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Eleição: PSL pagou R$ 1,2 mi a gráfica de dirigente da sigla

Gustavo Bebianno era o presidente do partido durante as eleições 2018 e responsável pela liberação de recursos

14 fev 2019
07h52
atualizado às 09h24
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Sete candidatos do PSL a deputado estadual e federal em Pernambuco repassaram R$ 1,2 milhão em recursos de campanha para a empresa de um dirigente do partido no Estado. Apesar do valor declarado com impressão de materiais gráficos, o triplo do que foi gasto pelo presidente Jair Bolsonaro com o serviço, só um dos políticos foi eleito: o próprio presidente nacional do PSL, o deputado federal Luciano Bivar.

À época, quem estava à frente do partido era Gustavo Bebianno, atual ministro da Secretaria-Geral da Presidência da República do governo Jair Bolsonaro. Bebianno vem protagonizando uma crise no governo em função das suspeitas de desvios de recursos do Fundo Partidário destinados ao PSL por meio de candidaturas laranjas em 2018. Na quarta, ele disse que não pretende pedir demissão.

A empresa favorecida pelos contratos em Pernambuco foi a Vidal Assessoria e Gráfica Ltda., de Luis Alfredo Vidal, que é vogal (dirigente com direito a voto) do PSL de Pernambuco. A sócia dele, Josiane Maria da Silva, também já foi filiada ao partido de Bolsonaro. Aberta em 2011, a empresa fica em um pequeno imóvel em Amaraji, cidade na Zona da Mata pernambucana a 98 km de distância da capital Recife.

Luciano Bivar, presidente do PSL
Luciano Bivar, presidente do PSL
Foto: Valter Campanato/Agencia Brasil / Estadão Conteúdo

Embora não seja vedada pela Lei Eleitoral, a contratação de empresas de dirigentes políticos com recursos do fundo partidário já foi criticada pela ministra Rosa Weber, atual presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). "À luz do princípio da moralidade, não há como admitir que sejam contratadas para prestar serviços ao partido empresas pertencentes a dirigentes dele", declarou ela no voto em desapovou parcialmente as contas de 2012 do DEM no ano passado.

Todos os candidatos que contrataram a gráfica de Vidal receberam recursos do fundo especial de financiamento de campanha, que reservou R$ 1,7 bilhão de recursos públicos para financiar candidaturas em todo o País nas eleições de 2018. Bivar foi quem mais recebeu verbas do fundo eleitoral do PSL (R$ 1,8 milhão) e também quem mais gastou na empresa de Vidal - R$ 848 mil, segundo os dados de sua prestação de contas ao TSE.

Foram R$ 215 mil contratados nos últimos quatro dias de campanha oficial, em outubro. Ao todo, Bivar declarou ter pago na empresa do correligionário material gráfico para outros 18 candidatos a deputado estadual. Só para Gilson Muniz teriam sido 200 mil santinhos e 6 mil adesivos. Ele teve apenas 2.463 votos na disputa por uma cadeira na Assembleia Legislativa de Pernambuco.

Os valores destinados por candidatos do PSL à empresa do dirigente partidário são próximos aos recursos que receberan do fundo especial - dinheiro público. A candidata a deputada estadual Érika Siqueira, por exemplo, gastou com Vidal R$ 233 mil dos R$ 250 mil que recebeu do partido para sua campanha, o sexto maior repasse do PSL a candidatos (Bolsonaro recebeu R$ 269 mil).

Todos os repasses de Érika à Vidal foram feitos entre 25 de setembro a 4 de outubro, a poucos dias das eleições, para a produção de material de campanha. Érika obteve 1.315 votos e não conseguiu ser eleita. O segundo maior repasse feito pela campanha dela foi para Juliane Mirella de Carvalho Gonçalves, proprietária de outra gráfica, no valor de R$ 56.500.

Já o candidato a deputado federal Major Pedro Mendes, que teve 14.964 votos e também não se elegeu, declarou ter gasto com Vidal mais do que recebeu do partido. Foram R$ 54,9 mil pagos em santinhos e adesivos diante de uma receita de R$ 30 mil via repasse do fundo especial de campanha, o que resultou em uma dívida de R$ 24,9 mil após a eleição.

Até o vice-presidente do PSL de Pernambuco, Silvio Nascimento, gastou R$ 25 mil com a empresa do colega de diretório. Nascimento teve 100% da sua campanha a deputado estadual financiada com repasse direto da verba do fundo eleitoral da legenda (R$ 39 mil) ou por meio de doação da campanha de Luciano Bivar (R$ 122,5 mil). Ele também não se elegeu. Os outros candidatos do PSL que repassaram dinheiro à Vidal foram os candidatos Thiago Paes (deputado estadual), Frederico França (deputado federal) e Fred Teixeira (deputado federal). Nenhum foi eleito.

Bolsonaro

Em sua página do Facebook, que foi apagada na quarta-feira, Vidal aparecia em diversas fotos ao lado de Jair Bolsonaro na casa do presidente, na Barra da Tijuca, zona oeste do Rio. Em outras imagens, o dirigente do PSL pernambucano aparece em Brasília ao lado do senador Flávio e do deputado federal Eduardo Bolsonaro, filhos do presidente.

No site da empresa, que também funciona como consultoria de crédito consignado, ela apresentava o PSL entre os seus maiores clientes até a tarde de ontem, quando esses dados foram retirados do ar. Na capa da página, há imagens de seis outdoors e cartazes de Jair Bolsonaro. Não constam candidatos de outros partidos. Segundo o site do TSE, a empresa recebeu encomendas de dez candidatos nas últimas eleições, sendo sete de políticos do PSL.

Na tarde de quarta-feira, quando o Estado esteve no local, apenas dois funcionários trabalhavam no estabelecimento, que continha equipamentos gráficos de pequenos porte e adesivos de campanha de Luciano Bivar afixados nas paredes. Uma empregada encarregada da recepção disse que as informações sobre a atuação da empresa na campanha eleitoral só podiam ser repassadas por um dos sócios do negócio, Luis Vidal.

Além de oferecer serviços de banners, faixas e adesivos, a Vidal também oferece crédito pessoal. No cartão da empresa entregue à reportagem, Luis Vidal se apresenta como correspondente autorizado de seis instituições financeiras. Três comerciantes que trabalham na mesma rua contaram que a empresa existe no mesmo local há alguns anos, mas que antes a fachada era voltada apenas para o serviço de empréstimo. Eles disseram que ela passou por reformas há pouco tempo, mas não souberam precisar há quantos meses houve a mudança.

Outro lado

O Estado entrou em contato com a Vidal Assessoria Gráfica, fisicamente e por telefone. Funcionários orientaram a reportagem a ligar para o celular de Luís Vidal. O vogal do PSL e empresário não atendeu às ligações do Estado, nem respondeu mensagem no Whatsapp. A assessoria de imprensa do PSL de Pernambuco não respondeu o email do Estado sobre os motivos da escolha da empresa, assim como a assessoria da Presidência da República. A assessoria de Bivar respondeu apenas que "todas as contas do partido foram aprovadas sem ressalvas pelo TSE e que não há nenhuma ilicitude". O Estado não localizou Érika.

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Estadão

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