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Política

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Quem ganha e quem perde com o tarifaço de Trump? Especialistas analisam cenário eleitoral

Nova tarifa dos Estados Unidos acirrou a tensão diplomática entre os dois países e levou o tema para o centro da corrida ao Planalto

17 jul 2026 - 04h58
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Secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio culpa Lula por novo tarifaço: ‘Colocou seu ego à frente’:

O novo tarifaço de Donald Trump de 25% sobre produtos brasileiros ampliou a tensão diplomática entre Brasil e Estados Unidos e colocou a política externa no centro da campanha presidencial. O episódio ganhou novos contornos após o secretário de Estado americano, Marco Rubio, afirmar, em publicação na rede X, que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) não negociou "de boa-fé" e priorizou interesses políticos, declaração que especialistas ouvidos pelo Terra classificam como um sinal explícito de interferência no debate eleitoral brasileiro.

Em resposta, o governo brasileiro repudiou a medida d afirmou que ela não possui justificativa econômica. Em nota, destacou que os Estados Unidos acumulam superávit de US$ 424,5 bilhões na relação comercial com o Brasil nos últimos 15 anos, informou que manteve negociações "ininterruptas" com o Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR) e atribuiu o desfecho à "ativa colaboração da família Bolsonaro", que, segundo o Planalto, teria atuado por interesses eleitorais.

Flávio Bolsonaro e Trump na Casa Branca em maio deste ano
Flávio Bolsonaro e Trump na Casa Branca em maio deste ano
Foto: Reprodução/Instagram

Interferência política

Para Fernanda Brandão, doutora em Relações Internacionais e coordenadora do curso de Relações Internacionais da Faculdade Presbiteriana Mackenzie Rio, a manifestação de Rubio reforça que a discussão deixou de ser apenas comercial e passou a ter um componente político: "A publicação de Marco Rubio alimenta uma narrativa particular sobre a aplicação das tarifas."

Segundo ela, o Brasil recusou propostas apresentadas por Washington por considerar que reproduziam acordos assimétricos firmados anteriormente com outros países em desenvolvimento, nos quais os Estados Unidos preservam vantagens comerciais e ampliam sua influência sobre setores estratégicos.

"Os acordos negociados com países como Malásia, Camboja e El Salvador, entre outros, oferecem termos assimétricos que beneficiam os Estados Unidos, mas mantêm tarifas mais elevadas sobre os bens desses países. Além disso, incluem dispositivos sobre a liberação de investimentos americanos em setores estratégicos, como minerais críticos e energia, e estabelecem uma série de demandas técnicas e regulatórias que implicam, no fim das contas, em dificuldade de acesso a bens oriundos desses países ao mercado americano", explica.

Na avaliação da especialista, a declaração do secretário de Estado rompe com uma tradição diplomática de manter certa distância das disputas eleitorais internas de outros países. Ela explica que governos costumam preservar o relacionamento institucional independentemente do vencedor das eleições.

Fernanda afirma que a medida também deve ser analisada dentro da disputa geopolítica entre Estados Unidos e China pela influência na América Latina. Como o Brasil resiste às condições comerciais defendidas por Washington, diz ela, cresce o interesse americano em fortalecer um governo mais alinhado aos seus objetivos estratégicos.

"Nesse cenário, a afirmação das autoridades americanas pode ser entendida como uma forma de ingerência externa, uma vez que há interesse dos EUA de que um candidato mais inclinado a aceitar os termos impostos pelos EUA seja eleito, facilitando a reafirmação da influência americano sobre a América do Sul e, sobretudo, o Brasil, que é uma das maiores economia do continente", avalia.

Quem ganha politicamente?

O economista Jorge Ferreira dos Santos Filho, professor de Administração da ESPM, afirma que a fala de Marco Rubio alterou o significado político da discussão. Até então, segundo ele, o governo americano ainda sustentava o tarifaço em argumentos técnicos relacionados a comércio digital, propriedade intelectual, etanol e outros temas comerciais. A declaração pública do secretário de Estado, porém, deslocou o foco para a figura do presidente Lula.

Na avaliação do economista, isso fortalece dois discursos opostos. A oposição tende a explorar a ideia de que a política externa do governo provocou prejuízos econômicos ao País, enquanto o Palácio do Planalto deve apresentar a tarifa como uma tentativa de interferência estrangeira nas eleições brasileiras.

Apesar disso, ele afirma que ainda não é possível dizer quem sai eleitoralmente beneficiado. "Não existe um benefício eleitoral automático. O resultado depende de quem conseguir definir o significado dominante desse episódio."

Segundo Jorge, a disputa será menos econômica e mais narrativa. O governo deverá reforçar o discurso de defesa da soberania nacional e denunciar uma tentativa de interferência dos Estados Unidos no processo eleitoral. Já a oposição deve insistir que o desgaste decorre da condução da política externa e defender que uma mudança de governo facilitaria a retomada das relações comerciais com Washington.

Economia pesa mais do que narrativa

Fernanda Brandão ressalta que, historicamente, temas de política externa raramente decidiram eleições brasileiras. Ainda assim, avalia que o atual cenário internacional aumentou a relevância desse debate.

"Certamente os efeitos econômicos devem ter um impacto maior do que as narrativas, mas elas também importam, pois o eleitor vai punir aquele ator que entender ser o principal responsável pelos efeitos deletérios na economia nacional."

Jorge faz avaliação semelhante. Segundo ele, embora alguns segmentos possam sofrer perdas relevantes, o impacto agregado sobre a economia tende a ser menor do que o sugerido pelo debate político. Ele lembra que a lista de exceções ao tarifaço preservou parte importante das exportações brasileiras, reduzindo os efeitos sobre o Produto Interno Bruto (PIB). "Você tem muito mais uma disputa narrativa inflada do que propriamente um impacto na economia brasileira como um todo."

Há espaço para negociação?

Os dois especialistas avaliam que ainda existem possibilidades de reduzir os efeitos da medida. Fernanda afirma que o Itamaraty deve manter os canais diplomáticos abertos, enquanto o Brasil busca ampliar acordos comerciais com outros parceiros, como Japão, União Europeia e países da EFTA (Associação Europeia de Livre Comércio). "A maior resiliência da economia nacional frente à disputa geopolítica global passa pela diversificação dos seus parceiros econômicos", diz ela. 

Jorge também considera improvável que a decisão americana seja definitiva. Para ele, a ampliação da lista de produtos isentos mostra que Washington responde às pressões de setores econômicos internos. Segundo o economista, caso empresas americanas sejam prejudicadas pelo aumento das tarifas, o governo Trump poderá ser pressionado a flexibilizar novamente a medida.

Fonte: Portal Terra
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