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O cientista ganhador do Nobel que perdeu seus títulos por causa de ideias racistas

James Watson, ganhador do prêmio Nobel de 1962, perdeu seus títulos honorários depois de fazer comentários racistas sobre raça e inteligência

14 jan 2019
21h36
atualizado às 22h00
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O cientista americano James Watson, ganhador do prêmio Nobel de 1962, perdeu seus títulos honorários depois de fazer comentários racistas sobre raça e inteligência.

James Watson numa foto de 2009
James Watson numa foto de 2009
Foto: EPA / BBC News Brasil

Em um documentário de televisão que foi ao ar em 2 de janeiro, o pesquisador, pioneiro na pesquisa do DNA, repetiu opiniões segundo a qual a genética tem um papel nas notas que brancos e negros têm em testes de inteligência e de coeficiente intelectual.

O laboratório Cold Spring Harbor, em Nova York, onde ele trabalhava, frisou que os comentários do cientista de 90 anos de idade são "infundados e imprudentes".

Watson já tinha emitido opiniões similares em 2007, quando afirmou que os africanos eram menos inteligentes que os europeus, mas se desculpou depois.

O pesquisador ganhou o Nobel de medicina de 1962 com os cientistas Maurice Wilkins e Francis Crick pela descoberta da estrutura de dupla hélice de DNA.

O feito é considerado um dos momentos-chave da ciência moderna.

As declarações racistas

Em 2007, o cientista, que trabalhou no laboratório Cavendish da Universidade de Cambridge, disse ao jornal britânico Times que era "pessimista a respeito do futuro da África", porque "todas as nossas políticas sociais são baseadas na suposição de que a sua inteligência (dos africanos) é a mesma dos brancos, quando todas as provas indicam que não é assim".

James Watson em entrevista à BBC em 1962
James Watson em entrevista à BBC em 1962
Foto: BBC News Brasil

Watson disse ainda que, por mais que ele quisesse que todos fossem iguais, "as pessoas que tiveram que lidar com trabalhadores negros sabem que isto não é verdade".

O acadêmico nascido em Chicago, nos EUA, também disse que as pessoas não deveriam ser discriminadas por sua raça, pois "há muita gente de cor que é muito talentosa".

Depois, ele pediu desculpa pelos comentários.

"A todos os que deduziram do que eu disse, que a África, como continente, é geneticamente inferior, a todos estes eu peço desculpas. Não foi o que eu quis dizer. Não há base científica para afirmar isso", disse.

As consequências

Depois de seus comentários de 2007, o laboratório de Cold Spring Harbor suspendeu o pesquisador de seus quadros.

O cientista perdeu seu posto de reitor do laboratório, e foi destituído de suas funções administrativas.

https://twitter.com/CSHL/status/1083765175017267201

Mas, por ter pedido desculpas à época, ele reteve seus títulos honorários de reitor emérito, de professor emérito e de membro honorário.

Porém, depois das declarações dadas ao documentário televisivo "American Masters: Decoding Watson" ("Mestres americanos: decodificando Watson", em tradução livre), que foi ao ar este ano, o laboratório de Nova York retirou todos os títulos de Watson.

À emissora pública americana PBS, autora do documentário, Watson disse que suas visões sobre raça e inteligência não tinham mudado.

"As declarações de Watson são reprováveis e carecem de respaldo científico", disse o laboratório em nota.

As novas declarações, disse o laboratório, revertiam as desculpas que o cientista já tinha pedido.

Segundo a mídia dos EUA, Watson se encontra hoje numa enfermaria, recuperando-se de um acidente automobilístico, e tem consciência "mínima" do seu entorno.

A venda da medalha

Watson vendeu sua medalha de ouro do Nobel em 2014. Foi a primeira vez na história que um ganhador do prêmio se desfez do objeto.

Segundo disse ele em um comunicado à época, a intenção era dedicar parte do valor da venda a projetos de pesquisa nas universidades e instituições científicas nas quais estudou e trabalhou ao longo de sua carreira.

"Minha intenção é fazer doações filantrópicas ao laboratório Cold Spring Harbor, à Universidade de Chicago e ao Clare College de Cambridge, e assim seguir contribuindo para que o mundo acadêmico siga sendo um lugar onde predomine a decência e as grandes ideias", disse.

Naquele mesmo ano, o biológo molecular disse que tinha sido excluído da comunidade científica por causa de seus comentários sobre raça e inteligência em 2007.

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