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Ciência política: o eleitor mediano realmente manda nas eleições?

Da mudança de discurso a alianças improváveis, a busca pelo voto ajuda a explicar por que candidatos se aproximam de posições inesperadas

24 set 2026 - 11h34
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Resumo
O teorema do eleitor mediano sugere que partidos convergem ao centro para atrair a maioria do eleitorado, presumindo racionalidade dos atores e buscando vitórias eleitorais ou redistribuição de renda. Contudo, a teoria enfrenta limites na prática, pois os eleitores frequentemente votam por valores morais ou ideologia, e as legendas podem formar coalizões alternativas sem focar no centro. Apesar de simplificar a realidade, o modelo segue crucial para compreender estratégias de campanhas políticas.

Talvez você já tenha se incomodado com alguns posicionamentos de sua candidata ou seu candidato durante as eleições. Muitas vezes, parecem se afastar muito das suas ideias, principalmente se você tem posições fortes. Afinal, em toda campanha eleitoral, os partidos têm que decidir quais eleitores precisam tentar convencer e quais podem deixar de lado. Mas com base em que eles tomam essa decisão?

Uma das teorias mais usadas na ciências sociais para explicar esse fenômeno é o teorema do eleitor mediano. Trata-se de um modelo matemático proposto por Anthony Downs em 1957 para explicar por que partidos com posições ideológicas diferentes acabam defendendo políticas semelhantes. O foco inicial era entender os governos democratas e republicanos nos Estados Unidos e depois acabou se estendendo a outros contextos. Porém, hoje há divergências sobre se o teorema é mesmo fiel à realidade.

O que diz o teorema do eleitor mediano

O modelo de comportamento dos partidos é baseado em duas premissas simples. A primeira é que, tanto eleitores como políticos agem racionalmente. Os primeiros buscam ocupar cargos, já os últimos buscam obter benefícios do governo. Parece razoável presumir que pessoas tendem a agir de acordo com seus interesses. Porém, vou discutir sobre isso mais adiante.

A segunda premissa é que as preferências do eleitorado seguem uma distribuição normal. Isso significa que deveríamos ter poucas pessoas com posições mais radicais e muitas mais perto da mediana. Isso não significa necessariamente o centro político. É simplesmente o ponto que divide o eleitorado ao meio. Em uma população de comunistas, por exemplo, o eleitor mediano estaria entre os mais e os menos comunistas.

Agora, suponha que existem dois partidos, um de esquerda e um de direita. Cada um deles é claramente preferível para os eleitores das pontas. Se você está entre os poucos no extremo da esquerda, dificilmente vai votar na direita, e vice-versa. É essa distribuição que aparece na imagem abaixo.

Foto: The Conversation
Da mudança de discurso a alianças improváveis, a busca pelo voto ajuda a explicar por que candidatos se aproximam de posições inesperadas.

Essa situação incentiva os políticos a direcionar suas estratégias aos eleitores mais ao centro dessa distribuição, com o fim de construir maiorias eleitorais. Na medida em que os partidos tentam agradar o mesmo tipo de pessoa (o eleitor mediano), eles ficam mais parecidos.

Quando a teoria parece funcionar

O teorema também foi usado para explicar se a competição eleitoral democrática pode diminuir a desigualdade de renda. Em 1981, Allan Meltzer e Scott Richard notaram que, quando há muita desigualdade, a renda do eleitor mediano fica abaixo da renda média da sociedade. Esse eleitor teria, portanto, maior interesse em políticas de redistribuição. Como políticos precisam conquistar seu voto, teriam incentivos para oferecer esse tipo de política. A consequência, segundo o modelo, seria uma redução gradual da desigualdade.

Com esse trabalho, o teorema passou a ser associado à redistribuição. Depois, outros estudos corroboram que o aumento da desigualdade está associado ao crescimento das demandas populares por redistribuição.

O comportamento dos partidos também oferece exemplos que parecem se encaixar no modelo. Há uma extensa literatura mostrando como partidos podem incorporar propostas associadas ao campo político adversário quando precisam ampliar sua base eleitoral. No Chile, Tasha Fairfield analisou a reforma fiscal do governo de Sebastián Piñera.

No Brasil, Wendy Hunter estudou como o PT se moveu em direção ao centro para conquistar a confiança de eleitores de classe média. Eu também analisei por que partidos de direita apoiaram leis de reforma agrária no Brasil nas décadas de 1980 e 1990. Os dados indicam que a busca por apoio eleitoral ajudou a explicar esse comportamento, mesmo quando as medidas pareciam contrariar a posição ideológica desses partidos.

Esses exemplos mostram que o teorema consegue explicar alguns casos. Porém, ele nem sempre consegue prever os resultados eleitorais. Fica então a pergunta: ele está mesmo correto?

Os eleitores nem sempre obedecem o modelo

Imagine que um candidato prometa reduzir o imposto de renda. É relativamente fácil entender o benefício para o eleitor. Sobra mais dinheiro no bolso. Mas e se a promessa for melhorar a educação, acelerar o crescimento econômico, ou ampliar um programa social? Em geral, é difícil prever quem será beneficiado e em que medida. Até especialistas podem discordar sobre os efeitos de uma política.

Isso coloca em dúvida a premissa de que os eleitores conseguem avaliar racionalmente as propostas e escolher aquelas que melhor atendem aos seus interesses.

A cientista política Charlotte Cavaillé investigou essa questão, com uma série de experimentos e modelos estatísticos. Ela mostrou que os eleitores tendem a agir de acordo com as previsões do modelo do eleitor mediano somente quando as propostas eleitorais têm benefícios fáceis de entender. Quando não são, os eleitores tendem a se orientar mais por considerações morais. Isto é, por ideias sobre o que é justo ou injusto.

A ideologia também pode mudar a forma como as pessoas enxergam uma mesma política. A socióloga Leslie McCall, por exemplo, mostrou que, nos Estados Unidos, a maioria dos eleitores é favorável à redução das desigualdades. Porém muitos preferem que isso aconteça por meio do mercado, e não da ação do governo. A discordância ideológica torna o comportamento bem menos previsível do que o modelo do eleitor mediano sugere.

Os partidos também podem sair do modelo

Se os eleitores nem sempre se comportam como prevê o modelo, os partidos também podem encontrar outros caminhos para vencer uma eleição. Eles não precisam necessariamente disputar o voto de quem está no meio, podem tentar formar uma maioria combinando grupos diferentes.

É o que mostra um estudo de Juan Pablo Luna. Ele descreve como alguns partidos conseguem combinar medidas favoráveis aos segmentos mais ricos com políticas clientelistas voltadas a outros grupos. Assim, constroem uma coalizão eleitoral sem precisar agradar quem está no meio.

A própria relação entre eleições e redistribuição também é menos direta do que o modelo sugere. Se a competição eleitoral levasse os governos a responder necessariamente à demanda do eleitor mediano por mais redistribuição, seria de esperar que as democracias tivessem, em geral, mais gasto social do que regimes autoritários. Mas uma comparação feita por Michael Ross não encontrou esse padrão. A competição eleitoral, portanto, não garante por si só que os governos adotem mais políticas redistributivas.

O modelo está certo ou não?

Estritamente falando, o teorema do eleitor mediano, como qualquer modelo, simplifica a realidade. Nem eleitores nem partidos políticos agem de maneira puramente racional para maximizar seus ganhos. A realidade é muito mais complexa. Mas isso não significa que o modelo seja inútil. Ele mostra como a competição eleitoral tenderia a evoluir se fosse apenas um jogo entre atores racionais. E tanto os casos em que suas previsões se confirmam quanto aqueles em que falham ajudam a entender como as eleições de fato funcionam.

Em última instância, o modelo pode até se tornar uma profecia que se auto-cumpre. Afinal, políticos estão atentos ao que cientistas sociais estudam sobre o comportamento eleitoral. Se acreditarem que o eleitor mediano é decisivo e passarem a formular suas estratégias de acordo com essa ideia, podem produzir o comportamento previsto pela teoria. O sociólogo Anthony Giddens chamou essa via de mão dupla nas ciências sociais de "dupla hermenêutica".

Então, quando sua candidata ou seu candidato defenderem algo que você jamais esperaria deles, não significa que mudaram de convicção. É possível que precisem conquistar quem está no meio do caminho para ganhar as eleições. Cabe a você decidir se ainda é do seu interesse que essa vitória aconteça.

The Conversation
The Conversation
Foto: The Conversation

Matias López não presta consultoria, trabalha, possui ações ou recebe financiamento de qualquer empresa ou organização que poderia se beneficiar com a publicação deste artigo e não revelou nenhum vínculo relevante além de seu cargo acadêmico.

The Conversation Este artigo foi publicado no The Conversation Brasil e reproduzido aqui sob a licença Creative Commons
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