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Política

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O dinheiro 'amarradinho' de Cezinha de Madureira e as mensagens do troca-troca de emendas em SP

Promotores encontraram indícios de prática de emendas cruzadas para encobrir possível 'cash back' dos parlamentares; citados repudiam suspeita e negam irregularidades

18 set 2026 - 17h41
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Resumo
Investigações do Gaeco enviadas ao STF revelam um esquema de emendas cruzadas entre o deputado Cezinha de Madureira e vereadores de SP para encobrir fraudes e desviar recursos municipais. Mensagens do empresário Antonio Cerqueira mostram negociações com vereadores e membros da gestão municipal, citando o prefeito Ricardo Nunes para liberar verbas da Cultura e Saúde. Os parlamentares e o prefeito negam as irregularidades, enquanto o deputado também é alvo da PF por tráfico de influência.

Emendas cruzadas em que um vereador manda recurso para um destino desejado por um deputado e o deputado envia para o lugar escolhido pelo vereador para encobrir possíveis fraudes. Foi assim, segundo o Ministério Público de São Paulo, que uma emenda do deputado federal Cezinha de Madureira (PL-SP) deslocou toda a investigação sobre o caso das emendas em São Paulo para as mãos do Supremo Tribunal Federal (STF).

Tudo foi descrito no documento sigiloso de 89 páginas do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) encaminhado pelo Ministério Público de São Paulo à Procuradoria Geral da República (PGR) sobre o dinheiro desviado dos cofres da Prefeitura de São Paulo. Foram as conversas do empresário Antonio Cerqueira Junior que levaram os promotores à descoberta do imbróglio.

A reportagem procurou o deputado por meio de seu gabinete e seus assessores, mas não obteve resposta. Também procurou o empresário Cerqueira Junior nos endereços de seus imóveis e de suas empresas, mas também não obteve resposta. O deputado foi alvo, na segunda-feira, 14, de uma operação da Polícia Federal (PF) sob a suspeita de tráfico de influência em tribunais superiores.

A descoberta de Cezinha de Madureira aconteceu por meio de uma troca de mensagens entre o empresário e o vereador Marcelo Messias (MDB). Cerqueira Junior questionou o parlamentar se ele conhecia alguém que seria capaz de "trocar emendas", ou seja, um vereador que topasse enviar uma emenda em contrapartida de uma emenda federal.

O empresário explicou que o deputado não poderia enviar diretamente o recurso para as secretarias municipais da Cultura ou de Esportes, uma vez que a verba deveria ser direcionada à Saúde. Assim, o deputado mandaria o dinheiro federal para a pasta da Saúde e, em troca, o vereador enviaria recursos para Cultura ou para eventos esportivos. Procurado, Messias afirma que as mensagens são inverídicas.

O relatório do Gaeco mostrou que, de fato, Cerqueira Junior viabilizou o recebimento de R$ 3 milhões do deputado federal pouco tempo depois de uma conversa com outro vereador do MDB: João Jorge. O Gaeco obteve ainda mensagens de uma assessora do parlamentar nas quais o empresário conta que o deputado iria enviar mais R$ 1 milhão para ser usado em shows e espetáculos. A reportagem procurou João Jorge. Ele disse que jamais cobrou "percentual, vantagem ou qualquer contrapartida por emenda".

Secretário 'filho da mãe' é criticado por empresário por se negar entrar no esquema

Durante as conversas de Cerqueira Junior, uma assessora parlamentar criticou o empresário Alê Youssef, então secretário da Cultura, porque ele não aceitava entrar no esquema e era um "filho da mãe". No mesmo dia, Cerqueira Filho conversou com o vereador Marcelo Messias sobre a troca de emendas. E tratou com pelo menos duas funcionárias da Secretaria Municipal da Cultura sobre a destinação delas, seus valores, suas aprovações e as liberações, bem como sobre a participação de outros vereadores no esquema.

Cerqueira Junior disse a uma delas que os recursos já estavam "amarradinhos" para "não dar ruim depois". Foi neste momento que entrou na conversa Diogo Batista Soares, então secretário executivo da Secretaria de Governo da Prefeitura de São Paulo e atual secretário de Habitação do Município.

Cerqueira Junior disse a Diogo que o deputado havia perguntado se tudo havia dado certo e ia marcar um café com ele depois de conversar com "RN". Segundo os promotores, RN seria uma referência ao prefeito Ricardo Nunes, de quem Diogo era assessor. Dias depois, Diogo afirmou que precisariam de um vereador para a troca de emendas. Cerqueira Junior respondeu: "É meu dia de sorte".

Em seguida, o empresário avisou o deputado Cezinha que já havia acertado com o vereador João Jorge a troca das emendas. E, logo em seguida, pediu a Diogo que agilizasse a liberação da verba. Três dias depois, o empresário cobrou Diogo, dizendo que Cezinha de Madureira queria saber da verba.

Diogo afirmou, então, segundo os promotores, que estava tudo "liberado na Secretaria da Fazenda". Uma série de diálogos entre Diogo e o empresário se sucedem até que o primeiro diz que conversou com a então Secretária de Cultura, Aline Torres. Na sequência, a secretária pergunta a Diogo "se era para fazer", tendo o assessor de Nunes respondido que "sim".

Procurada, Aline disse não se lembrar de todas as liberações de emendas feitas quando estava a frente da Pasta. Nunes e o secretário municipal negaram as acusações. "O prefeito Ricardo Nunes jamais recebeu, direta ou indiretamente, qualquer valor proveniente de contratos, convênios, emendas parlamentares ou de entidades que mantenham relação com o poder público", afirmou a assessoria por meio de nota.

Estadão
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