Como cuidar das árvores urbanas, aliadas do clima sob ameaça
Essenciais para resfriar cidades, absorver carbono e melhorar a saúde, as árvores urbanas enfrentam o desafio de secas e calor extremo. Especialistas destacam que a prioridade é proteger espécies maduras — mais eficientes, mas vulneráveis —, melhorando técnicas de irrigação profunda e manejo do solo compactado. Além disso, o planejamento urbano foca na diversificação de espécies mais resistentes aos impactos climáticos para garantir a sustentabilidade das florestas urbanas.
Com secas e eventos climáticos extremos mais frequentes, cientistas buscam modos de proteger árvores nas cidades, essenciais para reduzir temperaturas, absorver carbono e melhorar bem-estar.Ao caminhar sob as árvores neste verão de calor histórico, às vezes parecia que o outono já havia chegado na Europa: folhas secas estalavam sob os pés, enquanto copas apresentavam tons amarelados ou consideráveis desfalques.
Árvores grandes e frondosas ajudam a tornar as cidades mais habitáveis. Elas bloqueiam a luz solar, reduzem a poluição, armazenam carbono, oferecem habitats para a biodiversidade, absorvem água das chuvas que poderia causar danos e ainda contribuem para a saúde física e mental dos moradores. Por essas e outras, o fenômeno em curso levanta preocupações.
"Quando as árvores desaparecem, todos esses benefícios desaparecem junto", disse à DW Nina Bassuk, diretora do Instituto de Horticultura Urbana da Universidade Cornell, nos Estados Unidos.
Diante desse cenário, cidades e cientistas correm para descobrir como salvar as árvores e escolher espécies mais adequadas para uma tendência de eventos climáticos extremos cada vez mais frequentes.
Por que as cidades precisam de árvores
Na prática, árvores funcionam como gigantescos aparelhos de ar-condicionado. Dentro de sua copa, a temperatura pode ser até 3 °C mais baixa do que nas áreas ao redor. Isso ocorre devido à proteção do sol e à evapotranspiração, processo pelo qual as árvores absorvem água e liberam vapor d'água pelas folhas.
"Quando estamos sob uma árvore, a temperatura percebida pode ser de 10 °C a 12 °C menor do que logo ao lado dela", afirmou Matthias Beyer, hidrólogo do Instituto de Geoecologia da Universidade Técnica de Braunschweig.
E não se trata apenas de resfriamento. Diversos estudos relacionaram árvores saudáveis a uma série de outros efeitos positivos.
Um deles mostrou que cidades com maior cobertura de copas arbóreas registravam menores taxas de doenças cardiovasculares. Outro concluiu que ambientes escolares mais verdes estavam associados a melhores notas no ensino médio. Pesquisas adicionais indicaram ainda que uma maior exposição a áreas verdes durante a gravidez pode levar a resultados mais favoráveis para os recém-nascidos.
De quanta água as árvores precisam para sobreviver?
Embora um clima mais quente torne as árvores mais necessárias, ele também dificulta sua sobrevivência.
Árvores saudáveis precisam de pelo menos 10 a 15 litros de água por dia. Já árvores maduras, com a copa completamente formada, necessitam de até quatro vezes mais.
Embora possa haver a tentação de focar no plantio de árvores novas que demandem menos água, especialistas concordam que a prioridade deve ser proteger as árvores mais antigas que enfrentam dificuldades.
Pesquisas mostram que seriam necessárias cerca de 400 mudas para substituir os benefícios proporcionados por uma árvore antiga com copa de 20 metros de circunferência. Quando atingem a maturidade, os benefícios das árvores podem crescer exponencialmente, mas isso exige tempo e muita manutenção.
"Muitas árvores levam de 40 a 50 anos após o plantio para oferecer todos os benefícios que podem proporcionar", disse Henrik Sjoman, pesquisador da Universidade Sueca de Ciências Agrárias.
A melhor forma de regar as árvores
É melhor fornecer às árvores uma grande quantidade de água em um curto período de tempo, permitindo que ela penetre nas camadas mais profundas do solo, em vez de focar na superfície, onde boa parte evapora.
No caso de árvores recém-plantadas, costuma-se fixar um anel de metal ou plástico rígido no solo, ao redor do tronco. Quando isso não é possível, pode-se criar uma pequena depressão em volta da árvore para acumular água, evitando danificar as raízes superficiais durante o processo.
Quando o solo está extremamente compactado, as chamadas bolsas de irrigação podem ajudar. A água goteja lenta e continuamente para o solo por meio de pequenos orifícios na parte inferior. O ideal é evitar água retida na superfície por muito tempo, para evitar processos de apodrecimento.
Mas, em alguns casos, o solo foi compactado de forma tão intensa para sustentar as calçadas que a água simplesmente não consegue atravessá-lo. Há 30 anos, Bassuk ajudou a desenvolver uma técnica baseada na mistura de terra e cascalho. As pedras, de granulometria específica, suportam o peso da calçada e deixam mais espaço para que as raízes se espalhem pelo terreno urbano compacto.
"Desde que a proporção entre solo e pedras esteja correta, é possível compactar o terreno e, ainda assim, permitir que as árvores tenham acesso a ele e cresçam por longas distâncias", afirmou Bassuk.
Como escolher as árvores certas para as cidades
Quando se fala em adaptação climática, surge também a questão de quais árvores devem ser plantadas.
Historicamente, afirma Sjoman, a seleção de árvores urbanas era muitas vezes guiada pela estética e pelo design, o que levou ao plantio excessivo de espécies únicas vulneráveis a ameaças como pragas e doenças. Histórias de devastação causadas pela doença do olmo-holandês, que eliminou populações inteiras de árvores ao longo do século 20, ajudaram a transformar o planejamento florestal urbano, colocando muito mais foco na diversidade e na adaptação climática.
A chamada regra 10-20-30 foi formulada em 1990 por Frank Santamour, renomado geneticista de plantas americano falecido em 2000. Ela estabelece que as florestas urbanas não devem ter mais de 10% de uma mesma espécie, 20% de um único gênero ou 30% de uma mesma família botânica.
Na Alemanha, existem diversas ferramentas e bancos de dados que orientam o plantio, e várias cidades participam de um teste oficial de árvores de rua. A ideia é avaliar 45 espécies em mais de 220 locais para reunir conhecimento sobre seu desempenho.
Outro recurso é o banco de dados Citree, que classifica quase 400 espécies de plantas lenhosas presentes na Alemanha e permite filtrá-las por mais de 50 características, incluindo densidade da folhagem, cor dos frutos, potencial alergênico, quebra de galhos e outros critérios.
"As exigências feitas às árvores hoje são muito maiores e muito mais complexas do que eram apenas algumas décadas atrás", resume Sjoman.
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