Por que mulheres e homens votam cada vez mais diferente — e como isso pode definir eleição entre Lula e Flávio Bolsonaro
As mulheres são maioria do eleitorado e têm um peso decisivo na eleição. Por isso, são cortejadas por ambos os líderes da disputa pela Presidência, com uma vantagem para Lula, enquanto Flávio tenta vencer a rejeição que herdou de seu pai.
O voto feminino desponta como fator decisivo na disputa entre Lula e Flávio Bolsonaro. Maioria do eleitorado, as mulheres têm rejeitado o radicalismo da direita e garantido a liderança das intenções de voto a Lula, que se destaca entre nordestinas, pretas e de baixa renda. Já Flávio lidera entre os homens, mas herda a rejeição a Jair Bolsonaro e tenta atrair o público feminino em meio a conflitos com Michelle Bolsonaro e ataques de radicais ao direito de voto das mulheres.
"Está na mão das mulheres, em certa medida, a reeleição do Lula. Se o Flávio [Bolsonaro] consegue quebrar essa rejeição que tem entre as mulheres, aí é um passo para vencer as eleições", analisa o cientista político Jairo Nicolau, professor da Fundação Getúlio Vargas.
A afirmação dá a dimensão da importância que o voto feminino ganhou no Brasil, desde que as brasileiras começaram a se distanciar cada vez mais da crescente preferência masculina pela direita e a apoiar, majoritariamente, candidatos à esquerda.
Hoje, um dos motivos que coloca o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) na frente do senador Flávio Bolsonaro (PL) nas pesquisas eleitorais é a ampla vantagem que tem entre as eleitoras.
A resposta de radicais a esse fosso que se abriu nas preferências de gênero foi um aumento dos ataques ao voto feminino.
No YouTube, TikTok e Instagram, é possível encontrar "cortes" (trechos curtos de uma entrevista, geralmente de tom bombástico) em que participantes de podcasts dizem frases como "o voto feminino é o erro da democracia ocidental" ou "é muito fácil convencer a mulher de votar, é só você seduzi-la".
Autor de O país dividido, em que analisa as disputas presidenciais das duas últimas décadas, Jairo Nicolau nota que o fenômeno do gap de gênero, quando aumenta a diferença entre os votos de homens e mulheres, ganhou força no Brasil a partir de 2018 e se intensificou em 2022 e 2026.
Antes disso, não é que mulheres e homens votassem de forma idêntica, mas o fosso entre eles não era tão grande, ressalta.
"Em 2018, durante a campanha, havia uma maior rejeição, sobretudo entre as mulheres jovens, em relação ao candidato Jair Bolsonaro, mas ele acabou vencendo com uma margem pequena entre as mulheres e uma margem muito grande entre os homens", lembra Nicolau, a partir da análise das pesquisas eleitorais daquele ano.
"Já em 2022, aconteceu uma coisa ainda mais interessante, do ponto de vista da divisão eleitoral de homens e mulheres: o Lula venceu com uma certa margem entre as mulheres e perdeu por pouco, mas perdeu, entre os homens, segundo vários testes que fiz [a partir das pesquisas de intenção de voto]. Foi a primeira vez que um candidato foi eleito vencendo em apenas um segmento de gênero", ressalta.
As sondagens de 2026 indicam que esse cenário pode se repetir. Segundo pesquisa Genial/Quaest realizada no início de agosto, Lula aparece com 44% de intenção de voto em eventual segundo turno contra Flávio Bolsonaro, que soma 39%.
No Agregador de Pesquisas da BBC News Brasil, Lula tem 45% das intenções de voto no segundo turno, contra 44% de Flávio Bolsonaro.
A vantagem de Lula é puxada pelas mulheres. De acordo com a Genial/Quaest, 47% das eleitoras dizem que pretendem votar no presidente, enquanto 35% declaram voto no senador — uma diferença de doze pontos percentuais.
A pedido da BBC News Brasil, o instituto Quaest destrinchou as intenções de voto feminino. Segundo a média das pesquisas Genial/Quaest realizadas de fevereiro a agosto, a preferência pelo petista na comparação com Flávio vem, principalmente, do apoio das mulheres nordestinas (62% a 23%), pretas (55% a 24%) e de renda até dois salários mínimos (52% a 29%).
Considerando a idade, Lula vai melhor entre jovens e idosas, com vantagem acima de dez pontos percentuais. Já entre as eleitoras de 35 a 59 anos, a diferença é menor (43% a 37%).
Repetindo o perfil eleitoral do pai, Flávio atrai mais apoio entre os homens, mas com vantagem menor sobre seu adversário: 44% dos eleitores disseram que votariam no candidato do PL contra 40% que pretendem votar pela reeleição de Lula, em caso de segundo turno entre os dois.
Esse cenário dá especial vantagem para o petista, porque as mulheres são a maioria do eleitorado. Segundo o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), há 83,8 milhões de brasileiras registradas para votar nesta eleição, o equivalente a 52,8% do total de votantes.
Ou seja, elas somam cerca de 9 milhões de votos a mais do que os homens, que totalizam 74,8 milhões de eleitores registrados na Justiça Eleitoral. A diferença reflete, principalmente, o fato de as brasileiras constituírem a maioria da população, já que, na média, vivem mais que eles.
'Mesmo entre conservadoras, mulheres rejeitam radicalismo'
No final de julho, o filho de Jair Bolsonaro manifestou incredulidade com a rejeição da maioria das mulheres ao seu nome.
Na sua visão, a direita tem propostas melhores para pautas que preocupam esse grupo, como segurança pública e combate às drogas.
"Falta o quê? A gente comunicar melhor. Não dá para compreender como é que as pesquisas mostram, por exemplo, que as mulheres estão votando mais lá do que aqui. As pautas das mulheres são as pautas que nós defendemos", disse Flávio.
"Pergunta para uma mãe se ela quer o filho drogado. É a direita ou a esquerda que é contra as drogas? A esquerda faz programa de liberação de drogas."
Segundo a cientista política Luciana Veiga, professora da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Unirio), há uma tendência global entre as mulheres em rejeitar candidatos mais à direita.
O que afasta as mulheres desse campo, ressalta, não são necessariamente as pautas conservadoras, mas a forma como esses políticos respondem aos problemas que preocupam o público feminino.
"As mulheres, em geral, tendem a fugir dos candidatos da extrema direita populista. Não é nem porque as mulheres não sejam conservadoras. O que acontece é que elas tendem a ser menos agressivas e gostar menos do ataque, do confronto", diz Veiga.
"No caso europeu, por exemplo, elas podem até ser contra imigrantes, mas daí a estigmatizar o imigrante, agir de maneira agressiva [contra esse grupo], a maioria não apoia. No caso brasileiro, podemos ver isso na pauta dos costumes."
A posição sobre aborto no Brasil é um exemplo desse raciocínio. Uma pesquisa realizada em 2024 pelo Instituto Update indicou que 75% das mulheres eram contra a descriminalização do aborto.
Por outro lado, 72% eram contra punir gestantes que interrompem a gravidez fora das previsões legais — e, mesmo entre as que se declararam de direita na pesquisa, a posição contra punições era majoritária (61%).
O mesmo levantamento revela que a preocupação com a segurança pública e a violência não é exclusiva das mulheres conservadoras. O tema foi apontado como um dos três principais problemas do país por 77% das mulheres.
O Instituto Update é uma organização sem fins lucrativos que atua na promoção da inovação política e do fortalecimento da democracia. Recentemente, publicou uma nova edição da pesquisa "Mulheres em Diálogo", focada em violência e segurança pública.
"Para muitas mulheres, a segurança pública tem a ver com política de cuidado, com iluminação pública, com transporte seguro, proteção social, acesso à Justiça. Então, não existe uma única definição de segurança pública para as mulheres", afirma Carolina Althaller, diretora-executiva do Instituto Update.
"A literatura [sobre o comportamento feminino] mostra que as mulheres tendem a adotar essa visão mais ampla de segurança, só que as propostas da direita são todas com ênfase na repressão ao crime organizado."
Na visão de Jairo Nicolau, Jair Bolsonaro enfrentou uma resistência maior entre as mulheres já em 2018 devido "à sua biografia e seu histórico de posições machistas". Depois, analisa o pesquisador, a rejeição feminina cresceu ainda mais devido às ações do seu governo, como a condução na pandemia de covid-19.
"O fato de ele ter sido contra as vacinas afetou muito a popularidade dele, porque as mulheres, afinal, queiramos ou não, são as mais responsáveis pelo cuidado em geral dos filhos, dos familiares, dos pais. E, naquele momento de crise, a vacina era fundamental para o país", diz Nicolau.
"Então, o que era rejeição à figura física, ao CPF Jair Bolsonaro, se transformou em rejeição ao CNPJ, ao seu governo. E, agora, essa rejeição passou para o filho. Ele herdou muitos votos do pai, mas também essa rejeição."
A movimentação de Flávio
Consciente do desafio, Flávio tem mirado o eleitorado feminino com conteúdo em suas redes sociais e em atos de pré-campanha.
No início de agosto, por exemplo, disse que indicará homens e mulheres ao Supremo Tribunal Federal (STF), caso eleito — a promessa contrasta com a postura de Lula, que indicou três homens para a Corte em seu terceiro mandato, o que acabou reduzindo a participação feminina do STF de duas ministras para apenas uma (Cármen Lúcia), após a aposentadoria de Rosa Weber.
Por outro lado, Flávio surpreendeu ao escolher um homem de pouca projeção nacional, o deputado Alfredo Gaspar (PL), para ser seu candidato a vice-presidente, após grande expectativa de que chamaria uma mulher para integrar sua chapa.
Flávio tentou trazer nomes como a senadora Tereza Cristina (PP) e a ex-presidente da Caixa Daniella Marques (Republicanos), mas ambas foram impedidas de concorrer com o senador porque seus partidos não aprovaram a coligação com o PL, optando por manter a neutralidade na disputa presidencial.
Não foi o primeiro revés de sua candidatura. Em junho, um vídeo da ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro (PL) caiu como uma bomba na pré-campanha. Na gravação, ela explicava sua falta de engajamento em apoio a Flávio na corrida presidencial, dizendo que se sentiu maltratada por ele quando foi escanteada das negociações eleitorais do PL no Ceará.
Apesar da sua oposição, a sigla decidiu apoiar a candidatura ao governo de Ciro Gomes (PSDB), político que é forte crítico de Jair Bolsonaro. Além disso, o partido rejeitou lançar ao Senado sua afilhada política Priscila Costa (PL), vereadora mais votada de Fortaleza.
A ruptura entre os dois é apontada como um dos fatores que provocou a queda de Flávio nas pesquisas eleitorais, ao lado do escândalo Dark Horse, filme em homenagem a Jair Bolsonaro que recebeu recursos do banco Master, após negociação de Flávio com o banqueiro Daniel Vorcaro.
Cerca de um mês depois, em julho, o senador pediu desculpas a Michelle, vista como um possível trunfo para atrair mais votos femininos. Até o momento, porém, a primeira-dama segue resistente a mergulhar em sua campanha, em um contexto de fortes embates internos dentro do bolsonarismo, outro fator que teria motivado o vídeo de rompimento com Flávio.
Um desses ataques veio de Paulo Figueiredo, que mora nos Estados Unidos e é neto de João Figueiredo, o último presidente da ditadura militar (1964-1985).
Em uma live, no final de junho, ele chamou Michelle de "feminista", em tom crítico, e disse que "mulheres votam estatisticamente mal, principalmente mulheres solteiras".
Depois, em um post na rede social X, afirmou que "nem sempre foi assim" e que a suposta piora do voto feminino "tem a ver com o avanço desta ideologia demoníaca feminista que está destruindo a vida das mulheres".
Flávio Bolsonaro emitiu nota em que repudiou a fala de Figueiredo, um aliado próximo. Ambos estiveram juntos na Casa Branca, em maio, quando foram recebidos pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.
"Quando o Paulo Figueiredo traz essa fala absurda, de que as mulheres votam mal, é porque, na visão dele, votar na esquerda é votar mal. De fato, as mulheres estão caminhando para a esquerda, gradualmente", nota Luciana Veiga, da Unirio.
Segundo a cientista política, mudanças sociais estão por trás desse movimento, inclusive o aumento dos divórcios.
"A teoria [acadêmica] diz que as mulheres, a princípio, seriam mais conservadoras do que os homens numa sociedade em que elas estariam muito voltadas para a socialização das crianças, para dentro de casa", ressalta.
"Mas, na medida em que elas fossem entrando no mercado de trabalho, fossem ganhando mais autonomia, inclusive em relação ao divórcio, essas mulheres tenderiam a caminhar mais para a esquerda."
Para Veiga, esse processo tem ocorrido de forma gradual com as mulheres brasileiras, que permanecem majoritariamente conservadoras.
Na sua visão, o aumento da diferença nas intenções de voto entre mulheres e homens não decorre de uma virada brusca delas à esquerda, mas de "uma guinada para a direita muito forte" do eleitorado masculino.
Para Carolina Althaller, do Instituto Update, as mudanças no eleitorado feminino não significam que o apoio majoritário a candidatos da esquerda está garantido: "Nenhum campo político pode assumir que já conquistou esse eleitorado".
"No caso do governo Lula, há agendas que costumam encontrar maior ressonância entre parte das mulheres, principalmente quando a gente fala de políticas sociais, de combate à fome, da ampliação do acesso a serviços públicos, das iniciativas voltadas para igualdade de gênero, o próprio Ministério da Mulher e os projetos de enfrentamento à violência", diz Althaler.
"Mas, efetivamente, tem temas determinantes que o governo ainda não tocou. A segurança pública é um deles. Feminicídio não é tudo [que preocupa as mulheres nesse tema]."
Ela também nota um incômodo com a falta de representação feminina nos diferentes espectros políticos: "Existe um cansaço com isso, só porta-vozes homens o tempo inteiro falando do que fazer das nossas vidas".
Durante a convenção nacional do PT que oficializou a candidatura de Lula à reeleição, não havia mulheres previstas para discursar. O presidente notou o problema e, de improviso, pediu que a primeira-dama Rosângela da Silva, a Janja, se pronunciasse.
"Não é possível que a gente tenha esquecido do principal evento da nossa campanha, não ter colocado uma mulher para falar", afirmou Lula.
Do lado de Flávio, sua mulher, a cirurgiã-dentista Fernanda Bolsonaro, fez seu primeiro discurso em um evento político na convenção do PL que oficializou a candidatura do senador, dizendo que estava ali "como mulher e mãe".
Flávio discursou em seguida e começou agradecendo o apoio de Fernanda, que estava ao seu lado, e depois agradeceu e abraçou sua mãe, Rogéria, que estava do outro lado: "Se estou aqui hoje, gente, é também para honrar todas as mães desse Brasil".
*Gráficos por Laís Alegretti, da equipe de jornalismo visual da BBC News Brasil.
Comentários
Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie.