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Votos nulos, brancos e abstenções devem ser recorde este ano, aposta autor de livro sobre eleições no Brasil: 'Tem algo diferente desta vez'

O cientista político Jairo Nicolau aponta o Brasil atravessa a campanha presidencial mais atípica desde a redemocratização e que um combinação de fatores deve fazer com que milhões decidam não votar em ninguém.

24 set 2026 - 05h19
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Resumo
Para o cientista político Jairo Nicolau, a abstenção e os votos brancos e nulos podem bater recordes nas eleições de 2026, atingindo o maior nível desde 2002. Esse provável recuo no comparecimento decorre da frustração do eleitorado com a repetida polarização política, do desvio do debate público para crises institucionais como a do STF e do menor custo de não votar, potencializado pela facilidade de justificar a ausência via e-Título, o que consolida, na prática, um modelo de voto facultativo.

A abstenção, que foi recorde nas eleições de 2022, pode voltar a crescer no pleito deste ano e atingir o maior nível das últimas décadas, na avaliação do cientista político Jairo Nicolau. Ele também acredita que o número de votos brancos e nulos pode aumentar.

A cerca de uma semana das eleições de 2026, o professor da Fundação Getúlio Vargas (FGV) avalia que o eleitorado está frustrado com uma campanha marcada pela repetição da polarização entre petismo e bolsonarismo e pelo pouco espaço dedicado ao debate — ofuscado nas últimas semanas pela crise no Supremo Tribunal Federal (STF).

"Essa é uma eleição em que as pessoas estão desanimadas com os candidatos que estão aí, e que tem grande chance de aumentar, num nível razoável, a abstenção e os votos nulos e brancos", afirma.

"Talvez a gente tenha a maior taxa de abstenção nas eleições gerais de 2002 para cá."

Mas Nicolau pondera que nem toda abstenção representa uma decisão deliberada de não participar da política.

Em seu livro O país dividido, publicado em junho pela editora Zahar, o cientista político dedica um capítulo a analisar quem são os eleitores que deixaram de comparecer às urnas nas seis eleições presidenciais entre 2002 e 2022.

Os dados mostram que a abstenção não se distribui de maneira uniforme entre os eleitores — o que também dificulta prever quem poderia ser mais afetado por uma eventual alta neste ano.

"As mulheres comparecem mais, então o comparecimento feminino favorece o Lula. Mas as pessoas de baixa escolaridade comparecem menos. E isso prejudica o Lula", afirma.

Nicolau também chama atenção para outro fator: o custo de não votar ficou menor. Com a facilidade para justificar a ausência e as consequências relativamente pequenas de não comparecer às urnas, o Brasil estaria caminhando, na prática, para uma espécie de voto facultativo.

Confira a seguir os principais trechos da entrevista.

BBC News Brasil - Temos visto um aumento consistente da abstenção nas últimas eleições. Houve um recorde no primeiro turno de 2022, 32 milhões de pessoas não votaram. A gente se acostumou a associar essa abstenção ao desinteresse pela política. Nas suas pesquisas, esse é o principal fator que explica as abstenções?

Jairo Nicolau - Uma parte expressiva dessas abstenções é o voto de pessoas que já têm a opção de não votar, ou seja, o voto é facultativo para pessoas com mais de 70 anos, e o número de pessoas com mais de 70 anos aumenta a cada eleição. O envelhecimento é um fator que tem mudado o perfil do eleitorado brasileiro. Então, o primeiro fator é esse: pessoas que não vão votar porque não são mais obrigadas, já se descolaram, vamos dizer assim, da política.

Depois da abstenção dos não obrigados, tem a das pessoas que estão fora do domicílio eleitoral. Em geral, são pessoas que mudaram de cidade e não transferiram o título. São milhões de pessoas nesse caso, seja um jovem que sai de uma cidade para estudar em outra, uma pessoa que vai trabalhar em outro Estado e não transfere o título. E claro, tem as pessoas que têm problemas no dia: adoecem, são obrigadas a trabalhar fora de casa, enfim.

Mas tem uma parte de pessoas que definitivamente toma uma decisão política, semelhante à que existe em outros países, e pensa: "Todos os candidatos são iguais, eu não me interesso, não acredito mais em ninguém, vou ficar em casa". A questão é que nós não sabemos quanto desse total de 32 milhões de [pessoas que deixaram de votar em] 2022 são de pessoas que, deliberadamente, praticam uma abstenção política. A gente não sabe, não tem pesquisa sobre isso, nem uma estimativa. Mas diria que não é o grupo mais expressivo.

Isso não quer dizer que não venha a ser. Em uma eleição como a deste ano, em que o interesse está baixo, a oferta de candidatos também está ruim, as pessoas vão ficar em casa.

BBC News Brasil - O senhor acha que vamos ter um crescimento e talvez até mesmo um recorde de abstenções nas eleições deste ano?

Nicolau - Eu acho que vai ter sim um crescimento do número de eleitores que se abstiveram. Agora, quanto é esse crescimento? Quantas pessoas já aprenderam que a consequência do não voto é mínima para a vida delas? Sobretudo, se elas não são de classe média para cima, não precisam do passaporte, não precisam fazer um concurso, por exemplo, e pensam: "Ah, tem o e-Título, eu justifico no meu computador, no meu celular aqui, e não vou precisar do título, de estar em dia com as minhas obrigações junto à Justiça Eleitoral. Então pronto, vou ficar em casa". Se um dia essa pessoa precisar de um comprovante para fazer um concurso, ela vai lá na Justiça e resolve.

Essa é uma eleição em que as pessoas estão desanimadas com os candidatos que estão aí, e que tem grande chance de aumentar, num nível razoável, a abstenção e os votos nulos e brancos. Mais nulo, que parece ser uma decisão mais enfática de rejeição, você manda um recado.

BBC News Brasil - Então tem uma questão de desinteresse, mas o próprio sistema tornou mais fácil não votar...

Jairo Nicolau - As pessoas estão percebendo que hoje o custo de não votar, o custo no sentido das implicações do ato, quanto também da multa, é risível. Se a Justiça Eleitoral ou a elite política quisesse dar mais peso à obrigatoriedade, bastava botar R$ 120 de multa. Ninguém ia faltar. Além disso, antes tinha que ir até a seção eleitoral justificar, até uma agência dos Correios. Ou ir até à seção eleitoral para votar e anular. Agora, o e-Título facilitou muito a abstenção. Talvez a gente esteja caminhando para uma espécie de voto facultativo não dito.

BBC News Brasil - O senhor mencionou esse desânimo com os candidatos. Pela terceira vez desde 2018, temos de um lado um Bolsonaro e, do outro, um candidato do PT — com o Lula nas duas últimas eleições. Essa repetição aumenta o desinteresse das pessoas em votar?

Nicolau - É uma eleição que... digamos assim, o mercado eleitoral está pobre. O Lula, pela primeira vez, não vai ter um adversário no campo progressista, centro-esquerda. O outro lado aparece com quatro candidatos muito radicais à direita, são direita inquestionável. E os eleitores centristas, de classe média, querem algo mais moderado para o país, que não querem Lula nem Bolsonaro, nem PT ou direita. E isso faz com que uma parte dos eleitores não vote. É uma posição respeitável, é instinto: se é um ou outro, eu anulo. Então acho que esse cenário de repetição dificulta sim, é uma espécie de terceiro turno de 2022.

Mas eu percebo, pelo menos até agora, que tem um clima diferente. Parece que houve um cansaço, não só com os candidatos, mas de falar de política. Exauriu o Brasil. Pela minha experiência, e eu tento não ficar muito enviesado com a minha experiência, por isso tenho conversado com muita gente que faz pesquisa qualitativa Brasil afora, militantes, quem faz campanha, é que tem alguma coisa diferente nessa eleição, e não é só na conversa e interesse para a presidencial.

A presença de propaganda na rua demorou, está começando agora, mas está acontecendo num momento muito mais tardio comparado com eleições anteriores. Acho que talvez aquele ciclo de uma década, digamos assim, do começo dos anos 10 até começo dos anos 20, a gente tenha tido uma década de hipermobilização política. A explosão das redes sociais possibilitou essa comunicação fácil entre as pessoas, e pode estar havendo um recuo. Este ano, as pessoas estão num grau inferior de conversa, ou até em silêncio. Ninguém está falando de política, o que é estranho.

BBC News Brasil - Em 2022, a gente teve uma redução no número de votos nulos e brancos. As pesquisas mostram que, este ano, esse grupo está em cerca de 7%, junto com aqueles que já disseram que não vão votar para presidente. Existe uma diferença entre esse eleitor que decide não ir votar e o que vai, mas vota em nulo ou branco?

Nicolau - Do ponto de vista de pesquisa, eu desconheço. O fato é que, por muito tempo, como a taxa de votos nulos e brancos no Brasil era muito alta, a gente especulava que isso era uma espécie de resposta ao voto obrigatório. Se eu sou obrigado a votar, mas eu não tenho interesse em política, eu não quero ir votar, eu vou lá e anulo o voto.

Muita gente diz que, se nós não tivéssemos o voto obrigatório, talvez nós tivéssemos um número de votos brancos e nulos menor. Essa foi uma teoria vigente há muito tempo. Mas, na última eleição, caiu muito o número de votos nulos e brancos para presidente. Será que caiu porque as pessoas estavam mais satisfeitas com a política? Não é o que me parece.

Jairo Nicolau acredita que o número de pessoas que deixará de votar este ano será maior do que em 2022
Jairo Nicolau acredita que o número de pessoas que deixará de votar este ano será maior do que em 2022
Foto: Getty Images / BBC News Brasil

BBC News Brasil- Pensando nesse mercado eleitoral, a gente tem, entre os candidatos, o Augusto Cury, que ascendeu após o primeiro debate eleitoral e que hoje aparece em terceiro lugar nas pesquisas. Como o senhor avalia esse movimento e o que isso revela sobre o eleitor em 2026?

Nicolau- O Cury ocupa um espaço de um eleitor menos politizado, que não vê nas duas opções [Lula e Flávio Bolsonaro] algo, digamos assim, muito animador. E não tem nessa eleição candidato dos partidos tradicionais ocupando esse lugar — o PSD optou por um candidato muito à direita; o Novo, um candidato muito à direita; o Renan Santos, que é uma novidade também por ser jovem, mas que também assumiu uma pauta muito à direita. Ou seja, ninguém se moveu para o centro.

Então o Cury acaba sendo quase a última possibilidade de alguém moderado, centrista, que foge da polarização, ou que não tem um discurso radical à direita como os outros, que não fala de políticas duras. Mas não acho que ele tenha muito espaço mais para se apresentar para o Brasil e crescer. O tempo de TV dele em horário eleitoral é quase nada, ele ainda é desconhecido de grande parte dos eleitores, e a gente não está tendo tantos debates entre os candidatos nesta eleição. O espaço dele fica nas redes sociais, e acho que ele atingiu o teto do público atingível para o tipo de perfil que ele tem para prosperar.

Para mim, ele seria um fenômeno se chegar ali próximo de 10% dos votos válidos. Ele se tornaria ali a figura central do segundo turno e sinalizaria para uma parte dos partidos tradicionais, que tem um mercado no Brasil não preenchido por pessoas que estão cansadas de PT e PL, direita e esquerda. Vamos ver até onde vai.

BBC News Brasil- O mês de setembro tem sido tomado pela crise no STF e, como o senhor mesmo mencionou, isso sequestrou o debate sobre as eleições. Essa crise também pode influenciar no número de abstenções?

Nicolau - A crise do STF pode ter piorado um pouco o interesse das pessoas na política, aumentado a descrença, o ranço. Para mim, o pior que essa crise fez foi reforçar essa ideia de descolamento de uma parte do Brasil da sua elite, e o pensamento de muitas pessoas de que a elite política brasileira é toda igual. Então, é plausível apostar no aumento da abstenção política, essa que a gente sabe que é pequena, mas ela pode se alargar. Talvez a gente tenha a maior taxa de abstenção nas eleições gerais de 2002 para cá.

Apostaria que a crise no STF ajuda num certo enfado. Foram 15 dias, talvez até mais, em que o país só conversou sobre isso. Uma campanha eleitoral que já é curta, de 50 dias, em um terço dela, a atenção das pessoas foi consumida para olhar para isso, para dez ministros e deixar de pensar em questões de política pública. Então, assim, independentemente do efeito sobre a decisão do eleitor, ela teve um efeito sobre a campanha, atrapalhou muito. Ficamos numa espécie de não campanha, talvez a maior não campanha da história das eleições presidenciais desde a redemocratização. Não houve campanha. Primeiro porque as pessoas não se interessavam, depois porque entrou o Supremo e, terceiro, que o tempo ficou curto. Enfim, é uma eleição muito pobre.

BBC News Brasil- Um aumento da abstenção pode prejudicar mais um candidato do que outro?

Nicolau - Há um lado dizendo que é a direita a mais prejudicada, e um outro lado, dizendo que é a esquerda. A direita, porque as mulheres comparecem mais, então o comparecimento feminino favorece o Lula. Mulheres vão votar numa taxa bem maior, sobretudo as mulheres de média para alta escolaridade. Por outro lado, as pessoas de baixa escolaridade comparecem menos para votar. Isso prejudica o Lula.

Isso a gente só vai saber, a geografia da abstenção, se pega a grande cidade, se pega redutos do Lula depois da eleição, mas previamente não tem ninguém que eu poderia cravar que a abstenção vai prejudicar ou favorecer. Os candidatos estão trabalhando para levar os seus nichos eleitorais para as urnas, eles são inteligentes, os estrategistas estão mirando nesses grupos.

BBC News Brasil - As pesquisas de intenção de voto mostram que esta pode ser uma eleição bem apertada, com Flávio e Lula alternando aí na liderança do segundo turno. Nesse cenário, um aumento da abstenção pode ser decisivo?

Nicolau - Não diria que decisiva. Se ela for igual, o mesmo padrão, se ela não inclinar para um dos lados... Se crescer entre os pobres e crescer entre as mulheres, um anula o outro. O que afeta o candidato é se a abstenção no Nordeste for altíssima, se a abstenção em São Gonçalo for altíssima. Se, por alguma razão, os eleitores de média escolaridade não forem — isso afeta grupos em detrimento de outros.

Mas a gente não sabe previamente onde estão esses segmentos. Eu não diria que a abstenção é decisiva porque eu não sei como ela vai se concentrar. Ela vai ser certamente um sinal que os eleitores mandam lá para Brasília de "Chega, estamos cansados". Ou não. Pode ser que, de última hora, os eleitores vão lá e votem. Mas a minha intuição é que a abstenção deve subir.

BBC News Brasil - E é possível reduzir a abstenção dos eleitores?

Nicolau - Não vejo como. As campanhas já foram feitas, campanhas cívicas, do TSE, dos partidos. O que eu acho que a gente tem que aprender é que, em todas as democracias, há um contingente de pessoas que não gostam de política, que não querem participar, que não têm interesse em acompanhar a política, e isso se traduz, nos países que têm voto facultativo, nas pessoas que ficam em casa porque acham que política não faz diferença para a vida delas. Isso é muito grande em muitos países, como Estados Unidos, Inglaterra. Agora, no Brasil, a gente não sabe o tamanho desse contingente porque nós obrigamos as pessoas a se registrarem para votar, porque nós usamos o voto compulsório.

Sempre vamos ter, seja com voto compulsório, seja com voto facultativo, um contingente de pessoas que não quer participar. Isso não significa que os partidos, que os órgãos de comunicação, que as escolas não devam incentivar e estimular as pessoas a acompanharem política e a votar, mas a participação plena, a participação maior do que a gente tem hoje, eu acho difícil.

Inclusive, o Brasil tem uma das taxas de comparecimento mais altas no mundo. Se oito de cada dez inscritos forem votar, isso já é bastante comparado a outros países. Então, eu não tenho muita ilusão de que a gente vá mudar isso. Pelo contrário, acho que a tendência é que, à medida que os eleitores vão percebendo que o voto facultativo está se impondo na prática no Brasil, eles fiquem em casa.

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