Interesses de grupos americanos estão no centro de novo tarifaço de Trump contra Brasil, dizem analistas
Medidas anunciadas pelos Estados Unidos geram reações de políticos e do setor produtivo, exigindo novo esforço da diplomacia brasileira nas negociações. Especialistas ouvidos pela RFI apontam que interesses de instituições financeiras norte-americanas, que temem avanço do PIX para outros países, estão no cerne do impasse comercial
Raquel Miura, correspondente da RFI em Brasília.
O pacote do governo Donald Trump contra o Brasil elevou o clima de disputa eleitoral no país em meio à preocupação de empresários, principalmente os exportadores de manufatura.
Às vésperas da entrada em vigor da medida que classificou PCC e Comando Vermelho como organizações terroristas, a Casa Branca anunciou que pode sobretaxar produtos brasileiros em 12,5%, além da tarifa de 25% que foi defendida por Washington um dia antes.
As justificativas reúnem de trabalho forçado a desmatamento, com destaque para críticas ao PIX, sistema de pagamento popular no Brasil, citado tanto na questão do terrorismo quanto no impasse comercial.
"O setor exportador vê com muita preocupação o que está acontecendo, porque, ao fim, é o setor que está pagando a conta", afirmou à RFI José Augusto de Castro, presidente-executivo da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB), que destacou os possíveis reflexos na economia:
"Isso para nós é péssimo, porque além do comércio internacional em si, que fica prejudicado, atinge emprego, atinge a atividade econômica", acrescentou Castro.
Especialistas contestam justificativas americanas
Contrariando a própria justificativa ambiental, o governo norte-americano anunciou que alguns produtos, como a carne bovina, não estão na lista de produtos que podem vir a ser novamente sobretaxados, ao contrário, por exemplo, de maquinários e equipamentos.
A RFI também ouviu Caio Roberto Cortez, advogado, especialista em direito penal, que contesta os argumentos oficiais trazidos pelos Estados Unidos. No caso do terrorismo, Cortez não vê resultado eficaz das medidas no combate às organizações criminosas no Brasil.
"Não ajuda em nada na prática. Os Estados Unidos rotularam os cartéis mexicanos como terroristas em fevereiro do ano passado e ninguém viu o crime organizado no México acabar por causa disso. Na Venezuela o que se viu foi uma atuação com claro interesse geopolítico, mas não focado em acabar com a violência", disse o advogado.
Se não ajuda no combate ao crime organizado, a classificação atribuída pelo governo Trump, por sua vez, pode ter reflexo na segurança nacional. "A invasão clássica do jeito que as pessoas imaginam, para mim é pouco provável. Mas usar isso como pressão e até fazer ações pontuais fora do território dos Estados Unidos, isso sim é possível. E aí a questão das terras raras da Amazônia é a questão mais delicada", ressaltou Cortez.
"Tem quem mostre que a diplomacia segura essa onda. Um bom exemplo é o México. A relação da presidente Cláudia com o Trump, mais conversada, mais pacificada, ajudou a preservar a soberania mexicana mesmo depois da classificação dos cartéis."
PIX
Os dois analistas ouvidos pela RFI destacaram a preocupação de instituições financeiras americanas, especialmente as operadoras de cartão de crédito, com o modelo de pagamentos no Brasil nesse cenário de pressão econômica.
"Sobre essa questão do terrorismo, se tem outro interesse por trás, para mim é evidente que sim, principalmente econômico. Veja, não é por acaso que no mesmo período os Estados Unidos fecham uma investigação comercial e miram o Pix e a nossa regulação financeira", afirmou o advogado.
"O Pix é uma operação comercial bancária que deu muito certo no Brasil. O mundo vai tentar copiar a mesma coisa. E isso significaria redução de lucro dos banqueiros", avaliou o representante da AEB.
Corrida presidencial
O governo Lula criticou as medidas dos Estados Unidos e reforçou números que apontam queda do desmatamento e esforço de combate ao trabalho escravo. Lula afirmou que entregou nas mãos de Trump uma série de documentos sobre todos os pontos hoje elencados por eles.
"Eu saí de lá convencido de que a gente estava estabelecendo uma nova lógica no relacionamento democrático e civilizado entre Brasil e Estados Unidos. E confesso a vocês que fui pego de surpresa com a decisão deles", disse o presidente brasileiro.
"E mais ainda, o que é triste, é que tem brasileiro, que eu não vou citar o nome aqui, fomentando essa briga, na perspectiva de que se eles taxam a gente, vão prejudicar uma candidatura. E não percebe que prejudicado é o povo, não é o Lula. Em qualquer outro país do mundo, em qualquer outro momento histórico, isso seria chamado de traição da pátria", afirmou Lula se referindo à recente viagem de Flávio Bolsonaro aos Estados Unidos, onde ele se encontrou com Donald Trump.
O assunto ganhou as redes sociais, com críticas ao presidenciável do PL, que teve de vir a público negar que houvesse pedido um novo tarifaço contra o Brasil.
"Eu fiz o pedido direto para que os Estados Unidos não taxassem as empresas brasileiras, que já são absurdamente taxadas pelo governo Lula, empresas estão até saindo do Brasil. Eu reforcei que os Estados Unidos não precisariam mais usar a política de tarifas porque a partir de janeiro de 2027, o Brasil terá um presidente da República que vai sentar para negociar de igual para igual e fechar um acordo que seja bom para as duas nações", disse Flávio Bolsonaro.
Para os empresários que vendem mercadorias lá fora, no meio da disputa eleitoral e dos vários interesses dos Estados Unidos, o setor exportador pode pagar um preço alto.
"Nós temos dois presidenciáveis que se reuniram com o Trump, discutiram e, no final, o que aconteceu? Em vez de reduzir o nível das taxas, fala-se em aumentar as tarifas. Os Estados Unidos adotam apenas o que eles querem e nós tentamos não cumprir o que eles querem. É um cenário difícil", afirmou o empresário da Associação de Comércio Exterior do Brasil.
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