 de outubro

Qualquer que seja o resultado das eleições, o episódio revela uma mudança no modo como a extrema-direita americana projeta influência no Brasil. A Atlas Network, por exemplo, apoiou no país uma rede de institutos liberais que difundiram o receituário neoliberal e cujos dirigentes chegaram a altos postos no governo Bolsonaro.

A Rockbridge, por sua vez, exporta outra coisa: um modelo de capital político organizado que articula doadores, candidatos e acesso ao governo americano, com uma agenda econômica precisa, de minerais críticos e tecnologia, alinhada à rivalidade com a China. E o plano para o Brasil não termina na eleição: prevê conselhos permanentes para imprensa, universidades e Legislativo, financiados pelas anuidades dos membros.

A comparação com a Coreia do Sul mostra o que há de específico no caso brasileiro. Em Seul, a rede reuniu elites dos dois lados do espectro político em torno da aliança com Washington. No Brasil, apostou em um candidato. Trata-se de diplomacia econômica privada e partidária, que opera por fora dos canais oficiais e em benefício de um lado da disputa.

Em 2019, Chris Buskirk falou no Itamaraty sobre como o globalismo ameaçaria a soberania nacional. Sete anos depois, a rede que ele dirige listava 19 executivos estrangeiros para assessorar diretamente um candidato à Presidência.

A lei eleitoral proíbe que campanhas recebam de entidades estrangeiras doações em dinheiro ou estimáveis em dinheiro. Relatórios e consultoria, se comprovados, podem entrar nessa conta. Mas a promessa de acesso a Washington e de investimentos futuros não tem preço declarável, e é justamente isso que a Rockbridge oferece. Num país dividido ao meio, essa lacuna pode decidir o próximo governo.

The Conversation
The Conversation
Foto: The Conversation

Filipe Mendonça não presta consultoria, trabalha, possui ações ou recebe financiamento de qualquer empresa ou organização que poderia se beneficiar com a publicação deste artigo e não revelou nenhum vínculo relevante além de seu cargo acadêmico.

The Conversation Este artigo foi publicado no The Conversation Brasil e reproduzido aqui sob a licença Creative Commons
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