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Política

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Agronegócio representa 13% do eleitorado; 71% se dizem conservadores e 2% modernos ou progressistas

Especialista avalia que o setor pode reconhecer políticas públicas favoráveis durante o governo Lula, mas que isso não se converte necessariamente em apoio político; segmento esteve com Jair Bolsonaro em 2022 e expectativa é de que repita movimento a favor de Flávio

1 out 2026 - 16h28
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Resumo
Estudo do Instituto Quaest revela que o agronegócio representa 13% do eleitorado brasileiro e exerce forte influência política para além de seu peso econômico. O segmento é majoritariamente conservador (71%), alinhando pautas produtivas a valores tradicionais, religiosos e à defesa da propriedade privada. Essa identidade comum aproxima o setor da direita e do bolsonarismo, gerando forte resistência ao PT e ao governo Lula, barreira que ultrapassa eventuais benefícios econômicos da gestão atual.

BRASÍLIA - Setor responsável pela articulação da maior e mais influente bancada do Congresso Nacional, a Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA), o agronegócio tem peso significativo também no número de eleitores. O setor representa 13% do eleitorado nacional, atrás apenas dos conservadores cristãos (27%) e das classes D e E (23%), revela o Brasil no Espelho, estudo realizado pelo Instituto Quaest a partir de mais de 10 mil entrevistados e publicado no livro de mesmo título. O porcentual supera o dobro do segmento formado por empresários, de 6%.

Além do poderio econômico envolvido (27% do PIB), os números eleitorais ajudam a explicar a influência política que o setor alcançou ao longo dos últimos anos para avançar projetos, barrar políticas públicas e até mesmo fortalecer candidaturas. Somado à organização em entidades de classe, o agronegócio é um grupo, apesar de menor que outros segmentos, capaz de estimular — para além do lobby próprio —mudanças de política pública, apontam cientistas políticos.

CEO da Quaest, autor do Brasil no Espelho e cientista político, Felipe Nunes afirma que o estudo identifica um grupo que compartilha valores e uma identidade ligada ao agro. Esse grupo inclui produtores rurais, trabalhadores e pessoas que se reconhecem nessa cultura, mesmo sem trabalhar diretamente na atividade agropecuária.

Setor do agrenegócio tende a se alinhar politicamente ao conservadorismo.
Setor do agrenegócio tende a se alinhar politicamente ao conservadorismo.
Foto: Jenne Roriz/Estadão / Estadão

"Essa identidade amplia a capacidade de influência do setor para além das questões agrícolas. Quando a defesa da produção se associa a ideias sobre propriedade, família, religião e papel do Estado, ela passa a dialogar com outros segmentos da sociedade", disse Nunes ao Estadão/Broadcast. "Os 13% não constituem uma maioria, mas podem ser uma base relevante para formar maiorias em torno de determinadas agendas", pontua Nunes.

Nunes lembra que o setor ganhou impulso no País e se tornou uma das principais atividades econômicas a partir do boom das commodities. O grupo se concentra no Centro-Oeste, no Sul e no interior do Sudeste e tende a defender posições divergentes dos moradores de áreas urbanas, aponta. Uma das divergências, segundo a pesquisa, é quanto à política armamentista: 72% dos brasileiros ouvidos pela pesquisa rejeitam a facilitação da compra e da posse de armas, enquanto no agro o porcentual é menor, de 60%.

Conservadorismo e alinhamento ideológico

Entre os eleitores identificados com o agronegócio ouvidos pelo Brasil no Espelho, 71% se dizem conservadores e apenas 2% se classificam como modernos ou progressistas. Outros 27% se classificam como moderados. De acordo com os dados do Brasil no Espelho, em termos de tradição e conservadorismo, os brasileiros do agronegócio só perdem para a extrema direita, segmento no qual 100% se considera tradicional ou conservador.

Há semelhanças de posicionamento entre o agro e os conservadores cristãos. Dos entrevistados, 36% dos identificados como do agronegócio afirmam que frequentam atividade religiosa toda semana e para 97% Deus é muito importante na sua vida.

Entre as posições compartilhadas com os conservadores cristãos estão a contrariedade à legalização da maconha (74%), a concordância com as afirmações de que o homem deve ser o provedor da casa (74%) e de que uma mulher que realiza um aborto deve ser presa (60%), bem como a visão de que o governo deveria aumentar imposto de todos para ajudar os pobres (69%), de que "programas do governo fazem as pessoas quererem trabalhar menos (74%)", que as empresas do governo devem ser privatizadas (52%). Eles concordam também na satisfação com a democracia (88%).

Nunes aponta que essa afinidade de valores entre conservadores cristãos e o agronegócio facilita a aproximação política dos grupos. Apesar de serem distintos, compartilham posições e podem formar alianças eleitorais, diz.

"A importância da família, da religião, da autoridade e da preservação das tradições cria pontos de contato entre esses segmentos. Isso favorece candidatos que conseguem apresentar a defesa do agro como parte de uma defesa mais ampla de determinado modo de vida. Essa proximidade ajuda a entender porque o voto de parte do agro permanece alinhado à direita mesmo quando há benefícios econômicos oferecidos por um governo de esquerda, explicou Nunes.

Na análise do CEO da Quaest, para o eleitor do agronegócio há interseção entre a pauta de costumes e a de negócios, que não devem ser analisadas isoladamente. "A defesa da propriedade, a liberdade para produzir e a valorização do trabalho podem fazer parte da mesma visão de mundo que orienta suas posições sobre família e religião", comentou.

Essa interseção ajuda a explicar, segundo Nunes, por que os benefícios econômicos sozinhos não explicam o voto do eleitor do agronegócio. "Medidas favoráveis ao setor podem ser reconhecidas sem que esse reconhecimento se converta em apoio eleitoral. É possível considerar uma política de crédito positiva e continuar rejeitando o projeto político do governo. Negociar com um governo e se identificar com ele são coisas diferentes", pontuou.

O agrenegócio nas urnas em 2022 e 2026

Em 2022, o agronegócio apoiou majoritariamente a reeleição do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). O apoio foi declarado publicamente por diversas entidades do agronegócio, parlamentares relevantes no setor, empresários e lideranças. O movimento se refletiu nas urnas: 27% declararam voto no presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no 2º turno do pleito, mostra o Brasil no Espelho. O setor acumulou ao longo dos últimos quatro anos no terceiro mandato de Lula um período de desgaste acentuado com o Executivo e o campo se tornou um dos maiores opositores do governo Lula.

Para Nunes, há razões para uma tendência de continuidade de resistência a Lula nesse grupo, que vai além da avaliação da política agrícola. "Existe uma identificação com a direita e uma rejeição ao PT que envolvem valores, pertencimento e visão de mundo. O eleitor também procura alguém em quem reconheça seus valores", observou.

Maioria dos eleitores vinculados ao agronegócio apoiaram Jair Bolsonaro e devem repetir movimento a favor de Flávio, mas de forma menos vocal, analisa especialista
Maioria dos eleitores vinculados ao agronegócio apoiaram Jair Bolsonaro e devem repetir movimento a favor de Flávio, mas de forma menos vocal, analisa especialista
Foto: Wilton Junior/Estadão / Estadão

Entretanto, o CEO da Quaest,pondera, que isso não significa que o porcentual vá se repetir exatamente neste ano. "Candidaturas, campanha e condições econômicas podem produzir mudanças, mas Lula enfrenta nesse segmento uma barreira que dificilmente será superada apenas com a apresentação de resultados econômicos. Ele precisa enfrentar também a percepção de que seu campo político está distante da identidade dessas pessoas", avaliou o CEO da Quaest.

Na avaliação de Nunes, Bolsonaro conseguiu reunir esses interesses e valores em uma identidade política mais explícita, oferecendo reconhecimento ao agronegócio que desejava ser valorizado. "A defesa do agro passou a se conectar de forma mais intensa ao conservadorismo e ao antipetismo. O pragmatismo nas relações com o Estado continua possível, mas passou a conviver com vínculos políticos e afetivos que tornam a mudança de voto mais difícil", analisou.

A leitura é compartilhada pelo cientista político e professor da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul Daniel Miranda. Miranda avalia que, neste pleito, o movimento deve se repetir com apoio do agro ao senador Flávio Bolsonaro (PL), embora menos vocalizado.

"Por um lado, o argumento de apoiadores de Lula é que o agro cresceu mais no governo Lula do que nos outros governos e que deveria haver inclinação do agro ao PT. Mas o agronegócio tem relativa autonomia política do ponto de vista econômico, porque sabe que vive sem dependência do governo e sim é mais dependente da política do governo chinês e do Oriente Médio, seus importadores", explicou ao Estadão/Broadcast.

Miranda cita que a bandeira ambiental é mais presente nos partidos de esquerda, enquanto no bolsonarismo prevalece o discurso anti ambientalista. "É também indissociável à associação histórica do PT com o MST, um adversário paradigmático do agronegócio, enquanto a simbologia do discurso bolsonarista é pautada pela defesa da propriedade privada", mencionou o cientista político. Ele cita ainda a defesa da meritocracia e do empreendedorismo — a ética do trabalho — e o discurso a favor da lei e da ordem que situam o agronegócio no campo conservador e contribuem para moldar as preferências partidárias dos eleitores do setor.

O professor da UFMS, que estuda a dinâmica do agronegócio sobre o comportamento eleitoral e a política regional, observa que a capacidade de mobilização e influência do agronegócio supera os 13% de alcance da sociedade. "É um setor organizado em sindicatos, associações, cooperativas, com maior capacidade de organização que movimentos como os dos trabalhadores sem terra, indígenas e ambientalistas", ponderou Miranda. Para ele, a partir de 2018, com a ascensão de Jair Bolsonaro, observa-se o "naufrágio do discurso pragmático" do agronegócio, abrindo espaço para o setor vocalizar discursos mais conservadores e para manifestações das lideranças do setor na esfera pública.

Estadão
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