Mortes na Chatuba podem ter sido 'presente' para chefe do tráfico
- Cirilo Junior
- Direto do Rio de Janeiro
Os traficantes que torturaram e executaram seis jovens na favela da Chatuba comemoravam o aniversário de um dos líderes do tráfico local, conhecido como Ratinho, desde a madrugada de sexta-feira. A festa, regada e drogas e muita bebida, teve um ingrediente macabro pedido por Ratinho e o chefão do bando, Remilton Moura Junior, conhecido como "Juninho Cagão". Eles queriam a "cabeça" de um PM.
O pleito foi atendido quando traficantes do bando cruzaram com o cadete da corporação Jorge Augusto de Souza Alves Junior, 34 anos, naquela noite. Ele teve a identidade descoberta e foi violentamente torturado e morto pelos marginais. Seu corpo tinha marcas de violência sexual, espancamento e tiros. Ele foi encontrado morto na mala de um carro no sábado de manhã.
A barbárie continuou naquele dia, quando o pastor Alexandre Lima, 37 anos, também foi assassinado durante a manhã, num dos acessos à Chatuba. Ele estava de fone de ouvidos, e não teria escutado uma ordem dada pelos traficantes, sendo, então, executado. José Aldeci da Silva Junior teria presenciado o crime e sido capturado pelos bandidos. Ele segue desaparecido.
A polícia não descarta também que a tortura e morte dos seis rapazes tenha sido parte das "comemorações". A festa prosseguiu no sábado, quando os seis rapazes passaram pela região, e foram sequestrados. A polícia trabalha com duas frentes de investigação. Uma aponta que eles foram confundidos com traficantes rivais, foram pegos e mortos pelo bando de Ratinho e seu comparsa, Juninho Cagão. Os garotos estavam passando pela região, e estariam ouvindo, num celular, um funk que enaltecia uma facção rival.
A outra é de que os rapazes cruzaram com um grupo de traficantes do morro do Chapadão que teriam se deslocado para a Chatuba para participar da festa. Eles teriam questionado a presença dos jovens ali e os levaram até o bando que comanda o tráfico na favela.
Desde o dia do crime até a tarde desta terça-feira, o Disque-Denúncia, da secretaria de Segurança, recebeu 118 denúncias sobre o caso. As informações estão sendo repassadas à delegacia de Homicídios da Baixada. Apesar de a polícia ter ocupado a Chatuba, o serviço de informações reservadas da corporação tem a convicção de que os traficantes já deixaram a favela.
Nos últimos meses, vários traficantes de favelas do Rio ligadas à facção criminosa Comando Vermelho (CV) vêm circulando em comunidades de Mesquita, Nilópolis e Nova Iguaçu. Com a implementação das Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs) em favelas da capital, muitos bandidos se deslocaram para cidades no entorno do Rio, nas quais o projeto ainda não chegou.
Amigos e parentes dos jovens assassinados que moram na Baixada Fluminense relataram que o quadro de violência na região se agravou bastante com o início das UPPs. Moradora do bairro de Cacuia, em Nova Iguaçu, uma amiga da família de Douglas Ribeiro, que pediu para não ser identificada, disse que o lugar, que tinha como uma das características a tranquilidade para se viver, está sob o domínio do medo imposto por novos traficantes que chegaram ali.
"Foi gente do Alemão, do Jacarezinho e de outro lugares do Rio para lá. Não deixo mais a minha filha sair de casa sozinha. Agora tem até motoboy que entrega cocaína lá. Antes, não tinha nada de tráfico", afirmou.
O motorista Celso Pereira Neto, também amigo da família, mora em Nilópolis e conta ouvir constantes relatos de violência gratuita de marginais de favelas da região. Sobre a Chatuba, na divisa com Mesquita, comentou que crimes como o que vitimou os rapazes que moravam no bairro Cabral, em Nilópolis, são constantes.
"Infelizmente houve essa tragédia, que chamou a atenção de todos. Mas sempre tem gente sumindo e sendo morta por lá. Se vasculharem o topo do morro, vão achar muita ossada, muita gente enterrada. O que não falta é gente desaparecida naquela área", observou o motorista, que contou ter ajudado a procurar os corpos, e estava presente quando eles foram encontrados às margens da Via Dutra. "Foi uma barbaridade. Não consegui ficar ali, saí porque estava passando mal", acrescentou.