'Há cobrança para que a gente faça arte política': Adriana Varejão critica rótulo imposto a artistas latinos
Um dos nomes mais populares e caros da arte contemporânea brasileira, ela comanda, ao lado de Rosana Paulino, o pavilhão brasileiro na Bienal de Veneza, a mostra de arte mais importante do mundo.
É caminhando sobre o fio de uma navalha que Adriana Varejão, ao lado de Rosana Paulino, construiu o pavilhão do Brasil na Bienal de Veneza, a mostra de arte mais importante do mundo, que abriu suas portas no último fim de semana.
Esta tem sido considerada uma das edições mais controversas do evento em seus mais de cem anos, depois que a organização anunciou a reabertura do pavilhão da Rússia, lacrado desde 2022, após a invasão do Kremlin à Ucrânia.
O conflito se intensificou após a organização da Bienal ignorar os artistas que pediam retaliação a Israel por ter, junto dos Estados Unidos, iniciado uma guerra contra o Irã. Os iranianos, aliás, se retiraram do evento.
O presidente da mostra, Pietrangelo Buttafuoco, disse na semana passada que é contra a censura a qualquer artista ou país. Isso levou o júri da mostra, liderado pela brasileira Solange Farkas, a pedir demissão às vésperas da abertura.
O evento promove então uma votação pública para eleger seus vencedores, mas parte dos artistas e países se recusa a receber o Leão de Ouro, a láurea máxima das artes visuais, equivalente ao Oscar no cinema ou ao Nobel na literatura.
Mas Adriana Varejão está acostumada ao fio da navalha. A carioca, de 61 anos, passou suas últimas quatro décadas representando, na pintura e na escultura, os cortes e rasgos figurativos que a colonização deixou na sociedade, algo que ela vê como um processo tão violento quanto as guerras em curso.
A pressão por uma arte política
Na mostra Comigo Ninguém Pode, exposta no pavilhão brasileiro, Varejão apresenta obras de acervo e inéditas. Entre elas estão as releituras de azulejos portugueses pelas quais ficou conhecida. São 12 pinturas cheias de incisões — como se as peças estivessem quebradas — que subvertem uma expressão central da arte barroca.
Ela exibe ainda uma instalação de quase cem metros que leva as paredes e vigas do pavilhão explodirem em vísceras — moldadas em materiais como tinta óleo, resina e barro —, como se escancarasse a violência por trás das instituições.
A ideia é que, sob a aparência refinada de certos espaços, está o sangue derramado de tantos brasileiros, algo que se recusa a permanecer invisível em tempos em que reivindicações, principalmente as das chamadas minorias sociais, pressionam estruturas antes vistas como inabaláveis.
Ao menos esta é a interpretação que prevalece entre críticos e curadores de arte. Mas a artista vê com reticência essa leitura, que às vezes se sobressai, segundo ela, à plasticidade de seu trabalho, feito a partir da experimentação de diversas técnicas e materiais, em processos que podem levar meses.
"Enquanto latino-americana, vejo que há uma cobrança para que a gente faça arte política, porque existe uma tradição. Existe uma expectativa de que você, como latino-americano, vivendo nos países colonizados, que tiveram décadas de ditaduras, faça arte crítica, política. Mas as ruínas são a história do mundo, não só do Brasil", ela afirma.
Varejão avalia que, não raro, essa cobrança pode vir da própria América Latina e que, no exterior, sua obra é lida de maneiras diferentes.
Ela se lembra de uma exposição na Espanha, país com tradição da pintura de carne em suas naturezas-mortas, os bodegones, na qual um visitante ficou diante de seus azulejos sangrentos por 40 minutos, em um fascínio que ela acredita estar mais associado ao que ele via concretamente do que aos significados possíveis da obra.
"Não é uma obra só sobre mensagem. Ela não ilustra uma teoria, um assunto", diz ela. "Esse espanhol era um carniceiro e disse que aquilo era uma das coisas mais incríveis que já tinha visto. Pra mim, foi um grande elogio, porque vinha de um homem que lidava com a matéria que eu estava tentando representar."
Para Varejão, as ruínas expostas em Veneza significam outras coisas, a começar pelo nome dado ao trabalho, o ambíguo Still Life Amid Ruins. Ele vem de uma expressão em inglês que remete ao gênero da natureza-morta, mas que, em uma tradução menos literal, pode sugerir a ideia de que "ainda há vida em meio às ruínas".
"Não necessariamente é sobre violência. No caso dos azulejos, às vezes é sobre a carne explodir em uma matéria fria, que não consegue conter a matéria caótica e pulsante que é a vida, algo que explode, grita e destrói tudo. É uma revolução contra o azulejo, essa pele asséptica. Não veria como um martírio dos povos colonizados. Na verdade, vejo até como uma pulsão erótica", diz ela.
Qualquer que seja a visão sobre esses trabalhos, fato é que eles consagraram Varejão no panorama mundial da arte contemporânea — ela tem obras no acervo de templos como a Tate Modern, em Londres, e a tríade mais importante de Nova York, composta pelo Metropolitan Museum of Art, o Met, pelo Museum of Modern Art, conhecido como MoMA, e pelo Guggenheim.
Isso levou Varejão, aliás, a bater o recorde de maior valor já pago por uma obra de um artista brasileiro vivo, em um leilão em Londres em 2011. Parede com Incisões à la Fontana II, pintura de sua autoria, foi vendida por £ 1,1 milhão, o equivalente a R$ 2,97 milhões à época.
A cifra depois foi superada por Beatriz Milhazes, mas Varejão segue como uma das artistas brasileiras mais valorizadas no exterior, tanto comercialmente — com filas de espera de até três anos por uma obra, cotada em centenas de milhares de dólares — quanto pela recepção de suas exposições, elogiadas em periódicos como o The New York Times.
O ringue político visual
A Bienal de Veneza é a vitrine mais importante para qualquer artista contemporâneo, e seu comportamento na mostra é observado com atenção por colecionadores e curadores — às vezes até mais do que as obras expostas.
Mas Varejão não pestaneja ao responder o que pensa sobre os pedidos de boicote às personas non gratas desta edição. Ela vê os abaixo-assinados que circularam amplamente nas últimas semanas em Veneza como algo limitado, apesar de se identificar com a causa de muitos deles.
"Vou assinar contra Israel, mas por que não sobre a falta de países africanos? Por que não contra a Rússia? E se é contra a Rússia, por que não contra os Estados Unidos?", questiona.
Essa discussão se deve ao fato de que, em paralelo à exposição principal, sob curadoria de um representante da Bienal, cada país decide o que vai exibir em seu pavilhão. Essa escolha pode passar pela avaliação — e até pelo crivo — dos governos, que muitas vezes injetam recursos na produção das obras.
"É um modelo da época de Napoleão. Foi ele que mandou construir o Giardini, onde ficam os pavilhões, então não tem nenhum país africano, por exemplo, e o espaço brasileiro foi um dos últimos a entrar. Mas, de qualquer forma, o norte de toda a exposição deveriam ser os artistas e o que eles têm a dizer", opina Varejão.
A artista conta que o Brasil já teve seu pavilhão montado pelo Itamaraty, mas hoje o espaço é comandado pela Bienal de São Paulo, que não pertence ao governo.
Este, porém, não é o caso dos Estados Unidos, por exemplo. "Em alguns países, os pavilhões são ligados ao governo. No dos EUA, o presidente Donald Trump pôs artistas que ele mesmo escolheu, através de um representante", conta.
A Bienal, explica a artista, é uma oportunidade para que cada país escolha a imagem que deseja transmitir ao mundo em um evento visitado por toda a comunidade internacional, inclusive autoridades e líderes de primeiro escalão.
A última edição, que teve curadoria do brasileiro Adriano Pedrosa, principal nome por trás do Museu de Arte de São Paulo, o Masp, recebeu cerca de 700 mil visitantes, a maioria estrangeiros.
Como no Oscar, ter um trabalho exibido significa visibilidade cultural para o país, algo que pode ser convertido em poder de influência, o chamado soft power.
O maior exemplo disso são os Estados Unidos, que, por meio de sua arte — principalmente do cinema de Hollywood — venderam seu modo de vida e produtos como carros, eletrônicos e, algumas décadas atrás, até cigarros.
Ou, mais recentemente, a Coreia do Sul, que conquista fãs e consumidores ao investir em grupos de k-pop — como é chamada a música pop sul-coreana —, nos k-dramas — as novelas produzidas no país —, e até no k-beauty — o setor de produtos e tratamentos de beleza.
"Mas, no fim, a gente fala mais disso do que de arte. Tira o foco da arte. Esse é o problema desse modelo de bienal dividido em representações nacionais. É um território em que as nações constroem monumentos a si mesmas", finaliza Varejão.
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