PT cobra explicações de Flávio por ligações com Vorcaro, mas se cala a respeito de Wagner
Diretório Nacional diz que governo Lula assegurou autonomia da Polícia Federal, chama senador e Eduardo de 'vendilhões da Pátria' e, mesmo sem citar briga com Michelle, aposta na ampliação do desgaste do bolsonarismo com público feminino
BRASÍLIA - O comando do PT cobrou nesta sexta-feira, 3, explicações do senador Flávio Bolsonaro, candidato do PL à Presidência, sobre suas ligações com o dono do Banco Master, Daniel Vorcaro, mas se calou a respeito do escândalo envolvendo o ex-líder do governo no Senado, Jaques Wagner.
A estratégia para alavancar a campanha do presidente Luiz Inácio Lula da Silva ao quarto mandato foi discutida durante reunião do Diretório Nacional do partido, em Brasília. A portas fechadas, dirigentes do PT avaliaram que a briga entre a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro e Flávio é assunto que, por si só, tem potencial para destruir o senador. Oficialmente, a cúpula do partido não entrará nessa discussão, mas tem interesse em associar Flávio a Vorcaro para desgastá-lo.
Sem citar diretamente o financiamento do filme Dark Horse, a resolução política aprovada pelo Diretório Nacional do PT afirma que as operações entre o senador e o banqueiro preso evidenciam a "promiscuidade entre interesses privados, poder político e setores do sistema financeiro" no período bolsonarista.
"Até hoje, Flávio Bolsonaro não apresentou explicações convincentes sobre o destino dos milhões de reais solicitados a Daniel Vorcaro nem sobre as operações financeiras que cercam essa relação", destaca o documento.
Em maio, uma reportagem do site The Intercept Brasil mostrou que Flávio enviou áudios e mensagens para Vorcaro pedindo dinheiro para financiar o filme Dark Horse, que conta a trajetória do ex-presidente Jair Bolsonaro. O dono do Master já havia se comprometido com Flávio a repassar ao filme a quantia de US$ 24 milhões - total equivalente a R$ 134 milhões.
A Polícia Federal passou a investigar o caso. Um mês depois, no entanto, o senador Jaques Wagner (PT-BA), então líder do governo, virou alvo da Operação Compliance Zero. Foi acusado de receber propina do Master ao ganhar um apartamento avaliado em R$ 2,5 milhões, em Salvador, do empresário Augusto Lima, ex-sócio de Vorcaro.
Além disso, investigações da Polícia Federal descobriram repasses de R$ 3,5 milhões, por parte de Lima, a uma empresa de seu enteado e de sua nora. No quarto de hotel ocupado por Wagner, em Brasília, a PF encontrou dinheiro em espécie - notas de US$ 55 mil e 33 mil euros -, ao lado de 13 relógios. O senador afirmou que o dinheiro era fruto de diárias pagas a ele pelo Senado para viagens internacionais.
À época, o PT pressionou Wagner para que deixasse o governo, o que acabou ocorrendo em 24 de junho, seis dias após a eclosão do escândalo. Na resolução que recebeu sinal verde do partido, porém, o tóxico Banco Master só atinge Flávio.
"Enquanto o Governo Lula fortalece as instituições de controle, assegura autonomia à Polícia Federal e reafirma o compromisso com a transparência e o interesse público, seus adversários permanecem associados a um modelo em que negócios obscuros, privilégios e a captura do Estado por interesses particulares caminham lado a lado", diz o texto do PT.
Embora a resolução não mencione Michelle Bolsonaro, que disse ter sido humilhada por Flávio, o assunto fica nas entrelinhas. Monitoramentos de redes sociais que chegaram ao PT mostram que o senador tem perdido cada vez mais votos do público feminino.
"A recente declaração de Paulo Figueiredo, ao afirmar que "mulher vota mal", sintetiza uma concepção que pretende desqualificar a participação política feminina e restringir a presença das mulheres nos espaços de decisão", destaca um dos trechos da resolução. "Essa lógica dialoga com movimentos ultraconservadores internacionais que buscam retirar direitos, atacar políticas de igualdade e reafirmar papéis sociais subordinados para as mulheres".
Flávio só reagiu aos ataques de Figueiredo com seis dias de atraso, durante um encontro fechado com mulheres. Na tentativa de reparar o erro, o senador voltou ao tema nesta sexta-feira ao dizer que a "mulherada" manda em casa e no Brasil. O PT aproveitou a deixa para marcar posição.
"Os ataques recentes promovidos pela extrema direita às mulheres revelam uma das faces mais perversas de seu projeto político. Não se trata de episódios isolados ou declarações infelizes, mas de uma visão de mundo profundamente autoritária, patriarcal e excludente", assinala a resolução.
Documento cita 22 vezes a palavra soberania
Com 50 tópicos, o documento que passou pelo crivo do PT também cita 22 vezes a palavra soberania, e vincula articulações de Flávio e de seu irmão Eduardo nos Estados Unidos a um projeto político definido como "entreguista" para sacrificar empregos e empresas brasileiras em benefício de seus próprios interesses.
"Trata-se de uma postura de vendilhões da pátria, que afronta a história do povo brasileiro e tenta transformar o Brasil em quintal norte americano", afirma o texto do PT.
A questão da soberania nacional, após as ameaças do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump - do tarifaço sobre produtos brasileiros a mudanças no PIX - será um dos temas centrais da campanha de Lula ao quarto mandato.
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