Reajuste do Bolsa Família fideliza eleitor mais do que vira voto, dizem analistas
Especialistas indicam que ação do governo Lula pode ter mais impacto sobre as possíveis abstenções
O reajuste de 15% no Bolsa Família a dias do primeiro turno visa mais fidelizar a base aliada de Lula e combater a abstenção eleitoral do que virar votos, segundo analistas políticos. Para especialistas, embora a medida possa atrair indecisos e eleitores sem apoio consolidado à oposição, o maior impacto prático é entusiasmar as camadas mais pobres que já apoiam o governo a comparecerem às urnas, estratégia com efeito psicológico e prático semelhante à adotada com o Auxílio Emergencial em 2022.
A 16 dias do primeiro turno das eleições, o reajuste de 15% no valor da parcela do Bolsa Família anunciado ontem pelo governo federal tende a ter mais efeito na fidelização do eleitorado que já apoia Luiz Inácio Lula da Silva (PT) do que na conquista de novos votos para o atual presidente, dizem analistas ouvidos pelo Broadcast Político. Com isso, o PT estaria mirando muito mais combater a abstenção no pleito do que, necessariamente, virar votos.
Para o cientista político Antonio Lavareda, a medida deve ter efeitos em duas frentes, sendo a principal delas "entusiasmar" a base para combater a abstenção. "Mas a medida desperta entusiasmo, não necessariamente 'compra' comparecimento", salienta.
Em outra frente, Lavareda pontua que o reajuste no benefício pode sim virar alguns votos em favor do atual presidente que hoje foram capturados por Flávio Bolsonaro. "Mas daquele eleitor que ainda está 'soft', ou seja, sem um apoio efetivamente consolidado ao filho do ex-presidente Jair Bolsonaro", detalha. "Uma terceira função é atrair os beneficiários que ainda se mantêm indecisos ou pretendem votar branco ou nulo", complementa o cientista político, que também é presidente de honra da Associação Brasileira de Pesquisadores Eleitorais (Abrapel).
O cientista político e professor de comunicação política da Universidade Presbiteriana Mackenzie Roberto Gondo reconhece que o reajuste do Bolsa Família era uma das alternativas que o governo tinha à mão para alavancar a popularidade. Para ele, porém, o efeito maior será o de fidelizar um segmento do eleitorado que já tenderia a votar no PT.
"Pode sim reverter votos, mas não numa escala suficiente pra você trazer eleitores indecisos. As pesquisas vêm apontando para a quantidade dos indecisos mais presente na classe média, que não é beneficiada diretamente por esse reajuste. Predominantemente, o público assistido já é um público relativamente fiel ao atual presidente", destaca.
Assim, o efeito, segundo Gondo, passa justamente por diminuir a abstenção daquele eleitor que invariavelmente já votaria em Lula e no PT. "A intenção foi deixar claro que esses reajustes estão acontecendo e podem vir mais na virada do ano. É para mostrar [ao eleitor] que não tem porque mudar [o presidente], acho que essa é a sacada", diz. "A mensagem que vai ser passada daqui para frente é para que as pessoas não desistam de votar", reforça.
Em relação à fidelização desse eleitor que provavelmente já tenderia a votar no PT, o professor do Centro de Estudos de Administração Pública e Governo da Fundação Getúlio Vargas, Marco Antônio Carvalho Teixeira concorda que o reajuste do Bolsa Família é, de fato, uma estratégia importante. "Você pode ver que mesmo com o problema recente do STF, não há muita movimentação de uma candidatura para outra [nas pesquisas de intenção de voto]. E a fidelização com política pública, na medida em que a vida das pessoas melhora imediatamente, aumenta, digamos assim, essa relação", pontua.
Teixeira, ainda lembra que, por mais que o valor do reajuste seja relativamente baixo, o efeito na cabeça do eleitor é concreto, haja visto o que aconteceu nas eleições de 2022. "O ex-presidente Jair Bolsonaro fez o mesmo com o Auxílio Emergencial e teve efeito eleitoral para ele. Ele foi melhorando, sobretudo nessa camada social mais pobre, a tempo de ter quase que se viabilizado à véspera do processo", lembra.
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