Vorcaro disse que BC o orientou a procurar André Esteves, do BTG: 'Ele disse que era o maior banqueiro do mundo, que era Deus na nossa vida'
Conversas entre o dono do Banco Master e sua então namorada obtidas pela Polícia Federal indicam tensão com o CEO do BTG Pactual e citam suposta orientação do Banco Central
As mensagens trocadas pelo banqueiro Daniel Vorcaro e sua namorada, a influencer Martha Graeff, obtidas pela Polícia Federal sugerem um embate duro entre o dono do Banco Master, que está preso desde quarta-feira (4/3), e o também banqueiro André Esteves, sócio-sênior e chairman do BTG Pactual.
Os registros de conversas, às quais a BBC News Brasil teve acesso, também mostram Vorcaro dizendo à sua namorada que teria sido orientado pelo Banco Central a procurar o BTG.
Não está claro a quem o banqueiro se refere ao citar "BC". Mas as mensagens surgem em meio aos indícios investigadas pela PF de que ao menos dois servidores do Banco Central teriam atuado como uma espécie de "consultores" para Vorcaro, o que seria ilegal à medida em que eles deveriam fiscalizar a atuação do Banco Master.
Dois servidores de carreira do BC — Paulo Sérgio Neves de Souza e Belline Santana — também foram alvos da operação. Mendonça determinou o uso de tornozeleira eletrônica e o afastamento de ambos de suas funções. A BBC News Brasil não conseguiu localizar as defesas dos dois.
As conversas indicam ainda que Vorcaro via Esteves como um adversário nos negócios. Ainda segundo os diálogos, o banqueiro do Rio de Janeiro teria feito uma proposta pela compra do Master e Vorcaro deveria deixar as negociações em curso com o Banco de Brasília (BRB), banco público do Distrito Federal.
"André disse que era o maior banqueiro do mundo. E ele era Deus que apareceu na nossa vida/Que tinhamos que agradecer a Deus a proposta dele/E esquecer o BRB", disse Vorcaro à sua namorada", disse à sua namorada em abril de 2025.
A transação com o BRB acabou entrando na mira da Polícia Federal por suspeitas de irregularidades envolvendo a compra de ativos do Master no valor de R$ 12,2 bilhões.
Em outra troca de mensagens, Vorcaro afirma suspeitar que Esteves estaria por trás de uma suposta campanha midiática negativa contra seus negócios. Não há indicações nas mensagens sobre qual seria essa campanha.
À BBC News Brasil, o BTG Pactual enviou uma nota dizendo que nunca teve interesse em comprar o BRB.
"Nunca houve interesse na aquisição do Banco Master. Nossa atuação limitou-se à aquisição estratégica de ativos não problemáticos, visando prover liquidez à instituição em janelas pontuais de mercado", disse a nota.
A defesa de Vorcaro disse que não iria se manifestar sobre o episódio. O Banco Central não respondeu às perguntas enviadas.
Tensão entre banqueiros
As conversas entre Daniel Vorcaro e Martha Graeff mostram que o banqueiro expressou tensão em sua relação com André Esteves ao longo de vários meses.
No mercado, os dois eram vistos como personagens de estilos bastante distintos.
Enquanto Esteves ficou conhecido pelo perfil negocial ousado, mas discreto e reservado no plano pessoal, Vorcaro era visto como um novato no mercado financeiro com grande exposição na mídia e em redes sociais, e um estilo de vida extravagante.
Apesar das diferenças, os dois banqueiros têm o comum o fato de já terem sido presos por investigações conduzidas pela Polícia Federal.
Em 2015, Esteves foi preso pela Operação Lava Jato, suspeito de tentar obstruir o trabalho os investigadores que apuravam uma suposta promessa de pagar R$ 50 mil para a família do ex-diretor da Petrobras e delator Nestor Cerveró. Esteves negou ter cometido qualquer crime, foi liberado posteriormente e e não foi condenado pelo episódio.
Em novembro de 2024, contudo, o Master já dava sinais ao mercado de que poderia precisar de injeções de capital para honrar seus compromissos junto a investidores e o BTG era visto como um dos potenciais interessados em algumas das operações do Master.
O Banco Master era alvo de desconfiança por conta de sua estratégia de oferecer Certificados de Depósitos Bancários (CDBs) com taxas de retorno bem acima do mercado.
Para conseguir honrar esses compromissos, o banco passou a expandir sua carteira de ativos de risco, deixando investidores e outros bancos preocupados sobre uma possível quebra.
Nos meses seguintes, os temores se mantiveram, afetando a credibilidade do banco e fazendo com que Vorcaro passasse a procurar alternativas para manter a liquidez da instituição.
Neste contexto, as mensagens entre 2024 e 2025 mostram que Vorcaro via Esteves como um adversário empresarial em meio à tentativa de manter seu banco de pé e minimizar eventuais perdas de ativos ao longo do processo.
No dia 4 de novembro de 2024, por exemplo, Vorcaro relata que participou de um evento junto com Esteves.
Nas mensagens, ele revela o incômodo de estar ao lado do seu suposto adversário.
"Amor, me colocaram do lado do André Esteves no evento. Aí vem um [...] e fica pedindo pra tirar foto. Eu e André esquivando", diz um trecho das mensagens.
Três dias depois, no dia 7 de novembro de 2024, Vorcaro diz à sua namorada que ele estaria sendo vítima de um "ataque de mídia" do seu adversário.
"Tô resolvendo um ataque de mídia que o André Esteves fez agora aqui, amor, desculpe".
No dia 19 de novembro, Vorcaro volta a relatar seu incômodo em sua relação com Esteves. Nas mensagens, ele diz que o banqueiro do BTG Pactual o estaria pressionando para ficar com o Master.
"Nossa, tô tomando um aperto gigante aqui de mercado", diz uma mensagem.
"Esteves me deu uma espremida pra ele ficar com o banco", diz, antes de concluir: "Virei alvo".
Esteves 'entra na mente dos caras do Bacen', diz Vorcaro
Em 2025, Vorcaro deu início a conversas com o BRB para que o banco público comprasse parte dos ativos do Master, evitando a sua quebra.
A notícia de uma possível venda do Master para o BRB movimentou o mercado e, em 4 de abril, Vorcaro relatou à sua namorada um novo encontro com André Esteves.
Segundo ele, o encontro foi inusitado e contou, também, com a presença de seu antigo sócio, Augusto Lima, dono do Banco Pleno, liquidado no mês passado pelo Banco Central, e que também alvo de investigações da Polícia Federal.
Nas mensagens, Vorcaro diz que Esteves tentou dissuadi-lo de negociar com o BRB e que só o procurou por orientação do Banco Central.
"André disse que era o maior banqueiro do mundo. E ele era Deus que apareceu na nossa vida", disse Vorcaro.
"Que tínhamos que agradecer a Deus a proposta dele e esquecer o BRB", disse o banqueiro.
Poucos minutos depois, na mesma conversa, Vorcaro afirma que teria procurado Esteves por orientação do Banco Central e sugere que o banqueiro teria influência sobre técnicos da autoridade monetária.
"Fui la porque [o] Banco Central pediu, porque ele é ardiloso", disse.
"Entra na mente dos caras do Bacen [Banco Central]. Mas turma nossa tá pegando pesado demais. Essa semana fui massacrado", disse Vorcaro nas mensagens seguintes.
Não fica claro pelo conjunto das mensagens quem, dentro do Banco Central, teria orientado Vorcaro a procurar o BTG Pactual.
As investigações conduzidas pela PF, no entanto, apontam que os servidores do BC, Paulo Sérgio Neves de Souza e Belline Santana teriam dado orientações a Vorcaro de forma supostamente irregular.
A PF apontou, em relatório enviado ao STF, as suspeitas de que, em troca, a dupla receberia pagamentos ou vantagens indevidas como viagens à Disney.
Após a liquidação do Master, também foram levantados questionamentos sobre se o BC agiu corretamente ao longo do processo de crise de liquidez do Master ou se ele teria demorado a atuar.
Ao final, a suposta venda do Master para o BTG pactual não ocorreu. Naquele mesmo mês, foi anunciada, no entanto, uma venda de R$ 1,5 bilhão em venda de ativos do Master para o BTG.
O maior acordo fechado por Vorcaro para tentar sanar as contas do banco foi com o BRB, envolvendo a venda de R$ 12,2 bilhões em ativos de sua carteira.
A negociação, no entanto, é alvo das investigações da Polícia Federal que apuram supostos crimes contra o sistema financeiro praticados por Vorcaro.
Em novembro do ano passado, o Banco Central liquidou o Master e, desde então, o BC já liquidou outros três bancos ligados direta ou indiretamente com o Master.
A defesa de Vorcaro vem afirmando que o banqueiro não cometeu nenhuma irregularidade e que ele estaria cooperando com as investigações.
Mesmo assim, Vorcaro foi preso pela segunda vez na quarta-feira (5/3) durante a terceira fase da Operação Compliance Zero.
A nova fase apura, também, a formação de um grupo para monitorar e ameaçar adversários de Vorcaro com a participação de Fabiano Zettel, cunhado do banqueiro; Luiz Phillipi Mourão, chamado de "Sicário", que estaria conduzindo monitoramento de adversários de Vorcaro; e o policial federal Marilson Roseno da Silva.
A BBC News Brasil não conseguiu localizar a defesa de Roseno nem dos funcionários do Banco Central alvos da investigação.
Os quatro foram presos. Mourão, no entanto, foi transferido para um hospital em Belo Horizonte (MG) após, segundo a Polícia Federal, ter tentado se matar enquanto estava sob custódia.
Segundo sua defesa, Mourão encontra-se em estado grave.