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Vereador usa imagens descontextualizadas para associar vitória de Lula a comemorações de traficantes

Um dos vídeos usados pelo político mostra presidiários comemorando vitória no Campeonato Pernambucano de futebol em 2022.

5 nov 2026 - 17h47
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Resumo
Checagem do Projeto Comprova revelou que o vereador Guilherme Kilter usou imagens falsas e fora de contexto para ligar a vitória de Lula a comemorações do tráfico e ao caso de uma menina baleada no Rio de Janeiro. O conteúdo enganoso mescla vídeos antigos, inteligência artificial e distorce falas do presidente sobre a polícia. Não há registros de celebração de criminosos pelo resultado eleitoral nem relação entre o crime citado e o pleito. O plano petista foca em reforçar a segurança, não extingui-la.

Investigado por: Correio Braziliense, Zero Hora, Projeto Comprova

Vereador usa imagens descontextualizadas para associar vitória de Lula a comemorações de traficantes
Vereador usa imagens descontextualizadas para associar vitória de Lula a comemorações de traficantes
Foto: Projeto Comprova / Projeto Comprova

Diferentemente do que afirma a publicação de um vídeo viral no Instagram, não há evidências de que traficantes tenham celebrado a vitória de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) nas eleições de 2026, nem que o disparo que atingiu uma criança de cinco anos no Rio de Janeiro esteja relacionado ao resultado das urnas. O vídeo usa imagens descontextualizadas de pessoas presas e com indícios de manipulação sintética para sustentar a narrativa falsa.

O conteúdo já havia alcançado mais de 2,4 milhões de visualizações no Instagram até 5 de novembro. Na gravação, o vereador de Curitiba e deputado federal eleito Guilherme Kilter (Novo) afirma falsamente que Lula pretendia acabar com a polícia e cita o caso de uma criança baleada no Complexo da Penha, no Rio de Janeiro. "Quando o PT ganha a eleição, quem comemora são os traficantes e os bandidos. Os presídios estão em festa e as igrejas em silêncio", diz o vereador.

Posteriormente, ele também atribuiu outra fala a Lula: "Falou que queria 100% dos votos dos presidiários". O Comprova já publicou um Explica mencionando essa fala do presidente no debate e informando sobre o direito ao voto de pessoas presas; apenas presos provisórios têm direito ao voto; pessoas condenadas com sentença definitiva não podem votar.

A checagem do Comprova identificou que as imagens utilizadas no vídeo de Kilter têm origens distintas. Enquanto ao menos uma é manipulada sinteticamente, outras são reais, mas foram retiradas de seus contextos originais. Além disso, reportagens consultadas sobre o caso da criança baleada não estabelecem relação entre o episódio e a comemoração da vitória de Lula.

O Comprova entrou em contato com Kilter para esclarecimentos sobre a manipulação do conteúdo compartilhado nas redes sociais, mas não teve retorno até a publicação desta checagem.

Os vídeos que aparecem têm relação com apoio a Lula?

Kilter republica cinco vídeos na parte inicial de seu conteúdo. O primeiro é de um homem apontando uma arma para a câmera; o segundo de um corredor de presídio vazio em que se ouve homens gritando "Lula"; o terceiro, homens empunhando armas e cantando "vai dar PT"; o quarto de uma cena noturna com som de disparos; e, o quinto, de presidiários comemorando algo na prisão.

O Comprova não conseguiu verificar todos os vídeos usados no post de Kitler, mas, sobre o primeiro, a reportagem concluiu que ele foi criado com inteligência artificial (IA). Ferramentas de detecção da tecnologia, como Hive Detect não conseguiram analisar o conteúdo, mas a manipulação pode ser verificada a olho nu. Há sinais de manipulação, por exemplo, nos dentes, que aparecem de diferentes formas, e em um fio de tomada que aparece e desaparece.

Foto: Projeto Comprova / Projeto Comprova
Foto: Projeto Comprova / Projeto Comprova
Foto: Projeto Comprova / Projeto Comprova

A quarta imagem, de um tiroteio, foi feita no Complexo da Penha, no Rio de Janeiro, em 25 de outubro. Embora no dia do segundo turno, não há evidências de que os disparos tenham sido para comemorar a vitória do petista.

Foto: Projeto Comprova / Projeto Comprova

I Legenda: Captura de tela do vídeo de cena noturna ao som de disparos I

Já o quinto vídeo utilizado por Kitler, de homens celebrando em um corredor lotado de uma prisão, foi feito, como verificado a partir de uma busca reversa no Google Imagens, com um celular por um preso em 2022, enquanto acontecia um jogo do Campeonato Pernambucano de futebol. Conforme reportagem do G1, a Secretaria Executiva de Ressocialização (Seres) informou, à época, que esse caso ocorreu no Presídio Juiz Antonio Luiz Lins de Barros (Pjallb), que faz parte do Complexo Prisional do Curado, na Zona Oeste do Recife.

Foto: Projeto Comprova / Projeto Comprova

I Legenda: Vídeo usado no conteúdo de Kilter não mostra presidiários comemorando eleição de Lula I

O caso da menina baleada tem relação com o resultado eleitoral?

Conforme reportagem de O Globo, não há evidências de que a comemoração tenha sido de traficantes que celebrariam a vitória de Lula nas eleições de 2026. A apuração diz que a criança de 5 anos estava na comunidade da Fazendinha, no Complexo da Penha, acompanhada dos pais, no dia 25 de outubro. A família ouviu fogos de artifício e disparos de balas de fogo, e a menina foi atingida na perna. Seus pais a levaram para a Unidade de Pronto Atendimento (UPA) do Alemão. Ela foi transferida para o Hospital municipal Souza Aguiar.

Foi constatado pelos médicos que a menina não precisaria de cirurgia para retirar o projétil de sua perna, e a criança recebeu alta. Ela já voltou para casa medicada e continuará o tratamento médico.

Ao G1, a Polícia Militar informou que agentes da Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) Adeus-Baiana foram acionadas para investigar o caso, e que a ocorrência foi registrada na 21ª DP (Bonsucesso).

Lula falou em acabar com a polícia? Saiba o que existe no plano de governo

Em uma das declarações, Kilter retoma uma fala do presidente Lula durante o debate da TV Globo, realizado em 23 de outubro. Na ocasião, o presidente afirmou que, após a aprovação da PEC da Segurança Pública, criaria um ministério específico para a área. Segundo Lula, a partir de então seria possível ver "o que é um governo acabar, sabe, com a polícia e deixar o território livre". A declaração foi feita durante uma discussão com Flávio Bolsonaro (PL) sobre segurança pública e combate ao crime organizado. Na ocasião, Lula também defendeu a ampliação da atuação da Polícia Federal e da Polícia Rodoviária Federal no enfrentamento às milícias e ao narcotráfico.

Embora tenha utilizado a expressão "acabar com a polícia", a declaração, quando analisada isoladamente, pode levar a uma interpretação diferente do contexto do debate. As propostas apresentadas no plano de governo de Lula apontam para o fortalecimento e a integração das forças de segurança, e não para a extinção das polícias.

Nas páginas 26 a 30 do documento, o plano prevê:

  • Medidas de combate ao crime organizado;
  • Asfixia financeira do crime organizado e das milícias e enfrentamento ao tráfico de armas;
  • Fortalecimento da inteligência policial; Criação do Ministério da Segurança Pública, condicionada à aprovação da PEC da Segurança Pública, para coordenar políticas nacionais e ampliar a integração entre União, estados e municípios;
  • Valorização e qualificação dos profissionais de segurança;
  • Policiamento de proximidade, uso de câmeras corporais e mecanismos de controle da atividade policial;
  • Manutenção do controle de armas e munições e aprimoramento do rastreamento desses materiais e Reforço da fiscalização e do combate a crimes financeiros e cibernéticos.

Portanto, o plano de governo não apresenta propostas para extinguir as polícias, mas prevê medidas para fortalecer a atuação dos agentes no combate a criminalidade.

Quem criou o conteúdo investigado pelo Comprova

O vídeo foi feito e publicado no Instagram do político conservador, cristão evangélico, e vereador de Curitiba (PR) pelo Partido Novo, Guilherme Kilter, de 24 anos. O parlamentar municipal atua desde 2024, quando foi eleito aos 22 anos, com 16.664 votos.

Com 1,4 milhão de seguidores no Instagram, o político ganhou projeção nas redes sociais pelos seus conteúdos voltados para o público bolsonarista. Kilter também esteve envolvido em controvérsias. Em março de 2026, confrontou o deputado estadual Renato Freitas (PT) na Assembleia Legislativa do Paraná, episódio que motivou um pedido de processo por quebra de decoro. Também foi acusado por parlamentares de violência de gênero contra a vereadora Márcia Huçulak (PSD).

Quais táticas de persuasão foram utilizadas pela publicação?

O Comprova verificou algumas estratégias usadas no vídeo:

  • Apelo emocional: as publicações com termos ou expressões de forte carga emocional, como "durante essas comemorações uma criança é atingida por tiro…", para provocar indignação e estimular uma reação imediata do público.
  • Ênfase visual: uso de imagens de presos e cenas de cadeias, com imagens reais, mas descontextualizadas, além do uso de manipulação de inteligência artificial para convencer quem assiste ao vídeo;
  • Polarização política: as publicações associam diretamente a "vitória de Lula" com apoio de traficantes e milícias, o que estimula uma reação de grupos contrários ao presidente.
  • Apelo à indignação: a combinação entre cenas de presos, traficantes e a exibição da reportagem envolvendo uma criança baleada no Complexo da Penha, para repercutir uma narrativa de conflito social e político, o que aumenta o potencial de compartilhamento.

Fontes que consultamos: Consultamos o plano de governo de Lula registrado no TSE, reportagens do G1 e de O Globo sobre o caso da criança baleada no Complexo da Penha e o vídeo gravado em um presídio em 2022, além da publicação original de Guilherme Kilter e do debate da TV Globo. Também utilizamos as ferramentas Hive Detect e InVID para analisar possíveis indícios de manipulação nas imagens. Reportagem da Folha de São Paulo sobre o vereador também foi consultada.

Por que o Comprova investigou essa publicação: O Comprova monitora conteúdos suspeitos publicados em redes sociais e em aplicativos de mensagens sobre políticas públicas, saúde, mudanças climáticas, eleições e golpes virtuais e abre investigações sobre aquelas publicações que obtiveram maior alcance e engajamento. Você também pode sugerir verificações pelo WhatsApp +55 11 97045-4984.

Outras checagens sobre o tema: Recentemente, como afirmado acima, o Comprova publicou na seção Comprova Explica um texto sobre o voto de presidiários com base nas regras eleitorais.

Verificado por: Correio de Carajás, SBT News, A Gazeta, Projeto Comprova

Fonte: Projeto Comprova
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