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Mordidas de cães, roda de orações: agentes do IBGE contam o que passam durante Censo

Agentes censitários e recenseadores do órgão saem às ruas nesta segunda-feira, 1º, para coletar informações do Censo 2022

1 ago 2022 - 05h00
(atualizado às 10h48)
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Censo IBGE 2022 começa nesta segunda-feira, 1
Censo IBGE 2022 começa nesta segunda-feira, 1
Foto: Lucas Lacaz Ruiz/Estadão

Já era fim de tarde quando Priscila Matos Costa, então com 19 anos, chegou pela primeira vez em uma vila no bairro Nova Constituinte, em Salvador, na Bahia, para entrevistar os moradores para o Censo 2010 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Doze anos depois, ela e outros agentes censitários e recenseadores voltam às ruas por todo o País nesta segunda-feira, 1º, para fazer a coleta do Censo 2022.

O cargo de recenseadora foi o primeiro emprego de Priscila, que conciliava com o curso de Ciências Contábeis. Como a remuneração é por produtividade (veja mais abaixo), ela tentava fazer o máximo de coleta de dados no dia.

Logo que passou pela porta da vila, ela já ouviu latidos e rosnadas insistentes, justamente vindos da primeira casa que precisava visitar. Priscila parou em frente ao portão e bateu palmas. Assim que o morador colocou a cabeça para fora, o cachorro, um vira-lata caramelo, se soltou e avançou em sua perna. 

"Não chegou a me machucar, mas grudou na minha calça. Eu saí correndo", lembra, aos risos. O desespero da jovem recenseadora foi tanto que ela fugiu da vila, deixando o morador para trás. "Só voltei dois dias depois, mas o cachorro não estava mais lá", conta.

Ser atacada por um cão não foi exclusividade de Priscila. A quase 2 mil quilômetros de distância, na Zona Sul de São Paulo, a também recenseadora Cícera Aparecida Moreira, com 49 anos na época, diz que a fuga é comum entre os agentes.

"De cachorro, eu corria bastante. Ficava escondida até o dono aparecer. Quando a gente chegava nos portões, [os animais] eram os primeiros a pular", lembra. 

Censo IBGE 2022 começa nesta segunda-feira, 1
Censo IBGE 2022 começa nesta segunda-feira, 1
Foto: fdr

Cícera e Priscila são duas das cerca de 200 mil pessoas que atuaram no Censo do IBGE de 2010. Agora, em 2022, com dois anos de atraso por causa da covid-19 e por falta da liberação de verba do governo federal, o novo Censo será realizado por 211 mil pessoas, entre recenseadores, servidores e agentes censitários, que ficarão incubidos de coletar os dados da população brasileira.

A baiana Priscila Costa volta ao trabalho, agora com 32 anos, e desta vez como supervisora. Embora os recenseadores e agentes censitários iniciem o trabalho nesta segunda, 1º, o Censo 2022 começou a ser levantado já em junho, com a Pesquisa Urbanística do Entorno dos Domicílios, que durou três semanas.

Com investimento de R$ 2,3 bilhões, o IBGE estima a visita a 89 milhões de endereços, dos quais 75 milhões de domicílios, onde vivem a população estimada em 215 milhões de pessoas. 

Brasileiro é acolhedor

O início do trabalho pode parecer assustador. Priscila Costa, por exemplo, lembra que não tinha boas expectativas quando começou as entrevistas nas ruas. 

"Não sei se pela fama do bairro ser ruim, eu já fui sem expectativas de conseguir as entrevistas. Mas eu fui bem recebida por 80% das casas que bati na porta", conta.

Hoje já aposentada e longe do trabalho nas ruas, Cícera Moreira lembra que, doze anos atrás, as pessoas lhe ofereciam água, café, comida e até um momento de descanso. A função lhe rendeu até amizades. 

"Entrei para tomar café, comer bolo, bater papo com uma mulher. Virei até cliente dela, porque ela vendia produtos de revistas. Ela contou a história dela, dos filhos, do marido", lembra. "A gente se aproxima das pessoas".

Eram poucos os que olhavam desconfiados e diziam que "não tinham interesse" em responder ao questionário. Cícera conta que aproveitava a recusa para reforçar a importância da pesquisa, que reúne dados estatísticos sobre a população. Informações como nascimentos, mortes, migração e condições socioeconômicas, por exemplo, servem de base para a elaboração de políticas públicas ao longo de dez anos.

Todos os agentes do IBGE trabalham uniformizados, com colete, boné e crachá de identificação. Os elementos de identificação são tão marcantes que deixaram Cícera conhecida na comunidade onde trabalhou.

"Quando eu ia chegando, tinha um morro, a molecada já gritava: 'Mãe, lá vem a moça do Censo'. As crianças corriam para perguntar: 'Vai na minha casa hoje?'. Ficavam ansiosos", lembra.

O vínculo com os moradores foi real. Cícera, inclusive já foi até convidada para participar de uma festa que acontecia em uma das casas. "Teve um fim de semana que eu voltei para fazer a entrevista, porque as pessoas trabalhavam na semana. Cheguei lá, estava rolando um pagode e churrasco. Eles me convidaram, mas eu não fiquei. Eu disse 'muito obrigada'", lembra.

Censo IBGE 2022 começa nesta segunda-feira, 1
Censo IBGE 2022 começa nesta segunda-feira, 1
Foto: Licia Rubinstein/Agência IBGE Notícias / BBC News Brasil

Remuneração por entrevista 

O trabalho do recenseador é remunerado conforme a  quantidade de entrevistas feitas, segundo informações divulgadas pelo IBGE. Não há horário fixo, mas o recomendado é que sejam feitas, no mínimo, 25 horas semanais de trabalho. 

Com cinco horas de trabalho, os recenseadores conseguem fazer de dez a 15 entrevistas. A estimativa é de Priscila Costa e Cícera Moreira.

"Tem casas que é bem rápido, mas tem casa que chega, a pessoa quer conversar, contar a situação, né. Não posso ser rude e dizer que já consegui o que queria e vou embora", pondera Priscila. 

Por causa das metas que ela mesma criava para si, a jovem precisava insistir para conseguir as informaçõeos que precisava, até mesmo em situações incomuns. Foi assim que ela acabou em uma roda de oração, mesmo não tendo religião.

"Era final da tarde. Cheguei lá [na casa] e um pessoal evangélico estava reunido em oração. Eu participei com eles para esperar a moradora", conta. "Não sabia se ficava de olhos abertos ou fechados. Queria muito recensear aquela casa. Precisei ficar para fazer."

Realidades extremas

Durante o trabalho com o Censo, Cícera Moreira também se deparou com duras realidades, como uma família inteira desempregada que vivia somente com dinheiro de auxílio do governo, crianças fora da escola e pessoas com deficiência sem assistência e acesso aos tratamentos. 

"Lembro que bati numa casa, tinha uma família numerosa. Tinha acabado de chegar em São Paulo. As crianças, que segundo a mãe estavam com 3, 4 anos, não eram sequer registradas. Ainda existe muito isso", lamenta.

De acordo com Cícera, a comunidade onde fez o levantamento era bastante carente. A aposentada detalha que a maioria das casas era de tijolos e alvenaria; tinha água e tinha luz, mas não tinha coleta de lixo.

"Tinha que levar o lixo numa caçamba até uma rua mais próxima. Principalmente, nessa parte mais carente, é complicado, tem muita gente esquecida", lembra.

Priscila Costa conta que foi um choque conhecer tanta pobreza num bairro tão perto de onde morava. "Eu vi, na real, o que é extrema pobreza no IBGE", diz a agente, que viu casas sem estrutura, crianças sem suporte e pessoas sem ao menos uma roupa confortável para vestir.

"Passei a ser mais empática depois de ter visto o que eu vi. Às vezes, passa despercebido mesmo, porque a gente não tem contato, não dá atenção. Você se assusta com o que vê, a verdade é essa", acrescenta.

*Com edição de Estela Marques.

Fonte: Redação Terra
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