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Peixe consumido no Sudeste não vem de áreas sujas do óleo

Produtos vendidos para São Paulo, por exemplo, são de peixes criados em cativeiro ou produzidos em locais não afetados pela mancha

26 out 2019
10h11
atualizado às 15h09
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SALVADOR E SÃO PAULO - Em meio à preocupação com o consumo de peixes afetados pelo óleo no Nordeste, empresas do setor afirmam que não há motivo de preocupação para consumidores de outras regiões do País. Os produtos vendidos para São Paulo e nos Estados vizinhos, por exemplo, são de peixes criados em cativeiro ou produzidos em locais não afetados pela mancha. Já as pequenas associações de pescadores, em Estados como Bahia e Pernambuco, tem sentido significativa redução da demanda.

 Trabalho de remoção do óleo na Praia do Janga, em Paulista, na Região Metropolitana do Recife (PE)
Trabalho de remoção do óleo na Praia do Janga, em Paulista, na Região Metropolitana do Recife (PE)
Foto: Tiago Queiroz / Estadão

Segundo Eduardo Lobo Naslavsky, presidente da Câmara Setorial de Pescados no Brasil do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, a atenção no momento está voltada para animais que vivem em mananciais e áreas ribeirinhas. "Ostras, mariscos e caranguejos podem ter tido algum tipo de contato com o óleo. Com relação ao pescado, é mais difícil porque 98% são capturados em águas profundas. Mas ainda não temos como precisar quais são os prejuízos para o setor."

Já a Associação Brasileira das Indústrias de Pescados (Abipesca) afirma que o pescado processado em indústrias pode ser consumido com tranquilidade, já que todos os produtos passam pelo controle do serviço de inspeção federal. "Em um monitoramento regular, já fazemos o controle de metais pesados, por exemplo. Em situações como a enfrentada no Nordeste, elevamos o nível de rigor em análises para que qualquer risco ao consumo seja descartado", disse Christiano Lobo, diretor-executivo da entidade.

Em nota, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) afirma que não há proibição para a comercialização de pescados do Nordeste, porém as "autoridades estaduais podem definir restrições" diante da situação específica de cada localidade.

Marlos Mendes, diretor corporativo da Marítimos Pescados, que atua em Pernambuco, Rio Grande do Norte e Ceará, diz que os produtos comercializados pela empresa têm como origem as regiões Sul, Sudeste e Norte ou são importados de países como Chile e China. "Não corremos o risco de comercializar produtos contaminados pelo óleo disperso no oceano que chega ao litoral nordestino." Por trabalhar com peixes em cativeiro em Pernambuco, a empresa Netuno afirma que não sentiu reflexos da mancha de óleo.

Diretor da Noronha Pescados, também em Pernambuco, Guilherme Blanke diz que o segmento não sentia impactos, mas, nesta semana, a circulação de informações em redes sociais preocupou o setor. "As indústrias não estavam tendo impacto. Na nossa empresa, 50% do pescado vem da região Norte, do Espírito Santo e do Sudeste e do Sul. O restante é importado", disse.

"Nosso receio maior é com o comércio local, com os pequenos estabelecimentos, porque eles já estão sentindo a diminuição do movimento." Conforme a estatal Bahia Pesca, 16 mil pescadores foram prejudicados, direta ou indiretamente, pelo desastre ambiental, nas regiões de Salvador, Itaparica, Vera Cruz e praias do Litoral Norte, até a divisa com Sergipe.

Com mais de 3.750 clientes, a Tudo do Mar não teve cancelamento de encomendas, mas já nota reflexo. "(Tivemos) mercadoria retirada de circulação de forma preventiva para análise de hidrocarbonetos e o mercado já está reduzindo o consumo por medo e pânico da população", diz Alexandre Epitácio, diretor da empresa, que fornece o produto principalmente para os Estados de Pernambuco, Paraíba e Alagoas.

"O Estado de São Paulo não tem nada a temer. A produção de pescados do Nordeste é muito pequena, mal atende a região", afirma Epitácio. No caso do camarão, a grande produção ocorre em viveiros, sem contato com o mar. Para se ter ideia, mais de 90% de nossas compras são de Belém, Itajaí (SC), Uruguai, Argentina, Peru, Chile e China."

Estudo da UFBA aponta 38 mariscos contaminados

Estudo feito pela Universidade Federal da Bahia (UFBA) identificou presença de óleo no aparelho respiratório e digestivo de animais mortos em praias atingidas pelo material no Estado. Francisco Kelmo, diretor do Instituto de Biologia da instituição, afirma que 38 espécies, entre mariscos, peixes e crustáceos, foram retirados de Praia do Forte, Itagimirim e Guarajuba, no último fim de semana. Após necropsia, os pesquisadores detectaram óleo nos órgãos dos animais. Outros 12 serão analisados nos próximos dias. Kelmo afirma que não é possível ainda dizer se a carne dos bichos foi contaminada pela substância, mas recomenda, por precaução, que a população não consuma animais marinhos coletados nos lugares avaliados pelo estudo.

Os resultados da pesquisa serão encaminhados ao Ibama e também à Anvisa, que fará análise química dos animais mortos. O professor pretende, ainda, ampliar o estudo para manguezais, também afetados pelo óleo. Nascedouro e berçário de grande variedade de espécies marinhas, eles são considerados os mais sensíveis do ponto de vista ambiental.

Na quinta, o Ministério Público da Bahia abriu inquérito para apurar os reflexos do vazamento nas comunidades de pesqueiros e marisqueiros. O procedimento foi instaurado a partir de demandas de representantes dos trabalhadores, apresentadas em carta enviada ao órgão e ao Ministério Público Federal (MPF). No documento, eles pedem a análise da qualidade da água e do pescado nas comunidades para verificar se existe contaminação.

Pesquisadores também vão analisar frutos do mar coletados em Pernambuco

Blanke, da Noronha Pescador, afirma que um grupo do setor pesqueiro buscou ajuda da Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE) para tentar confirmar a contaminação. Uma coleta de amostras foi feita nesta sexta-feira, 25, pela UFRPE, que vai encaminhar o material à Federal do Rio (UFRJ). "Temos amostras de peixes coletados antes da chegada do óleo e vamos fazer esse trabalho de coleta. As informações que a gente dispõe hoje não justificam nenhum aconselhamento de evitar o consumo de pescado. A análise é para ter certeza", explica Fábio Hazin, do Departamento de Pesca e Aquicultura da UFRPE.

Segundo João Paulo Torres, do Instituto de Biofísica da UFRJ, a análise terá como objetivo detectar componentes que podem ser prejudiciais à saúde. "Vamos verificar a presença de hidrocarbonetos policíclicos aromáticos, que são a fração preocupante por causa da potencial capacidade carcinogênica (capaz de favorecer o aparecimento de câncer), mas não é esperado que o tecido do peixe concentre esses poluentes, principalmente porque há metabolização tanto o peixe quanto o ser humano. Em caso de exposição, o fígado é capaz de degradar."

Ele diz que a análise é importante para não só para o consumo seguro, mas para evitar danos à população que vive da pesca. "O pânico é a pior forma de agir. As comunidades pesqueiras, que são a parte mais fraca dessa equação, vão sofrer um impacto brutal. A ciência é uma aliada da sociedade e tem capacidade de fazer essa avaliação."

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Estadão
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