Parlamentares incitam motim da PM contra governador da BA

Para o presidente do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, Renato Sérgio de Lima, o caso é "complexo" e não pode ser transformado em uma" batalha de narrativas entre bem e mal"

29 mar 2021
10h16 atualizado às 10h49
0comentários
10h16 atualizado às 10h49
Publicidade

A morte do policial militar Wesley Soares Góes, na tarde de domingo, 28, após sofrer um surto psicótico, na região do Farol da Barra, em Salvador, gerou reações nas redes sociais, impulsionadas por perfis bolsonaristas, contra o governador do baiano, Rui Costa (PT). O comportamento, somado a manifestações de PMs registradas ainda na noite de ontem em protesto pela morte do soldado, tem politizado o acontecimento e estimula um motim dos militares baianos.

A deputada Bia Kicis durante Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania
A deputada Bia Kicis durante Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania
Foto: Frederico Brasil / Futura Press

Nas redes sociais, as hashtags #Surtou e #RuiCostaGenocida estiveram entre os assuntos mais comentados do Twitter na manhã desta segunda-feira, 29. "Soldado da PM da Bahia abatido por seus companheiros. Morreu porque se recusou a prender trabalhadores. Disse não às ordens ilegais do governador Rui Costa da Bahia. Esse soldado é um herói. Agora a PM da Bahia parou. Chega de cumprir ordem ilegal!", escreveu a presidente da CCJ da Câmara, deputada Bia Kicis (PSL-DF) no Twitter. Ela foi uma das primeiras bolsonaristas a se manifestar sobre o caso. A parlamentar compartilhou um vídeo em que Wesley Góes aparece momentos antes de iniciar os disparos para o alto. Nesta manhã, diante da repercussão do comentário, a deputada apagou a postagem para "aguardar as investigações".

Assim como a parlamentar fez no domingo, bolsonaristas têm divulgado a narrativa de que o PM, que trabalhava na 72ª CIPM, teria sido abatido pelo Batalhão de Operações Policiais Especiais (Bope) após se recusar a obedecer ordens do governador do Estado. A versão contraria a apresentada pela Secretaria de Segurança Pública (SSP-BA), de que o policial foi baleado após disparar com fuzil contra guarnições do Bope. O deputado estadual Soldado Prisco (PSC), que pelas redes sociais disse que "a hora de parar é agora", convocou os militares para realizarem assembleias e manifestações nesta segunda-feira, 29.

Na avaliação do advogado criminalista Davi Tangerino, Bia Kicis comete crime ao incitar que a PM descumpra ordens do governador Rui Costa. "É espantoso que a Presidente da CCJ estimule a aplauda sublevação da polícia, minando o federalismo, agudizando a pandemia. Se não é quebra de decoro, nada mais será", comentou.

Por volta das 14h de domingo, o soldado chegou ao ponto turístico em carro próprio, fardado e armado com um fuzil, além de uma pistola. Um vídeo publicado nas redes sociais mostra que ele desce do carro, com o rosto pintado com as cores da bandeira do Brasil, e anda de um lado para o outro. Nas imagens, também é possível ouvir ele gritar: "Venham testemunhar a honra ou desonra do policial militar da Bahia". E inicia os disparos. Mais de dez.

"A Polícia Militar lamenta profundamente o episódio que ocorreu neste domingo (28), no Farol da Barra, quando todos os esforços foram feitos por um final pacífico durante um possível surto de um PM. O Batalhão de Operações Policiais Especiais adotou protocolos de segurança e o policial militar ferido foi socorrido imediatamente pelo SAMU. A corporação tomou conhecimento ainda de um vídeo do momento em que a imprensa acompanha o fato e é interpelada por um policial militar. A instituição ressalta o respeito à liberdade de expressão e ao trabalho dos jornalistas. O fato será devidamente apurado".

O presidente do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, Renato Sérgio de Lima, afirmou no Twitter que o caso de Wesley é "complexo" e não pode ser transformado em uma" batalha de narrativas entre bem e mal".

"Muito perigoso politizar um episódio tão complexo como o que envolve alguém em surto psicótico, sempre uma operação complexa. Ainda mais quando envolve alguém armado. Podemos criticar os protocolos. Não podemos transformar o caso em uma batalha de narrativas entre bem e mal", avaliou.

Reações

Ainda na noite de ontem, em Salvador, protestos foram realizados por policiais contra a morte do soldado. O deputado estadual Soldado Prisco publicou nas redes sociais sua participação em um dos atos em que aparece sugerindo que a corporação deveria "parar".

"Mataram um policial, mataram um trabalhador, porra. Até quando vocês vão aceitar isso? Mataram o policial, mataram. Vamos parar esse caralho, a hora de parar é agora, eu convoco vocês", disse. Em outro vídeo, o parlamentar bolsonarista chamou grupos de apoio ao presidente dentro da PM para iniciar manifestações, nesta segunda-feira, 29.

"Policiais militares, Salvador e região metropolitana, amanhã, às 9h, no Farol da Barra, nós vamos lá fazer uma manifestação pacífica e ordeira em nome do nosso irmão, soldado Wesley. E o interior do Estado, escolham um lugar para às 9h da manhã, todos vocês fazerem a mesma assembleia em conjunto", convocou. O deputado federal Daniel Silveira (PSL) compartilhou o vídeo do baiano.

O deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) compartilhou o mesmo vídeo e afirmou que "aos vocacionados em combater o crime, prender trabalhador é a maior punição", escreveu. "Esse sistema ditatorial vai mudar. Protestos pipocam pelo mundo e a imprensa já não consegue abafar. Estão brincando de democracia achando que o povo é otário. Que Deus conforte os familiares do PM-BA", disse o filho do presidente Jair Bolsonaro.

O deputado José Medeiros (Podemos-MT) publicou nas redes sociais uma imagem do governador Rui Costa com as mãos sujas de sangue. "Esse é governador da Bahia, do PT. Quem imaginaria que um soldado da PM baiana iria dar o brado preso na garganta dos trabalhadores brasileiros e pagaria com a vida esse ato de coragem", comentou na legenda.

A deputada Carla Zambelli (PSL-SP) também compartilhou o vídeo de Wesley. "Sinto muito a morte do PMBA. É muito difícil aguentar tanta pressão", escreveu a parlamentar no Twitter.

O presidente nacional do PTB, Roberto Jefferson, engrossou o coro de bolsonaristas que usaram as redes sociais para relacionar a morte do PM com insubordinação às ordens do governador. "Soldado Wesley Soares Góes, um patriota da Bahia que não aceitou cumprir as ordens do petista Rui Costa, foi executado. Minha homenagem a esse guerreiro brasileiro", tuitou o ex-deputado federal.

Estadão
Publicidade
Publicidade