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A volta para casa de gêmeas siamesas após mais de 50h de cirurgias para separação

Safa e Marwa, de 3 anos e meio, foram submetidas a três grandes operações, passando mais de 50 horas em cirurgia.

19 out 2020
18h35
atualizado às 18h59
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Duas meninas gêmeas que nasceram unidas pela cabeça e foram separadas com sucesso no ano passado por uma equipe do Hospital Great Ormond Street, em Londres, voltaram para casa no Paquistão nesta semana.

Safa e Marwa tiveram alta do hospital cinco meses após a cirurgia, mas continuaram morando em Londres por um tempo
Safa e Marwa tiveram alta do hospital cinco meses após a cirurgia, mas continuaram morando em Londres por um tempo
Foto: BBC News Brasil

Safa e Marwa Bibi, de 3 anos e meio, foram submetidas a três grandes operações, passando mais de 50 horas em cirurgia.

A mãe delas, Zainab Bibi, disse à BBC que estava muito satisfeita em finalmente levá-las de volta para casa para ficar com resto da família.

"As meninas estão muito bem. Marwa fez um bom progresso e só precisa de um pouco de apoio", disse ela.

"Vamos ficar de olho em Safa e cuidar bem dela. Se Deus quiser, as duas logo vão começar a andar."

Foi necessária uma equipe de 100 pessoas do hospital londrino para cuidar do caso das irmãs paquistanesas. Além de cirurgiões e enfermeiras, a equipe envolvida no cuidado e separação das gêmeas inclui bioengenheiros, modeladores 3D e um designer de realidade virtual.

As gêmeas foram levadas a Londres para serem operadas
As gêmeas foram levadas a Londres para serem operadas
Foto: BBC News Brasil

As gêmeas foram separadas em fevereiro de 2019 e, desde então, moram com a mãe e o tio em Londres. Todos os seus custos médicos e de estadia - mais de 1 milhão de libras - foram pagos por um doador, o empresário paquistanês Murtaza Lakhani.

Gêmeos siameses desenvolvem-se a partir de um único óvulo fertilizado e, portanto, são sempre idênticos e, mais frequentemente, conectados pelo peito, abdômen ou pelve.

Gêmeos siameses são raros e casos em que eles são unidos pela cabeça são mais raros ainda. Apenas um em cada 20 casos de gêmeos siameses a união é pela cabeça, com o crânio de ambos fundido — caso conhecido como gêmeos craniópagos. A grande maioria não sobrevive à infância.

Existem duas teorias sobre por que são unidos. Ou a divisão em dois embriões acontece mais tarde do que o habitual, e os gêmeos se dividem apenas parcialmente ou, após a separação, partes dos embriões permanecem em contato e essas partes do corpo se fundem à medida que crescem.

A batalha para separar Safa e Marwa

As meninas, agora com três anos e meio, fazem fisioterapia regular para tentar melhorar sua mobilidade. Ambas têm dificuldades de aprendizagem.

A mãe chama a equipe cirúrgica de "heróis" e diz que seus outros sete filhos no Paquistão estão ansiosos para ajudar a cuidar de Safa e Marwa.

O cirurgião-chefe, Owase Jeelani, disse à BBC que ele e a equipe estavam "muito satisfeitos" pela família, mas que ainda tinha algumas dúvidas sobre o resultado.

"Acho que Marwa se saiu muito bem e continua fazendo grandes progressos. Quando olho para toda a família, sim, provavelmente foi a coisa certa a fazer. Mas para Safa como indivíduo, não tenho tanta certeza."

Neurocirurgião extremamente experiente, Jeelani ainda tem preocupações com as consequências da escolha quase impossível que ele e sua equipe tiveram de fazer na sala de cirurgia.

Safa e Marwa voltaram com a mãe para morar com o resto da família no Paquistão
Safa e Marwa voltaram com a mãe para morar com o resto da família no Paquistão
Foto: BBC News Brasil

A difícil decisão do cirurgião

A fisiologia específica de Safa e Marwa apresentou um conjunto único de desafios para a equipe médica. As meninas era unidas pelo topo de suas cabeças, voltadas para direções opostas. Eles nunca tinham visto os rostos uma do outra.

As gêmeas tinham um labirinto de vasos sanguíneos compartilhados que nutriam os cérebros de ambas. Apenas uma delas poderia receber alguns dos principais vasos sanguíneos. Estes foram dados a Marwa, que era a gêmea mais fraca.

Mas, como resultado, Safa teve um derrame. Ela agora tem danos permanentes no cérebro e pode nunca conseguir andar.

A primeira cirurgia ocorreu em setembro de 2018
A primeira cirurgia ocorreu em setembro de 2018
Foto: BBC News Brasil

Jeelani disse que essa questão estará para sempre com ele. "É uma decisão que tomei como cirurgião. É uma decisão que tomamos como equipe. É uma decisão com a qual temos que conviver", conta.

Ele acredita que o resultado para Safa e Marwa provavelmente teria sido melhor se elas tivessem sido separadas antes. A família demorou bastante tempo para levantar os fundos necessários para pagar os custos cirúrgicos.

Isso levou Jeelani e seu colega cirurgião David Dunaway, a criarem uma instituição de caridade para tentar aumentar a conscientização e obter dinheiro para cobrir os custos de separação de gêmeos craniópagos.

Em janeiro de 2020, a mesma equipe cirúrgica do hospital separou com sucesso meninos gêmeos da Turquia que eram unidos pela cabeça: Yigit e Derman Evrensel.

Eles também passaram por três operações, mas o processo foi muito mais rápido do que com Safa e Marwa. Os gêmeos voltaram para casa, na Turquia, antes de seu segundo aniversário, e os cirurgiões acreditam que eles terão um progresso muito rápido.

Recuperação

A recuperação das duas meninas foi lenta — elas só tiveram alta do hospital cinco meses depois de separadas, e mesmo assim continuaram em Londres para os tratamentos e exames posteriores.

Elas precisaram de fisioterapia diariamente para ajudá-las a alcançar alguns marcos fundamentais — aprender a rolar, a sentar e a manter a cabeça erguida. Ambas também precisaram de enxertos de pele na parte de trás de suas cabeças.

A mão das meninas disse à BBC, no ano passado, que estava segura de que separar as meninas foi o correto a fazer.

"Estou muito feliz. Com a graça de Deus, posso segurar uma por uma hora e, depois, a outra. Deus respondeu às nossas orações", disse ela.

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