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Política

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Caso Michelle move rota de campanha, põe esposa de Flávio no aquecimento e reduz forças no PL Mulher

Fernanda Bolsonaro deverá passar por media training e ter equipe própria de redes sociais, enquanto lideranças femininas temem que renúncia de ex-primeira-dama do setorial impacte escolha de candidatas mulheres nas convenções

5 jul 2026 - 11h17
(atualizado às 11h31)
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BRASÍLIA — Na medida em que a crise causada pelo vídeo de Michelle Bolsonaro, lançado na semana passada, decanta, mudanças e novos desdobramentos são esperados na campanha de Flávio Bolsonaro (PL-RJ) à Presidência da República e no próprio PL Mulher.

Com o marido acusado pela madrasta de "maltratá-la, humilhá-la e desrespeitá-la", Fernanda Bolsonaro deve ocupar um papel mais central na campanha presidencial. Ela passará por media training ao longo deste mês e pode ter sua própria equipe de redes sociais, segundo integrantes da pré-campanha.

Especializada em ortodontia e ortopedia facial, Fernanda deve focar no tema da saúde e direcionar o discurso para mulheres, com ajuda da economista Daniella Marques. A ex-presidente da Caixa Econômica Federal no governo Bolsonaro vem ganhando proeminência na pré-campanha de Flávio e coordena as propostas da pré-campanha voltadas às mulheres.

A entrada de Fernanda em cena já era esperada durante a campanha eleitoral, mas ganhou urgência. Aliados de Flávio querem blindar a imagem do senador do desgaste potencialmente provocado pelas críticas de Michelle.

Na quarta-feira passada, 1º, uma semana após a divulgação do vídeo da madrasta, Flávio organizou um encontro com lideranças femininas em Brasília. A esposa dentista se apresentou às participantes como uma mulher tradicional:

"Estamos há 16 anos juntos. Sou esposa, mãe e dona de casa, como todas vocês que estão aqui", declarou, num momento em que o senador tenta se mostrar um candidato mais palatável ao eleitorado feminino.

Flávio aproveitou os holofotes e o público do evento para dizer que repudia as falas do comunicador Paulo Figueiredo, aliado e braço-direita de seu irmão Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos, que disse que mulheres votam mal, em especial as solteiras, que não têm maridos para influenciá-las positivamente.

"Eu queria repudiar veementemente a fala do Paulo Figueiredo sobre as mulheres. Ele está completamente equivocado, e não faz parte da minha campanha", declarou no começo do encontro. A cena foi divulgada nas redes sociais de aliados, inclusive de Fernanda.

Flávio disse que Figueiredo é um aliado que tem ajudado o bolsonarismo dos Estados Unidos, e que por isso as pessoas tentam "colocar no seu colo" as declarações dele. O comentário de Figueiredo foi feito no dia 25 de junho, e o senador levou mais de uma semana para se manifestar.

Além de Flávio, outras lideranças discursaram, de senadoras e deputadas federais até vereadores de diversas cidades. O líder do evento ouviu de elogios pessoais até propostas para políticas públicas.

"Nós temos o candidato mais bonito, mais jovem", afirmou a deputada federal Júlia Zanatta (PL-SC), antes de defender que Flávio, se eleito, promova políticas de armamento e combate à violência doméstica. "A polícia não pode estar em todos os lugares e as mulheres precisam se defender".

Integrantes da equipe de Flávio querem dobrar os esforços direcionados às mulheres, direcionando a rota da campanha para essa direção. A escolha de uma vice cairia como uma luva nesses planos; até agora, todas as cotadas são mulheres (Júlia Zanatta, Tereza Cristina, Simone Marquetto, Clarissa Tércio, Daniella Marques).

Michelle Bolsonaro fica no PL e avalia candidatura ao Senado

Na terça-feira, 30, antes do evento, Michelle teve uma conversa de duas horas com o presidente do PL, Valdemar Costa Neto, momento em que ela decidiu renunciar ao cargo de presidente do PL Mulher, setorial feminino da sigla.

Na mesma noite, ela se reuniu com duas de suas principais aliadas, a senadora Damares Alves (Republicanos-DF) e a governadora do Distrito Federal, Celina Leão (PP), que demoveram-na da ideia de se desfiliar do PL, segundo relatos de pessoas próximas.

Um dos argumentos usados por Damares e Celina foi que Michelle, com bom desempenho nas pesquisas eleitorais, tem uma vitória quase assegurada para o Senado. Uma das oportunidades para a ex-primeira-dama é que Mara Gabrili (PSD-SP) e Paulo Paim (PT-RS), dois senadores que mais encampam as pautas dos direitos das pessoas com deficiência — a principal bandeira de Michelle —, não vão tentar a reeleição, o que deixa caminho aberto a ela.

Michelle deve decidir se vai se candidatar ao Senado até o período das convenções partidárias, que começa em 20 de julho. Trata-se da janela em que os partidos oficializam os candidatos que vão de fato disputas as eleições.

Damares e Celina devem tentar uma última cartada quando o prazo se aproximar. Até lá, querem deixar a poeira baixar e preservar a ex-primeira-dama do assunto.

Lideranças do PL Mulher temem descarte de candidaturas femininas

A saída de Michelle do PL Mulher pode ter implicações práticas para as candidatas do PL, avaliam dirigentes estaduais do setorial — que, por enquanto estão mantidas, mesmo sem um comando nacional.

Isso porque a ex-primeira-dama tinha autoridade para pressionar os presidentes estaduais do PL, que de fato detêm o poder sobre as candidaturas, para que as lideranças femininas fossem escolhidas. Nas eleições municipais de 2024, Michelle deu aval às chapas de mulheres por todo o Brasil.

O temor de suas aliadas, segundo relatos feitos ao Estadão sob reserva, é que nem todas as presidentes estaduais do PL Mulher tenham força política para cobrar dos dirigentes homens as candidaturas que já vinham sendo alinhadas com Michelle. Se perderem a queda de braço, as lideranças femininas podem ver as candidaturas serem descartadas.

A correlação é desbalanceada em alguns Estados, uma vez que nem todas as presidentes estaduais têm um mandato que lhes dê capital político e influência. Em São Paulo (Rosana Valle), Distrito Federal (Bia Kicis), na Bahia (Roberta Roma) e no Rio de Janeiro (Chris Tonietto), as dirigentes são deputadas federais, por exemplo.

Em alguns Estados, as presidentes têm menos poder, mas ainda assim mandatos relevantes enquanto deputadas estaduais. É o caso de Santa Catarina (Ana Campagnolo) e Minas Gerais (delegada Sheila).

Já vereadoras lideram os setoriais estaduais no Paraná (Carlise Kwiatkowski), Mato Grosso (Gislaine Yamashita), Maranhão (Flávia Berthier) e Ceará (Priscila Costa).

Nos demais Estados, elas não têm sequer mandatos, o que as torna vulneráveis a pressões políticas e acordos pelas costas sem o respaldo de Michelle Bolsonaro.

Uma liderança estadual disse ao Estadão não saber com quem ficará a decisão final caso os homens e as mulheres à frente dos diretórios e dos setoriais estaduais não se entenderam, e que "Valdemar vai precisar prestigiar as candidatas escolhidas pela Michelle", para que o trabalho feito pela ex-primeira-dama não se dissolva.

Estadão
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