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Brasil

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Lula precisará conciliar pautas da direita se quiser reconciliar o Brasil, diz cientista político

O Brasil viveu uma eleição de todos os recordes: a mais acirrada, a maior abstenção no primeiro turno, seguida pela mais alta taxa de participação em 20 anos no segundo turno, os recursos judiciais ao Tribunal Superior Eleitoral durante a campanha, além da prorrogação inédita da votação por duas horas e a virada sem precedentes de Lula nas urnas. Essa montanha-russa revela o quanto a crise política no país permanece viva - uma fratura que a eleição do petista, por si só, não resolverá.

27 out 2026 - 16h41
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Resumo
Segundo o cientista político Carlos Alberto de Melo, Lula precisará se aproximar de pautas da direita e dialogar com o Congresso e a sociedade para ter governabilidade e tentar reconciliar o país em seu novo mandato. Para o especialista, a vitória refletiu mais a força do antibolsonarismo do que do próprio PT. Ele avalia que o governo enfrentará forte oposição e precisará atrair a base de Flávio Bolsonaro, cuja derrota derivou do receio gerado por propostas radicais de cortes de gastos.

Lúcia Müzell, enviada especial da RFI a São Paulo

Nos quatro anos que se passaram desde a sua volta ao poder, a reconciliação nacional não foi uma prioridade de Lula. A partir de janeiro, o petista iniciará seu quarto e último mandato, e, durante os próximos quatro anos, também precisará encaminhar um herdeiro político capaz de enfrentar o bolsonarismo nas urnas. Os dois objetivos poderão caminhar juntos.

Estrategicamente, o governo de "Lula 4" deveria se aproximar da direita, avalia o cientista político Carlos Alberto de Melo, professor do Insper em São Paulo.

"Não sei se podemos esperar, mas devemos esperar, porque, se não for dessa forma, o presidente vai ter muita dificuldade em governar. Se o presidente se limitar a um campo ideológico, se limitar aos seus próximos, ele não vai dialogar com a sociedade e não vai dialogar com o Congresso Nacional", afirma o doutor em Ciências Sociais.

Confira abaixo os principais trechos da entrevista.

Como o senhor qualifica essa dinâmica tão intensa e passional que os brasileiros viveram nos últimos meses, no contexto das eleições?

O que se diz aqui é que o roteirista do Brasil é maluco e absolutamente perverso, porque ele é supercriativo, todo dia tem alguma novidade. Normalmente, uma crise é algo aflitivo, só que a gente vai passando por isso há alguns anos.

Agora, o que nós temos de verdade é uma crise séria, que a eleição, por si só, não resolve. Nós temos um país dividido socialmente, politicamente, mas também culturalmente. As divergências culturais são muito profundas entre um bloco e outro. É um Brasil que não consegue se ajustar e tem faltado liderança para fazer a interpretação desses dois mundos e tentar unificar esses dois mundos. Esse é um problema sério.

Apoiadores de Lula lotaram a Avenida Paulista na tarde deste sábado, véspera da eleição presidencial. (24/10/2026)
Apoiadores de Lula lotaram a Avenida Paulista na tarde deste sábado, véspera da eleição presidencial. (24/10/2026)
Foto: RFI

E aí nós temos também crises institucionais. O nosso Legislativo há muito tempo não olha mais para o Brasil como um todo. Cada deputado, cada senador, olha para seus interesses paroquiais. Ninguém mais discute o Brasil, o futuro.

O Supremo Tribunal Federal, que teve um papel muito importante recentemente por conta da tentativa de golpe, também passou por um desgaste muito grande. Envolveu‑se com relações nem um pouco republicanas e também precisa ser revisto.

E o Executivo tem perdido força ao longo dos anos na execução do orçamento e, portanto, força política.

Então, nada disso se resolve com eleição. Mas vira-se uma página e tenta-se agora reconstruir processos. Vamos ver se o presidente reeleito terá uma outra postura nesse novo mandato e se estará disposto a fazer isso. 

Apesar da vitória bastante expressiva de Lula, com 51,7% dos votos, o antilulismo continua muito forte na sociedade brasileira. Os números mostraram isso ao longo da eleição, nas pesquisas. No discurso da vitória, ele sinalizou a intenção de tentar reconciliar o país, mas isso já não foi possível nesse atual mandato. Você acha que o presidente vai ser capaz de reverter esse quadro?

A sua pergunta exige uma resposta objetiva: eu não sei. A primeira questão é como o presidente vai interpretar essa vitória: se ele vai interpretar como uma vitória dele ou se ele vai interpretar como uma vitória do antibolsonarismo que foi às ruas por medo em relação à família Bolsonaro, foi às ruas em defesa da democracia.

Não foram só os petistas que foram às ruas. Foi muito maior do que o PT. Foi muito maior do que o lulismo. Eu estou há mais de 40 anos envolvido com essas coisas todas e eu nunca vi um movimento tão orgânico. Foi independente de partidos e de lideranças políticas. As pessoas simplesmente foram às ruas e tomaram as redes sociais.

Se o presidente perceber que esse vigor social é maior do que ele, maior do que o partido dele, talvez ele comece a orientar o seu governo para um diálogo social mais amplo. Primeiro, nesse campo democrático, mas também é necessário compreender que o senador Flávio Bolsonaro teve 59 milhões de votos.

Lula não pode simplesmente desqualificar esses eleitores. É necessário puxá-los, trazê-los para o campo da democracia e para o diálogo da construção de um projeto nacional, político e social. 

Pode-se esperar um governo Lula mais à direita, talvez o mais à direita já visto até hoje, seja pela questão da segurança, que impulsiona muito o voto no bolsonarismo, mas também na economia, que tem arrastado as elites econômicas para a direita há vários anos no Brasil?

Eu acho que devemos esperar isso, mas não sei se podemos esperar. Devemos esperar porque me parece que se não for dessa forma, o presidente vai ter muita dificuldade em governar. Se o presidente se limitar a um campo ideológico, se limitar aos seus próximos, ele não vai dialogar com a sociedade e não vai dialogar com o Congresso Nacional.

No Senado, me parece que a maioria está perdida, porque a oposição fez muitas cadeiras. Mas na Câmara dos Deputados é possível você construir maioria com o que se chama de "Centrão". É um grupo fisiológico. Haverá uma barganha? Sim, do ponto de vista de recursos públicos, mas talvez ela seja inevitável se ela trouxer junto um alinhamento político para ter governabilidade e pensar o futuro. Talvez seja o preço a se pagar. 

Em relação ao futuro do bolsonarismo, o não reconhecimento imediato da vitória de Lula por Flávio Bolsonaro, mas também por Donald Trump, antecipa tempos conturbados pela frente? Um 8 de janeiro poderia se repetir?

Eu acho que o 8 de janeiro vai ser muito mais difícil, porque ele foi gerado ao longo do tempo no governo Bolsonaro. O 8 de janeiro não foi uma rebelião espontânea. Ele foi construído, porque Bolsonaro estava no governo e tinha recursos para fazer essa construção.

Os acampamentos na frente dos quartéis contaram com a tolerância dos comandantes militares. Não haverá mais isso agora. Não digo que os militares vão colocar para correr quem ficar na frente dos quartéis, mas não serão receptivos, o que já é uma diferença muito grande. 

O clima relativamente pacífico que se verificou após o pleito é resultado da resposta das instituições democráticas do Brasil após a tentativa de golpe?

Exatamente. O controle exercido pelo Estado, as instituições do Estado, a Polícia Federal, a Procuradoria-Geral da República, as Forças Armadas, o Judiciário, com todos os problemas, parecem indicar pelo menos um alinhamento em relação à democracia. 

Com relação ao Donald Trump, nós vamos precisar esperar uma semana para ver qual é o resultado da eleição americana.

Eu tenho brincado que a eleição de meio de mandato nos Estados Unidos é o nosso terceiro turno da eleição brasileira, porque o alinhamento da extrema direita brasileira é muito grande com a extrema direita americana, que hoje está completamente sem freios, porque tem maioria na Câmara, tem maioria no Senado e influência decisiva sobre a Suprema Corte.

Se Donald Trump perde a maioria no Congresso, o sistema de freios e contrapesos nos Estados Unidos volta a funcionar, e logo esse tipo de disposição em relação aos outros países, de intervenção, pode ser contido. Isso pode ser muito importante para o Brasil também.

Sobre o Flávio, a gente viu o candidato chegar ao apogeu ao vencer o primeiro turno - após ter a candidatura contestada internamente, no começo da campanha - e conseguir virar o favorito para o segundo. Alguns analistas têm avaliado que a derrota dele na eleição poderá ser uma derrota pessoal sua como sucessor do bolsonarismo. Qual a sua opinião?

Houve, no primeiro turno, uma certa soberba da parte do presidente Lula, que acreditava que ganharia a eleição fácil, e não foi assim. Ele poderia ter perdido no primeiro turno. Não mobilizou, não foi às ruas, e há toda uma crítica a ser feita à disposição pessoal do presidente e à política do Partido dos Trabalhadores em relação à eleição.

No segundo turno, parece que isso virou, mudou de lado. O senador Bolsonaro, quando venceu o primeiro turno, ele já saiu falando como presidente da República e cometeu alguns erros primários. Ele já fala da composição do governo, da sua pretensão de mudar a Constituição.

Ao mesmo tempo que ele vai criando um sentimento de soberba - aqui no Brasil nós temos uma expressão que é "colocar a mão na taça" -, também vai despertando temores. Mudar a Constituição para quê? Para onde? A porta-voz econômica do candidato também desatou a falar demais, de uma forma arrogante, em que ela simplesmente falava que iria cortar gastos, de uma forma que despertou medo em setores sociais que precisam do governo. 

A candidatura de Flávio acabou assustando os eleitores?

Assustou. O Brasil precisa de ajustes, e é evidente que precisa de um ajuste fiscal. Mas a questão é: quem vai pagar esse ajuste? Serão os mais necessitados ou nós faremos um grande acordo, uma concertação política para chegar nesse ajuste, com um diálogo mais amplo?

O temor que se estabeleceu é que se impusesse de cima para baixo um grande corte de recursos que afetasse uma população pobre, que no Brasil é a maioria. Não é fácil você adotar um receituário ultraliberal num país que tem muitas necessidades, um país muito carente como o Brasil.

É fácil você falar desse receituário em democracias desenvolvidas, em economias muito bem estabelecidas, modernas. Aqui é mais difícil.

RFI A RFI é uma rádio francesa e agência de notícias que transmite para o mundo todo em francês e em outros 15 idiomas.
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