'Área vip' de festa da posse teve desmaios, filas de duas horas para beber água e falta de banheiro
Praça dos Três Poderes, que deveria ser o melhor local para acompanhar o evento, foi convertida em uma prova de resistência, com oferta mínima de água, banheiro e nenhuma comida para cerca de 40 mil pessoas
BRASÍLIA - Desmaios, duas horas de espera para beber água, confusão em filas, falta de banheiro e locais para vender comida. A beleza das imagens da posse do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, ao subir a rampa do Palácio do Planalto, ofuscou o verdadeiro sufoco que viveram as cerca de 40 mil pessoas que "conseguiram" entrar Praça dos Três Poderes para acompanhar o ato.
A "área vip", só alcançada por quem chegou ao local até o meio-dia do domingo, 1º de janeiro, deveria ser o lugar mais privilegiado para estar durante a cerimônia, mas se transformou em um verdadeiro teste de resistência. Havia apenas oito banheiros químicos para essa multidão, que ficou retida nesta área e não podia acessar, diretamente, a área dos shows, logo acima do Congresso Nacional, onde acontecia o Festival do Futuro.
Água foi outro item disputado, porque havia apenas poucas "bicas" de água conectadas a caixas d'água, onde as pessoas levaram suas garrafas e copos improvisados. Pessoas chegaram a furar um encanamento que encontraram na área, abrindo novas saídas de água. Alimento era outro item ausente. Enquanto uma ilha de alimentação foi montada na área do festival, onde também teve filas intermináveis, na Praça dos Três Poderes não havia nada para comer, nem forma de comprar algo.
Com o sol quente na cabeça, diversas pessoas desmaiaram e tiveram de ser socorridas por agentes do Corpo de Bombeiros. Houve diversas situações de brigas nas filas. Enquanto sobravam banheiros químicos na área dos shows, os poucos que foram instalados na praça ficaram completamente inviáveis.
A situação extrema levou muita gente a simplesmente desistir de ficar no local. "Cheguei por volta 11h30, com a intenção de ficar até o final e ver a passagem da faixa, mas não possível, porque percebi que não tinha a menor condição. O clima era muito bom, apesar da precariedade da infraestrutura. Infelizmente não aguentei e tive de sair, e fui acompanhada de muitos que fizeram a mesma coisa", diz Raquel Pavanelli, que veio de São Paulo a Brasília só para ver a posse.
A desistência de acompanhar a cerimônia na Praça dos Três Poderes também teve seu preço. Aqueles que não aguentavam mais ficar no local sem nenhuma infraestrutura e queriam ir para a área logo acima, onde acontecia o festival, foram obrigados a dar uma volta total de seis quilômetros, a pé, em volta de toda a Esplanada, porque os acessos laterais estavam fechados e vigiados por agentes do Exército e da polícia.
Durante a caminhada, muita gente desistiu e foi embora. Outras passaram mal pelo caminho.
A obstrução de todos os acessos foi realizada para garantir o controle do acesso e a segurança do evento. A revista para entrar na Praça dos Três Poderes, porém, foi falha e muitos acessaram o local sem nenhum tipo de checagem. Na parte do festival, não nenhum tipo de verificação de entrada com qualquer tipo de item.
A reclamação geral é de que, ao se preocupar muito com a segurança do evento, a organização acabou por esquecer necessidades básicas das pessoas, como alimentação, hidratação e acesso a banheiros, em uma área aberta e de pouca sombra, onde permaneceriam por várias horas, ao longo de todo o dia.
As informações sobre locais de acesso, itens proibidos de serem levados e a agenda do evento foi detalhada e publicizada sem parcimônia, mas não houve, praticamente, nenhuma divulgação dizendo às pessoas que levassem alimentos e água para beber.