Trump assina decreto para alterar imunização contra sarampo e reduzir número de vacinas para crianças
A Academia Americana de Pediatria considerou 'perigosa' a ordem executiva de Trump sobre a imunização contra sarampo, caxumba e rubéola. Presidente americano também recomendou redução no número de vacinas aplicadas em crianças.
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, assinou nesta segunda-feira (10/8) uma ordem executiva que pretende reduzir o número de vacinas para crianças e dividir em doses individuais a imunização com a tríplice viral, que protege contra sarampo, caxumba e rubéola.
"Décadas atrás, as crianças recebiam apenas uma pequena fração das vacinas recomendadas hoje", disse Trump. "Naquela época, as pessoas eram muito mais saudáveis e, é claro, as altas taxas de autismo observadas atualmente não existiam."
O presidente republicano há muito tempo questiona a segurança da tríplice viral, mas diversos estudos afastaram a conexão entre a imunização e o autismo.
Diversos estudos buscaram, mas não encontraram, qualquer ligação entre a vacina e o autismo. Recentemente, um deles, realizado na Dinamarca e divulgado em 2019, analisou dados de 657.461 crianças e concluiu não haver qualquer comprovação da relação entre a tríplice viral e o autismo.
O governo federal não tem autoridade para implementar as novas recomendações — as vacinas obrigatórias para a frequência escolar são definidas em nível estadual.
Mas a ordem de Trump recomenda que o número de vacinas infantis seja reduzido para 11, em vez das 18 atualmente recomendadas pela Academia Americana de Pediatria.
Essas 11 vacinas protegem contra sarampo, caxumba, rubéola, difteria, tétano, coqueluche, poliomielite, Haemophilus influenzae tipo B, doença pneumocócica, papilomavírus humano e varicela (catapora).
"Estamos reduzindo o número de doses", disse Trump. "Não se trata apenas de diminuir a quantidade de vacinas, ou injeções, mas sim de aplicá-las em uma série de atendimentos."
O presidente sugeriu que a tríplice viral poderia ser "bastante letal" se aplicada de uma só vez, o que não tem evidências científicas. Trump comparou a situação a despejar uma garrafa de refrigerante no organismo de uma criança.
Mas especialistas afirmam que aumentar o número de doses individuais, quando se pode concentrá-las como no caso da tríplice viral, faz crescer a probabilidade de se contrair doenças devido ao aumento no intervalo de tempo entre as vacinas e na probabilidade de ausência nas datas de aplicação do imunizante.
De acordo com os Centros de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos (CDC), "não há evidências científicas publicadas que demonstrem qualquer benefício em separar a vacina tríplice viral (MMR) em três doses individuais".
A agência afirma que "a maioria das pessoas que recebem a vacina MMR não apresenta problemas graves" e que tomar a vacina "é muito mais seguro do que contrair sarampo, caxumba ou rubéola".
O secretário de Saúde do governo Trump, Robert F. Kennedy Jr., defendeu que as mudanças propostas visam dar aos pais a opção de escolha, e não proibir o acesso às vacinas infantis.
O médico Andrew Racine, presidente da Academia Americana de Pediatria, classificou a ordem executiva de Trump como "desanimadora" e "perigosa" — ressaltando que ela surge num momento em que os casos de sarampo nos EUA atingiram o nível mais alto dos últimos 35 anos.
O Brasil — especialmente o estado de São Paulo — está em alerta pelo aparecimento de novos casos de sarampo no país, o que é causado pela "importação" do vírus através de viajantes que chegam do exterior. A principal vacina usada no Brasil contra a doença também é a tríplice viral.
No Brasil, também, políticos da base do ex-presidente Jair Bolsonaro, como o deputado federal Nikolas Ferreira, voltaram a repetir alegações que não são sustentadas pelas evidências científicas questionando vacinas, máscaras e medidas adotadas durante a pandemia de Covi.
"Em vez de garantir que todas as famílias tenham acesso a vacinas que salvam vidas contra sarampo, gripe, VSR e outras doenças, os líderes federais estão mais uma vez disseminando informações enganosas", disse Racine em um comunicado.
O médico destacou não haver novas evidências que justifiquem as mudanças e defendeu que a ordem de Trump não se baseia em "ciência de padrão ouro".
"Adiar ou pular as vacinas é arriscado, especialmente porque o sarampo continua se espalhando e as crianças estão voltando para a escola", disse Racine.
O senador republicano Bill Cassidy criticou a ordem executiva de Trump, seu correligionário, classificando-a como "errada".
"O presidente não tem a experiência necessária para fazer essas mudanças", escreveu Cassidy, que também é médico, nas redes sociais.
"As vacinas são extremamente seguras. As vacinas são eficazes. As vacinas NÃO causam autismo."
O parlamentar, que preside a Comissão de Saúde do Senado, instou os pais a "ouvirem o pediatra de seus filhos sobre vacinas, em vez de darem ouvidos a uma ordem executiva imprecisa".
Especialistas temem que, se os pais deixarem de vacinar seus filhos devido à alegação sem evidências científicas de que as vacinas infantis estão ligadas ao autismo, isso possa levar ao agravamento de doenças como o sarampo.
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