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Ciência

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Por que o calor extremo causa caos ferroviário na Europa

24 jun 2026 - 08h46
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Atrasos e cancelamentos de trens são registrados em vários países europeus em meio a altas temperaturas. Trilhos, linhas aéreas de energia e sistemas de ar-condicionado são os principais problemas.As temperaturas na Europa têm batido recordes nos últimos dias e causado um caos na malha ferroviária da região, expondo os limites dessa infraestrutura. O resultado é uma série de atrasos e cancelamentos, além de alertas para que pessoas com problemas de saúde evitem viajar.

Calor extremo causa problemas em trilhos e no sistema de eletrificação de trens na Europa
Calor extremo causa problemas em trilhos e no sistema de eletrificação de trens na Europa
Foto: DW / Deutsche Welle

Ao redor do continente, os sistemas de transporte estão sob pressão. Para as ferroviárias, as principais dificuldades incluem linhas aéreas de energia que se expandem e cedem, trilhos que se dilatam sob o sol e sistemas de ar-condicionado sobrecarregados.

No Reino Unido, a Network Rail impôs restrições de velocidade. Já a Eurostar informou que cancelou quatro trens previstos entre Londres e Paris nesta quarta e quinta-feira. A empresa ferroviária holandesa NS também anunciou a redução no número de trens de algumas rotas devido ao calor.

Os cortes no serviço ferroviário ocorrem ainda na França e na Bélgica, onde grande parte da rede e dos veículos têm várias décadas. Quando há ar-condicionado, o sistema muitas vezes desliga automaticamente se os vagões ficam quentes demais, o que leva as operadoras a cancelar preventivamente trens nas rotas mais expostas.

A operadora nacional belga SNCB retirou de circulação, nos horários de pico, trens sem ar-condicionado, enquanto a francesa SNCF suprimiu 10% dos trens da região de Paris para evitar o superaquecimento dos trilhos, que pode causar deformações permanentes.

As linhas aéreas de energia - cujos cabos suspensos sobre vias férreas transmitem energia elétrica aos veículos - também podem ceder quando o metal se expande com o calor, aumentando o risco de enroscarem em trens em circulação.

Uma linha de energia rompida é "fortemente suspeita" de ter causado uma grande paralisação de um trem de carga na estação Gare de l'Est, em Paris, na semana passada, afirmou Séverine Lepère, diretora da SNCF para a região metropolitana parisiense.

O que torna esta onda de calor diferente?

Ao contrário de picos de temperatura mais curtos, a atual onda de calor é excepcional porque o calor extremo se mantém por vários dias sem resfriamento significativo à noite - com previsão de vários dias adicionais com temperaturas em torno ou acima de 40 °C.

A temperatura dos trilhos pode subir ainda mais, atingindo 60 °C, o que faz o metal se expandir de maneira perigosa, assim como ocorre com as linhas de energia.

"O empenamento dos trilhos e a perda de contato da rede elétrica são o que realmente preocupa os engenheiros", disse John Lawrence, presidente da Railway Technical Network, da Instituição de Engenharia e Tecnologia do Reino Unido.

"Isso traz riscos de descarrilamento, e as linhas da parte de cima podem ceder e enganchar nos pantógrafos [os dispositivos que captam a energia das linhas aéreas], interrompendo a circulação ou exigindo longos desvios."

Equipamentos eletrônicos de sinalização também podem falhar sob calor extremo.

Por que na Europa e não em outras regiões quentes?

Trens operam sob altas temperaturas na Índia e na África, por exemplo, mas essas regiões contam com poucos trens de alta velocidade como os TGVs franceses, que podem atingir 320 km/h.

"As altas velocidades que temos na Europa exigem trilhos extremamente confiáveis e uma rede de melhor qualidade - não se pode ter a menor folga nas tolerâncias", afirmou Pierre Plaindoux, especialista ferroviário da consultoria MC2I.

Ele também observa que, nos Estados Unidos e no Canadá, onde o transporte ferroviário de passageiros é muito menos amplo, linhas aéreas de energia quase nunca são utilizadas. A grande maioria dos veículos em circulação são trens a diesel nas principais linhas.

A Europa, entretanto, está aquecendo mais do que o dobro da média global, segundo a Organização Meteorológica Mundial, tornando episódios prolongados de calor cada vez mais prováveis.

Quais são possíveis soluções?

Um monitoramento mais preciso da temperatura dos trilhos poderia permitir a imposição de limites de velocidade, em vez de cancelamentos preventivos. Plaindoux afirma que, em países com mão de obra mais barata, inspetores são distribuídos pela rede - enquanto, na França, por exemplo, o plano é instalar mais sensores.

Outra opção é pintar os trilhos de branco, para refletir o sol e o calor em vez de absorvê-los, prática cada vez mais comum em países como Reino Unido e Itália.

"A tinta refletiva pode reduzir entre 5 e 10 °C da temperatura dos trilhos", disse Antonios Kanellopoulos, professor associado de materiais inovadores de construção e diretor do Centro de Pesquisa em Engenharia da Universidade de Hertfordshire, na Inglaterra.

Instalar linhas de energia rígidas, que não sofreriam o risco de ceder com o calor, também vem sendo explorado como alternativa. "Na França, elas foram instaladas em algumas dezenas de quilômetros em linhas de alto tráfego, e haverá mais, mas não em longas distâncias - seria caro demais", disse Plaindoux.

ht/cn (AFP, AP)

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