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O irmão de 1º líder da Ku Klux Klan que foi um dos últimos traficantes de escravizados para o Brasil

Chamado de Bill nos Estados Unidos e Guilherme no Brasil, Forrest era irmão do lendário general confederado Nathan Bedford Forrest, também comerciante de cativos no anteguerra e primeiro líder da organização supremacista Ku Klux Klan (KKK).

28 mai 2026 - 10h46
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William Hezekiah Forrest em um ferrótipo de quarto de placa por um fotógrafo anônimo
William Hezekiah Forrest em um ferrótipo de quarto de placa por um fotógrafo anônimo
Foto: Coleção de Matt Hagan, reprodução da revista Military Images, 2018 / BBC News Brasil

Um dos últimos episódios de tráfico transatlântico ilegal de escravizados registrados nos arquivos do Império do Brasil envolve um imigrante americano que viveu no interior de São Paulo.

O episódio teria acontecido após o fim da escravidão nos EUA e quando ela ainda era permitida no Brasil, mas já após a proibição do tráfico para o país.

Ao investigar a identidade do traficante, o historiador Célio Antonio Alcantara Silva se deparou com um célebre sobrenome: William Hezekiah Forrest, major do exército confederado ao final da Guerra de Secessão e, antes de 1865, traficante de escravos.

Chamado de Bill nos Estados Unidos e Guilherme no Brasil, Forrest era irmão do lendário general confederado Nathan Bedford Forrest (1821-1877), também comerciante de cativos antes da guerra e primeiro líder da organização supremacista branca Ku Klux Klan (KKK), fundada em 1865 nos EUA.

Em artigo publicado na revista Bulletin of Latin American Research, em 2024, o professor da Universidade Federal do Tocantins (UFT) mencionou pela primeira vez a passagem de Bill Forrest pelo Brasil.

Os Estados Unidos Confederados da América foram uma coligação de 11 Estados que se separaram da União por não aceitar o avanço da causa abolicionista representado pela eleição do presidente Abraham Lincoln (1809-1865).

O resultado foi a Guerra de Secessão (1861-1865), o mais sangrento conflito da história americana, que deixou como saldo, além do fim da escravidão, mais de 600 mil mortos (cerca de 2% da população do país) e 400 mil mutilados.

A imigração confederada para o Brasil foi efetivamente organizada em torno de líderes de alto escalão da Confederação, como o ex-senador e coronel confederado William Huntchinson Norris, do Alabama.

O general Nathan Bedford Forrest durante a Guerra de Secessão
O general Nathan Bedford Forrest durante a Guerra de Secessão
Foto: Livro “Forrest”, de James Harvey Mathes, 1902/Reprodução / BBC News Brasil

'Nenhum vivente pode dizer quando Bill vai perder a cabeça'

A incursão brasileira de Forrest insere-se, de acordo com Silva, no contexto histórico do que o pesquisador chama de "crise da escravidão no Hemisfério Ocidental".

"O Brasil serviu como atrativo para esses indivíduos [confederados] por apresentar escravidão legal e melhores condições de reprodução do sistema de plantagem (plantation) em virtude da disponibilidade de terras em comparação com o outro único ponto das Américas que permitia trabalho cativo, a então colônia espanhola de Cuba", afirma o historiador, de Palmas (TO), por videoconferência, à BBC News Brasil.

Assim como outros irmãos do general Forrest, Bill serviu sob as ordens do irmão mais velho no Exército Confederado.

No cinema, o primogênito forneceu a irônica inspiração para o nome do personagem Forrest Gump no filme homônimo de 1994 feito por Robert Zemeckis.

Na vida real, sua trajetória teve pouco em comum com as peripécias cômicas do tipo interpretado pelo ator Tom Hanks.

O general, chamado de Mago da Sela por seus talentos de cavaleiro e chefe militar, foi um dos mais notórios integrantes da Ku Klux Klan. Na organização, era cultuado como "Grande Mago" (Grand Wizard) em razão do apelido dos anos de guerra.

Celebrando o antigo ideal de um Sul branco e escravista, o grupo permanece até hoje envolvido em crimes de ódio contra afrodescendentes, judeus e outras minorias.

O historiador e escritor norte-americano Shelby Foote (1916-2005) afirma que, embora tenha revelado inúmeros comandantes notáveis, a guerra civil americana conheceu apenas dois gênios autênticos: Nathan Forrest e Lincoln.

Quando Forrest morreu, em 1877, um jornalista escreveu em um periódico de Cincinnati, Ohio, que o intrépido comandante só temera um indivíduo ao longo da vida: o irmão Bill.

"Apenas um dos sete [filhos da família Forrest que combateram nas fileiras da Confederação], porém, tornou-se o que realmente podemos nomear de desperado (bandido perigoso), e esse foi Bill Forrest, o único homem de quem o general Forrest costumava dizer que sentia medo", afirmou.

"'Nenhum vivente', disse o general, 'pode dizer quando Bill vai perder a cabeça'."

Um biógrafo do comandante confederado produziu em 1902 o seguinte retrato de Bill: "William Forrest, o terceiro filho, um alto capitão de batedores durante a guerra, era um homem grande e vistoso, um combatente temível, e foi ferido várias vezes. Ele era muito quieto em maneiras, mas rápido na ação, e em dificuldades pessoais, às quais tinha apenas em razão de algum amigo mais fraco, era um antagonista perigoso".

Outro biógrafo de Forrest narra um episódio que dá ideia da audácia do irmão: o ataque ao Hotel Gayoso, em Memphis, Tennessee, então ocupada pelas forças da União, com o objetivo de capturar o general Stephen A. Hurlburt.

"O capitão Bill galopou para o Gayoso e, sem a formalidade de apear do cavalo, invadiu o lobby. Um oficial resistiu e foi alvejado. Parte do estado-maior de Hurlburt foi capturada, mas o general escapou", afirma o autor.

Célio Alcantara Silva em 2019 no Monumento Nacional de Fort Sumter, em Charleston, na Carolina do Sul, marco inicial da Guerra de Secessão
Célio Alcantara Silva em 2019 no Monumento Nacional de Fort Sumter, em Charleston, na Carolina do Sul, marco inicial da Guerra de Secessão
Foto: Acervo pessoal / BBC News Brasil

'Deslocou-se da vizinhança de Santa Bárbara para a costa da África'

No trabalho de Silva, intitulado "Entre o Mago e os Pirófagos: Os Últimos Registros de Tráfico Ilegal de Escravizados para o Brasil, 1866-1870", o autor cita duas cartas de um diplomata britânico no Rio de Janeiro com referências a "[...] um cidadão dos Estados Unidos chamado Forrest (um irmão da pessoa designada como General Forrest)".

Esse indivíduo, escreve George Buckley Mathew nos dias 3 e 18 de maio de 1870, "deslocou-se alguns meses atrás da vizinhança de Santa Bárbara para a costa da África", de acordo com informação atribuída ao então cônsul britânico em exercício em Santos (SP), Elliot Bushby.

O destinatário de uma das cartas de Mathew foi João Maurício Wanderley, o Barão de Cotegipe, que, na condição de ministro da Marinha, era responsável pela apreensão de embarcações associadas ao tráfico.

A polícia de Limeira e Constituição, hoje Piracicaba, não conseguiu localizar Bill.

Autoridades da última vila recolheram, porém, depoimentos de quatro imigrantes americanos atestando que um certo Guilherme, que vivia na propriedade da "viúva Barbe", em Santa Bárbara, era o Forrest nomeado pelo cônsul.

"No Brasil do século 19, era prática comum atribuir o nome Guilherme a estrangeiros ao traduzir seus nomes com o equivalente em português de William ou Wilhelm", afirma o pesquisador.

Em seu trabalho, Silva salienta que, em 1871, o general Forrest foi ouvido pelo Congresso dos Estados Unidos em uma investigação sobre as atividades do grupo no Brasil.

O militar disse que as únicas informações de que dispunha sobre o assunto provinham "de um homem morto na Carolina do Norte e de um imigrante que estava na época no Brasil", afirma o historiador.

"Seria esse imigrante William Hezekiah Forrest?", questiona Silva.

Qualquer que seja a resposta, a biografia de Bill torna-se opaca depois dos registros descobertos pelo professor até sua morte, no Tennessee.

Célio Alcantara Silva em 2019 no Appomattox Court House National Historical Park, em Appomattox, na Virginia, onde o comandante do Exército Confederado, general Robert E. Lee, assinou a rendição do Sul em 9 de abril de 1865
Célio Alcantara Silva em 2019 no Appomattox Court House National Historical Park, em Appomattox, na Virginia, onde o comandante do Exército Confederado, general Robert E. Lee, assinou a rendição do Sul em 9 de abril de 1865
Foto: Acervo pessoal / BBC News Brasil

Cerca de 6 milhões de africanos foram embarcados como cativos para o Brasil

O tráfico foi o tema dominante da política externa do Brasil de 1822 a 1850, com o agravante de que, na maior parte desse período, a prática foi ilegal.

A proibição, expressa em lei de 1831, não impediu o transporte de mais de um milhão de indivíduos em navios negreiros sob a complacência das autoridades imperiais.

Cerca de seis milhões de africanos foram embarcados como escravos para o Brasil, de longe o maior destino de cativos nas Américas.

A principal pressão contra o tráfico vinha do Reino Unido, que, por meio da Lei Aberdeen, de 1845, passou a apreender embarcações com destino ao Brasil, provocando reações indignadas dos proprietários de escravizados.

Em 1850, a Assembleia Geral do Império, que reunia a Câmara e o Senado, aprovou a apreensão de navios envolvidos na operação.

A lei de 1850 foi batizada de Lei Eusébio de Queirós em homenagem a seu proponente, senador e ex-chefe de polícia do Rio de Janeiro que, ironicamente, ganhara fama pela leniência em relação à prática.

O texto que levou seu nome foi, porém, efetivamente cumprido e teve como consequência a eliminação praticamente completa do trânsito de escravizados pelo Atlântico.

Enquanto a aprovação da Lei Eusébio de Queirós em 1850 e a rendição do Sul escravista nos Estados Unidos em 1865 apontam, segundo Silva, para uma convergência histórica, o fato de o Império permitir o emprego de escravos nas colônias oficiais habitadas por americanos revela uma conexão entre o Brasil e a Confederação.

Nas áreas destinadas pelo Império a colonos alemães, italianos e outros, a escravidão era proibida.

"Ao mesmo tempo que eles [os confederados] dirigiam-se ao Brasil buscando reconstituir as condições do Sul escravista, essas condições aqui já tinham sido alteradas pela derrota da Confederação nos Estados Unidos", afirma Silva.

Segunda maior imigração em massa da história dos EUA fixou-se em solo brasileiro

Pesquisadores calculam que entre dois mil e quatro mil habitantes dos Estados que formaram a Confederação (Carolina do Sul, Mississipi, Flórida, Alabama, Geórgia, Texas, Louisiana, Virginia, Arkansas, Carolina do Norte e Tennessee) tenham escolhido o Brasil como destino após a guerra.

O país foi o principal ponto de chegada de antigos confederados fora dos Estados Unidos. Com isso, abrigou a segunda maior imigração em massa da história americana, superada apenas pela diáspora rumo ao Canadá durante a Guerra de Independência, no século 18.

Questionada sobre a existência de registros a respeito de William Hezekiah Forrest em Santa Bárbara d'Oeste, Natália Novaes, coordenadora do Centro de Memórias Historiador Antonio Carlos Angolini, vinculado à Secretaria Municipal de Cultura e Turismo, disse à BBC News Brasil que não há informações sobre o militar nos arquivos da instituição.

O presidente da Fraternidade Descendência Americana, Rogério Seawright, afirmou que não conhece William Hezekiah Forrest nem sabe nada sobre sua passagem pelo Brasil.

A respeito de um imigrante em Santa Bárbara d'Oeste ter sido apontado como envolvido em tráfico ilegal de escravizados, Seawright disse que não pode se posicionar.

"Não posso falar nada sobre esse assunto, não tenho nenhum conhecimento do assunto. Quando eu nasci, a escravidão tinha acabado havia mais de cem anos", declarou por telefone à BBC News Brasil.

Seawright argumentou que, na época, a escravidão era legal "de norte a sul do Brasil" e que a maioria dos imigrantes americanos era pobre e sem recursos para compra de cativos.

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