'Nega maluca, não' - Mulheres pedem fim das ‘fantasias de negras’ no carnaval
Ricardo Senra - @ricksenra
Da BBC Brasil em São Paulo
Formado só por homens com rostos pintados de preto, bloco 'Domésticas de Luxo' sai nas ruas de Juiz de Fora desde 1958 - último desfile indignou mulheres negras nas redes sociais
Só homens podem vestir a fantasia oficial do bloco Doméstica de Luxo, que no último fim de semana reuniu mais de 6 mil pessoas em Juiz de Fora, Minas Gerais.
A caracterização se repete desde 1958, quando o grupo foi criado por seis amigos: avental, cabelo "black power", batom vermelho para engrossar os lábios e tinta preta cobrindo o rosto. Exatamente o oposto do que gostariam de ver mulheres negras como Stephanie, Jarid e Dandara, que conversaram com a BBC Brasil sobre racismo no Carnaval.
Além do exemplo mineiro, elas citam como motivos de desconforto marchinhas como O Teu Cabelo Não Nega ("Mas como a cor não pega, mulata / Mulata, eu quero o teu amor"), fantasias como a de "nega maluca" e clichês como a "mulata tipo exportação".
Para as entrevistadas, sob confetes e serpentinas circulam piadas machistas (com homens se vestindo de 'mulher fácil'), racistas (por meio da representação debochada da mulher negra) e com preconceito social (caso das piadas com o cotidiano das empregadas).
Segundo diretor do bloco Domésticas de Luxo, objetivo é "homenagear de forma singela as empregadas"
'Homenagem'
"Tenho certeza de que a maioria desses homens não tem a menor noção sobre a questão racial e, pior, não faz nenhum esforço para entender", diz a estudante de arquitetura Stephanie Ribeiro, de 21 anos, eleita uma das 25 mulheres negras mais influentes da internet brasileira.
"A origem que percebo na maioria dos 'bullies' é essa: uma dificuldade de se colocar no lugar do outro", afirma a jovem.
A reportagem conversou com um dos diretores do bloco Doméstica de Luxo, o administrador de empresas Odério Filho, que se disse surpreso com as críticas.
"A gente não tem preconceito", afirma. "O bloco foi criado em 1958 por seis amigos que decidiram pintar o rosto de preto e vestir uma roupa simples para homenagear de forma singela as empregadas."
Questionado sobre a associação da mulher negra ao trabalho doméstico, Odério diz defender a liberdade de expressão.
"Tratamos de forma carinhosa e caricata. A liberdade de expressão está aí. Queremos agregar qualquer tipo de pessoa - a única restrição é que só podem homens, como está no estatuto."
Stephanie contra-argumenta. "Hoje tenho um pouco de medo de ir para a rua num bloco porque me encaixo exatamente no padrão de mulher que eles constroem. O constrangimento não fica só no campo da palavra, da expressão, da fantasia. A agressão também é física: nos passam a mão e tratam como objeto de diversão."
"Nós não criticamos ou falamos mal (das mulheres)", rebate Odair. "A empregada doméstica surgiu no Brasil como a pessoa simples que trabalhava para a madame nas fazendas. Hoje, com a PEC das Domésticas, é uma profissão consagrada. E nós comemoramos isso."
'Cor do pecado'
"A origem que percebo na maioria dos 'bullies' é essa: uma dificuldade de se colocar no lugar do outro", diz a estudante Stephanie Ribeiro
A escritora e militante Jarid Arraes, de 24 anos, se "ofendida" com a "hipersexualização" das mulheres negras durante a festa.
"Somos retratadas como mulheres 'da cor do pecado', 'mulatas tipo exportação'. É o velho estereótipo de que as mulheres negras seriam mais sexuais do que as brancas - que por sua vez seriam para casar", diz.
A fantasia de "nega maluca" seria um exemplo "infelizmente muito comum até em eventos de movimentos sociais", segundo Jarid."Aquela não é a imagem criada pela própria mulher negra. É criada pela elite branca, com exageros nas formas e curvas. Não dá para dizer que é inofensivo, que é diversão. É deboche", afirma.
A atriz Dandara de Morais, de 24 anos, conta ter vivido na própria pele o clichê da nega maluca.
"Faço balé desde criança. Aos 16, tivemos uma apresentação sobre bonecas - claro, para mim reservaram a 'nega maluca'", diz. "Hoje eu vejo como este tipo de representação da mulher negra a limita e ridiculariza."
São representações que Jarid promete combater até que os "estereótipos sejam derrotados".
"O carnaval é só sintoma de um problema muito maior: a repressão sexual, o moralismo, a desigualdade de oportunidades", diz. "A internet nos coloca numa posição mais visível que antigamente. As pessoas nos escutam, nos veem questionar e com isso conseguimos causar incomôdo."
'Bons' blocos
Para a atriz recifense Dandara de Morais, 'nega maluca' ridiculariza a mulher negra
Por outro lado, as entrevistadas reconhecem que nem só de estereótipos é feito o Carnaval. A cada ano, ganham força pelo país blocos carnavalescos que pulam a festa levantando bandeiras sociais como o empoderamento feminino e a defesa de oportunidades iguais entre os sexos.
É o caso do bloco Rolezinho da Crioula, que desfilou no último domingo, na Vila Madalena, em São Paulo, com a missão de promover a cultura negra e o respeito às tradições afro-brasileiras.
Stephanie fez um chamado nas redes sociais em busca de indicações de blocos que não aceitam representações estereotipadas entre seus integrantes.
A lista com os principais está abaixo:
Fortaleza - CEAfoxé Oxum OdolàTambores de Safo
Florianópolis - SCBloco Carnavalesco Pula Catraca
Manaus – AMBloco Maria Vem com as Coisas Outras
Recife – PEOu Vai ou Racha
Rio de Janeiro – RJComuna Que PariuAgytoBloco das Perseguidas
Salvador – BAFolia FeministaOlodumMuzenzaMalê de BalêBanda Didá
São Paulo – SPBloco SoviéticoBloco da fanfarra do MalIlú Obá De MinAdeus AméliaBloco do MALBloco da Dona YayáBloco da AboliçãoBloco do Peixe SecoOlgazarraBloco da toca do saciIlú Obá