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Cientistas detectam mancha de óleo gigantesca no litoral sul da BA; Marinha e Ibama negam

Pela primeira vez desde o acidente, cientistas conseguem observar o óleo no mar; mancha tem 55 quilômetros de extensão

30 out 2019
13h08
atualizado às 21h56
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RIO E SÃO PAULO - Cientistas das universidades federais de Alagoas (Ufal) e do Rio de Janeiro (UFRJ) detectaram, de modo independente, uma gigantesca mancha de óleo no mar junto ao litoral sul da Bahia. A observação foi feita na última segunda-feira, 28, por um satélite da Agência Espacial Europeia. Pela primeira vez desde o acidente, cientistas conseguem, com análises feitas separadamente, observar o óleo no mar. Para os especialistas, de acordo com o padrão da mancha, o óleo poderia estar vindo do fundo do oceano. A Marinha e o Ibama, porém, negaram que seja óleo.

O pesquisador Humberto Barbosa, do Laboratório de Análise e Processamento de Imagens de Satélite (Lapis) da Ufal, informou que a mancha tem formato de meia-lua, com 55 quilômetros de extensão e seis quilômetros de largura. José Carlos Seoane, do departamento de Geologia da UFRJ, mediu a área e constatou cerca de 200 km². O óleo estaria a 54 quilômetros da costa da Bahia, na altura dos municípios de Itamaraju e Prado.

"Foi a primeira vez que observamos, neste caso, uma imagem de satélite que detectou uma faixa da mancha de óleo original ainda não fragmentada e ainda não carregada pela correnteza", explicou Barbosa.

Na imagem do satélite Sentinel podem ser vistos ainda três navios, formando uma espécie de triângulo nas proximidades do óleo. Pelo padrão da mancha, no entanto, o pesquisador afirma que não se trata de um derramamento, mas sim de um vazamento oriundo do fundo do mar. De acordo com Barbosa, naquela região há poços de petróleo sendo perfurados. Para Seoane, porém, a mancha pode ser proveniente de algum vazamento ocorrido a 600 km da costa, como indicado por um outro estudo da UFRJ.

Análises feitas pela Petrobrás indicam que o óleo que chegou às praias do Nordeste seriam oriundas da Venezuela. A hipótese mais provável para o derramamento seria, então, um vazamento de um navio fantasma, que estaria transportando óleo venezuelano irregularmente. Nenhum naufrágio foi registrado oficialmente, mas, sendo um navio irregular, pode haver algum tipo de carregamento vazando no fundo do mar.

"Tivemos um grande impacto porque, pela primeira vez, encontramos uma assinatura espacial diferenciada", disse Barbosa. "Ela mostra que a origem do vazamento pode estar ocorrendo abaixo da superfície do mar." Segundo o cientista, dependendo das condições meteorológicas, a mancha pode chegar ao litoral da Bahia nos próximos dias, causando ainda mais impacto ambiental.

Mas, na falta de mais imagens de satélite, não dá para saber exatamente de onde a mancha está vindo ou para onde está indo, comentou Seone. Por isso, defendem os dois pesquisadores, seria importante ir ao local tentar deter o avanço da mancha.

Seone explica que vinha analisando imagens de satélite desde o início do mês e que já tinha encontrado as manchas em duas outras ocasiões, mas elas já estavam chegando à praia e não havia muito o que avisar. Na semana passada, por exemplo, ele notou a ocorrência na praia de Janga (PE), mas quando entrou em contato com pesquisadores da região, soube que eles já estavam com o material na areia. "Isso ajudou a validar o nosso método. Antes não tivemos nem a chance de avisar, mas agora pudemos dar um alarme e acionar a Marinha, o Ibama", disse.

Em nota oficial, a Marinha negou que haja óleo no mar, próximo à costa da Bahia. "Em relação à possível mancha que estaria avançando pelo mar da Bahia, informamos que não se trata de óleo. Foram feitas quatro avaliações para confirmar: consulta aos especialistas da ITOF (Fundo Internacional para Poluição dos Petroleiros), monitoramento aéreo e por navios na região e por meio de satélite", sustenta a nota. "Segundo especialistas do ITOF, ela possui diversas características, podendo ser nuvem, fenômeno da ressurgência no mar etc."

A Marinha acrescentou que "a gravidade, a extensão e o ineditismo desse crime ambiental exigem constante avaliação da estrutura e dos recursos materiais e humanos empregados, no tempo e quantitativo que for necessário".

O Ibama também divulgou uma nota descartando a possibilidade de ser óleo. O instituto disse que "a confirmação da veracidade da detecção remota dependerá sempre da inspeção do local da ocorrência por barcos ou aeronaves que possuam sensores específicos de idenficação (laser e Infravermelho)", mas disse não acreditar ser o material.

"(...) não foi considerada uma feição suspeita de poluição por óleo pelos analistas ambientais, sendo apenas mais uma feição de falso-posivo, por não apresentar padrões texturais e técnicos apropriados, bem como, encontrar-se posicionada geograficamente próxima a região com condições meteoceanográficas inadequadas para fins de monitoramento de feições de poluição por óleo", informou o Ibama por meio de nota. O órgão disse ainda que foi feito sobrevoo com avião da FAB no local e afirmou não ser necessário fazer coleta.

A Petrobrás disse, por meio de nota, que "não realiza nenhuma operação de exploração e produção de petróleo na área onde teria sido visualizada a mancha citada nos estudos da UFAL e da UFRJ". E reforçou que as "análises realizadas pelo seu Centro de Pesquisas comprovaram que o óleo que atingiu o litoral do Nordeste não é produzido nem comercializado pela companhia".

Como mancha foi identificada?

O satélite Sentinel-1A, da Agência Espacial Europeia, passa sobre a região a cada seis dias. A imagem em questão foi captada na manhã de segunda-feira, 28, e divulgada por volta das 12 horas. O satélite é sensível a superfícies muito lisas ou rugosas. "Se a imagem está lisa, sem as ondinhas do mar, significa que tem óleo", explica Seone.

"É isso que a gente vê. Até poderia ser por causa de óleo de algas, um biofilme que se formou no mar, como ouvimos de colegas do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais). Isso de fato existe na literatura, mas o que me levou a descartar essa possibilidade é que nunca vimos na literatura um biofilme que ocupasse uma área de 200 km². É uma área gigantesca. Não parece ser isso." O Inpe também está analisando as imagens, mas ainda não se manifestou oficialmente.

Seone questionou o posicionamento da Marinha. "Dizer que pode haver uma ambiguidade faz sentido. É claro que pode ser outra coisa que não óleo. Mas para isso é preciso ir a campo checar, fazer foto, coletar água. A Marinha não mostrou nada disso", critica o pesquisador.

Depois que a Marinha enviou seu posicionamento, o Estado questionou se havia imagens do local e uma análise sobre o que de fato poderia ser a mancha, mas o órgão não respondeu à soloicitação.

Embora nenhuma imagem tenha sido captada antes, em alto-mar, isso não quer dizer que não havia vazamento, mas apenas que o satélite não tinha registrado essa imagem. O satélite é voltado, principalmente, para as regiões do mar mais próximas à costa, onde o interesse econômico é maior.

A mancha está a 54 quilômetros da costa - portanto numa região mais provável de estar na mira do satélite. A proximidade da costa também explica por que o óleo não estaria mais sob a superfície da água. O padrão registrado é que ele emerge perto da costa. Segundo Seone, como o óleo que está chegando às praias é muito pesado, ele vem se movimentando abaixo da superfície, só vindo mais à tona na transição da plataforma continental, que é um pouco mais rasa que o alto-mar, então o óleo fica um pouco mais perto da superfície e se torna visível.

Estadão
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