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Não sei por que Bolsonaro faz esses ataques, diz índio Raoni

Líder indígena disse que presidente está 'errado e isolado' e que as florestas estão em mais risco do que nunca

15 out 2019
07h11
atualizado às 07h53
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Dezessete dias após o líder indígena Raoni ser alvo de ataques do presidente Jair Bolsonaro na Organização das Nações Unidas (ONU), havia na última sexta-feira, 11, uma expectativa entre ambientalistas e defensores dos direitos indígenas de que haveria uma desforra. Raoni era cotado ao Prêmio Nobel da Paz, mas não saiu vencedor.

Cacique Raoni Metuktire 25/9/2019 REUTERS/Adriano Machado
Cacique Raoni Metuktire 25/9/2019 REUTERS/Adriano Machado
Foto: Reuters

"Vou continuar defendendo os direitos dos povos indígenas, o meio ambiente, a Amazônia, a vida. Todos precisamos nos unir para defendermos o planeta. Vou continuar lutando por todos vocês para que possamos viver em paz", afirmou o líder caiapó, em vídeo divulgado logo na manhã de sexta.

À tarde, ao Estado, disse que Bolsonaro está "errado e isolado", que as florestas e os povos indígenas estão em mais risco que nunca e criticou a posição de indígenas que querem "viver como brancos".

Por skype, em sua língua nativa e tradução feita por um neto, Raoni levantou o dedo e em tom grave disse que nunca vai aceitar os planos do governo de integrar os povos indígenas ao modo de viver dos não-índios.

"Sou contra. Nós, povos indígenas originários, queremos sobreviver da natureza. Não aceitamos essa integração com o homem branco. Na época dos (irmãos) Villas-Boas, em que viajei com eles para várias regiões, vi muitos parentes já integrados, já misturados, casados com brancos, com filhos. Vi tudo nisso nessa viagem, de perto. Mas não quero isso. Precisamos ter nosso cocar, nosso colar. Para ter isso, precisamos da floresta. Outros parentes de várias regiões já se entregaram ao homem branco, já querem comer como branco, sobreviver como branco", afirmou.

Estima-se que Raoni Metuktire tenha cerca de 90 anos. Seu RG, feito há poucos anos, diz que ele nasceu em 20 de agosto de 1931, mas há quem diga que ele já passou dos 90. Aprendeu a falar português após ter contato com os irmãos Villas-Boas, em 1954. Viajou com eles e se tornou tradutor não só da voz dos indígenas como de sua cultura e do ambiente em que viviam.

Não tardaria muito para que ele se tornasse uma espécie de negociador da questão indígena. Ficou famoso no País em 1984, quando foi à Brasília pintado de vermelho para guerra, com uma borduna, e literalmente puxou a orelha do então ministro do Interior, Mario Andreazza, cobrando demarcação definitiva do Parque do Xingu, criado pelos Villas-Boas em 1961. "Aceito ser seu amigo. Mas você tem de ouvir o índio."

Conhecido internacionalmente depois de 1989, quando fez uma turnê mundial com o cantor Sting para chamar a atenção para os riscos à Amazônia, Raoni já foi recebido por presidentes e por dois papas. Neste ano, se encontrou com o presidente francês Emmanuel Macron, (já havia sido, nos anos 2000, recebido por Jacques Chirac), e com o papa Francisco, em preparação para o sínodo da Amazônia.

"Sempre tive contato com os presidentes do Brasil e eles nunca falaram mal de mim, nunca criticaram a minha luta. De repente veio esse Bolsonaro falando mal do meu trabalho, falando mal da minha pessoa. Não sei por que ele faz esses ataques contra mim. Nunca agredi, nunca falei mal, nunca ataquei a família dele, nunca falei mal dos filhos ou de onde ele nasceu. De repente, Bolsonaro vem falando assim de mim", lamentou.

"Mas talvez eu entenda. Desde a campanha para presidente, ele vem nos dividindo - seja branco, índio, negro. Com plano de destruir os direitos de cada povo. Não aceitei isso e tive essa resposta dele contra mim. Sempre defendi, desde que comecei a lutar pelos direitos indígenas, que isso não deveria ser só para os índios, mas para que todo mundo fosse respeitado. Bolsonaro está errado. Ele falou mal de todo mundo e hoje está sozinho. Todo mundo está contra ele", declarou.

Depois lembrou que essa paz não foi com todos os presidentes. A última grande batalha de Raoni foi contra a construção da usina de Belo Monte, que afeta justamente a região de Xingu, onde fica sua terra. Com a presidente cassada Dilma Rousseff, as relações tampouco foram boas e os indígenas perderam a batalha.

"Os parentes ficaram com medo e desistiram."

Ele também comentou a presença da indígena Ysani Kalapalo ao lado de Bolsonaro na ONU e a fala do presidente, que decretou o "fim do monopólio do sr. Raoni". Bravo, disse que nunca se colocou nesse papel.

"Nunca disse que eu era dono de todos os índios do Brasil. Meu trabalho e meu foco até hoje são apenas falar para manter a floresta, para manter o rio, os animais."

Sobre Ysani, disse que nunca ouviu falar dela.

"Nunca soube de onde ela saiu, onde nasceu, nunca conheci os pais dela. Quando ela fez essa viagem com Bolsonaro, eu não estava sabendo. Nem o pessoal do Alto Xingu me informou. Quero que ela e o pessoal do Alto Xingu tenham aproximação com a gente, para que os parentes possam lutar juntos. Ela pensa errado. Talvez tenha nascido na cidade, crescido na cidade e tem outra mentalidade."

Para Raoni, as ameaças à floresta e aos povos indígenas nunca estiveram tão grandes.

"Já não vejo mais floresta grande no Brasil. Só tem um pouquinho nas terras indígenas. Tem muita destruição, desmatamento, muito garimpeiro destruindo as terras", disse. "Hoje respiramos através das árvores, da natureza. Se continuar com o desmatamento, a destruição, todos vamos silenciar. Todos vamos sumir dessa terra. O homem branco também."

Raoni deu a entrevista da cidade de Peixoto de Azevedo (MT), a mais próxima da terra indígena Capoto-Jarina, onde mora. De lá foi para Marabá (PA), onde está previsto um ato nesta quinta-feia, 17, em defesa do ambiente e dos povos da Amazônia.

"Vocês sobrevivem de mercadorias. Criam gado, galinha, porco para poder comer. Dependemos da natureza. Temos animais na floresta que nós mesmos caçamos para nos alimentar e sobreviver", insistiu. "Minha mensagem é que vou continuar lutando para poder manter a floresta, defender o meu povo e que outra geração possa vir."/COLABOROU MARINA CARDOSO, ESPECIAL PARA O ESTADO

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Estadão
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