Tarcísio fortalece imagem pelo País, atrai até eleitor de Lula, mas enfrenta desgaste em SP
Achados de pesquisas qualitativas do Instituto Travessia mostram governador bem posicionado em regiões fora de São Paulo
Principal cotado para suceder o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) em 2026, o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), vive um paradoxo: enquanto sua gestão acumula desgastes entre os paulistas, sua força eleitoral cresce fora do Estado, a ponto de furar a bolha e atrair até eleitores que hoje aprovam a gestão Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
É o que mostram pesquisas qualitativas do Instituto Travessia realizadas no primeiro semestre deste ano no Distrito Federal e em cidades de diferentes Estados do País, incluindo São Paulo, Bahia, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Rio Grande do Sul e Santa Catarina. O relatório, produzido a pedido do Estadão, reúne percepções de grupos focais sobre o governador e tem caráter analítico, sem rigor científico.
Esse tipo de pesquisa tem o objetivo de compreender, a partir de entrevistas, questões subjetivas, como atitudes, percepções, opiniões e formas de pensar. É diferente da pesquisa quantitativa, que se apoia em dados objetivos, a exemplos de números e estatísticas.
"Em todos os grupos que realizamos em São Paulo, há um contraste evidente entre a avaliação da gestão de Tarcísio e sua imagem pública. Existe um literal descolamento. Parece que a culpa de fragilidades na gestão não recai sobre ele, numa espécie de blindagem de imagem."
Segundo Dorgan, quando o foco é o governo estadual, e não diretamente o governador, os eleitores não têm dificuldade em apontar insatisfações, e críticas recorrentes aparecem em diferentes áreas da gestão. Na segurança, apesar da aprovação à política "linha-dura" do secretário de Segurança Pública, Guilherme Derrite (PP), as mortes de agentes e as denúncias de violência policial têm abalado a confiança da população, que também relata sensação crescente de insegurança.
Na educação, famílias frequentemente classificam a rede estadual como "fraca" e citam problemas estruturais nas escolas e professores desmotivados. Já no transporte, as queixas se concentram na região da Grande São Paulo, com ênfase na superlotação do metrô e da CPTM.
A privatização da Sabesp, que foi uma das promessas de campanha de Tarcísio, divide opiniões. Os mais pobres e que moram em casas são os mais críticos, enquanto a classe média e os moradores de apartamentos demonstram menor resistência. Nas pesquisas qualitativas realizadas na Grande São Paulo, é comum a percepção de que o serviço piorou e os cortes noturnos e conta de água aumentaram.
"Embora a privatização da Sabesp ainda não seja um tema que enfraqueça a imagem do Tarcísio, pode virar um ponto de desconstrução, especialmente se a oposição conseguir explorar exemplos concretos de aumento de tarifas ou queda de qualidade", diz Dorgan.
Ainda na avaliação do CEO do Travessia, em cidades do interior e do ABC prevalece a percepção de que Tarcísio prioriza a capital e não tem impactado a vida dos moradores dessas regiões.
"Isso reforça uma impressão de 'governador distante', mas que, em linha com a separação entre imagem e gestão que mostramos, não se transforma em rejeição pessoal. O efeito é mais de um 'não sei o que ele faz aqui, mas parece que vai bem'", explica o cientista político.
Apesar das dificuldades no próprio quintal, as pesquisas em São Paulo e em outros Estados indicam que Tarcísio é visto como um político que escapa da polarização entre Lula e Bolsonaro, tornando-se um nome competitivo para enfrentar Lula em 2026.
"Com Tarcísio, a disputa deixa de ser esquerda contra direita e passa a girar em torno da aprovação ou desaprovação de Lula — algo parecido com o posicionamento do PSDB entre 1994 e 2014. As qualitativas indicam que ele consegue atrair tanto parte do eleitorado que classifica o governo Lula como regular quanto o que se identifica com Bolsonaro, para quem aparece como herdeiro natural", avalia Dorgan.