Casos de gripe disparam e reforçam alerta para a necessidade de se vacinar
A ampla oferta e os benefícios inegáveis da vacinação não têm sido suficientes para levar a população aos postos
Esperada para o período de maio a setembro, a temporada da gripe chegou mais cedo e com mais força ao Brasil em 2026. De acordo com o Ministério da Saúde, até 17 de abril, foram contabilizados 4.181 casos de Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG) associados ao vírus influenza, dos quais 259 pessoas morreram. Os números são muito superiores aos verificados no mesmo período de 2025. A tendência, avalia a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), é de que a alta se mantenha em 14 das 27 Unidades da Federação.
O cenário não é surpresa. No início de dezembro, a Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS) alertou os estados membros para a possibilidade de a temporada da doença começar antes do habitual e transcorrer de forma mais intensa. O motivo era o aumento significativo da atividade do vírus, relacionado ao recém-identificado subclado K (J.2.4.1) do Influenza A(H3N2). Não é possível afirmar que a situação no Brasil esteja relacionada exclusivamente a este subclado, mas a detecção regional de alguns casos e o fato de a cepa protagonista no país ser a A(H3N2) são indicativos disso.
Embora a gripe e os resfriados sejam confundidos pela população devido à semelhança dos sintomas, a gripe é uma séria preocupação em saúde pública. Estimativas da Organização Mundial da Saúde (OMS) apontam que, anualmente, acontecem cerca de 500 milhões de casos de Influenza sazonal, dos quais 3 a 5 milhões são graves. O total de mortes varia de 290 mil a 650 mil. Crianças pequenas, idosos, gestantes e imunocomprometidos são especialmente vulneráveis.
Vacina reduz internação e mortalidade
A literatura científica evidencia que a vacinação é uma das ferramentas mais eficazes para minimizar o impacto da enfermidade. Um robusto trabalho de metanálise e revisão sistemática divulgado em 2025, por exemplo, sinalizou que a vacinação contra o influenza foi capaz de reduzir as hospitalizações pelo vírus em 42%, a mortalidade em 36%, as internações em UTI em 52%, a necessidade de ventilação mecânica em 55% e a ocorrência de pneumonia em 51%. Foram incluídos na avaliação 165 estudos conduzidos em diferentes regiões do planeta, após a seleção de mais de 7.700 publicações.
O Programa Nacional de Imunizações (PNI) disponibiliza a vacina contra a gripe ao longo de todo o ano para crianças de 6 meses a menores de 6 anos, gestantes e pessoas a partir de 60 anos. Nas Campanhas de Vacinação, realizadas antes dos períodos de maior circulação do vírus, também são contemplados outros públicos prioritários.
Mitos comuns sobre a imunização
A ampla oferta e os benefícios inegáveis da vacinação, no entanto, não têm sido suficientes para levar a população aos postos. Em 2025, a cobertura da campanha da Região Norte foi de apenas 41,1%, enquanto a voltada às demais regiões do país foi de 54,15%. A meta é 90%.
A baixa adesão às campanhas, assim como acontece com outras vacinas, tem múltiplas causas. Entre elas, dificuldade de acesso às unidades de saúde devido à distância ou horário restrito de funcionamento, falta de recomendação por parte dos profissionais da saúde, a percepção errônea de que a gripe é uma doença leve e dúvidas a respeito da segurança e da eficácia das vacinas, muitas vezes motivadas por conteúdos equivocados que circulam nas redes sociais.
Entre os mitos mais comuns está a crença de que a vacina causa gripe, o que é impossível, pois os vírus utilizados na composição são inativados (mortos). Outro equívoco frequente é a ideia de que a vacina não funciona. Embora a eficácia possa variar de ano para ano, a depender da coincidência das cepas presentes com os vírus em circulação e de outros fatores, a diminuição de mortes e hospitalizações é amplamente documentada. A vacina desta temporada, inclusive, de acordo com estudos feitos em modelos animais, oferece proteção contra o subclado K mesmo sem contê-lo na fórmula.
Se você faz parte dos públicos-alvo do Ministério da Saúde, aproveite que a campanha de vacinação contra a influenza nas regiões Centro-Oeste, Nordeste, Sudeste e Sul está em andamento para atualizar a sua caderneta.
Se não fizer parte dos grupos prioritários, busque mais informações nos meios de comunicação da cidade onde mora para saber onde e quando pode se vacinar. Muitos municípios já liberaram a vacina para toda a população. A rede privada também é uma alternativa para tomar o imunizante. E procure conscientizar os seus conhecidos: vacinar-se é uma medida simples, segura e essencial para proteger a saúde do indivíduo e da comunidade. Engaje-se nessa causa.
Este artigo foi escrito em parceria com o jornalista Carlos Caroni, da Sociedade Brasileira de Imunizações.
O pediatra Renato Kfouri é membro da Câmara Técnica de Assessoramento em Imunização do Programa Nacional de Imunizações (CTAI-PNI) e representante do Brasil na rede de programas de imunizações das Américas na Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS).
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