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Governo vê decisão política dos EUA ao propor novas tarifas ao Brasil

2 jun 2026 - 11h04
(atualizado às 11h53)
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O anúncio do Escritório de Comércio dos Estados Unidos (USTR) de que propôs uma ‌tarifa de 25% sobre várias exportações brasileiras foi visto pelo governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva como um movimento político, ao não levar em conta as negociações em curso e os esclarecimentos apresentados pelo Brasil, disseram à Reuters três fontes que acompanham as negociações.

Uma das autoridades destacou que a economia brasileira mostrou resiliência quando os EUA anunciaram o tarifaço de 50% sobre produtos brasileiros no ano passado -- medida derrubada pelo judiciário do país norte-americano -- e não deve ser diferente se a nova tarifa for aplicada, mas o governo tem medidas prontas para socorro a setores afetados.

"Vamos questionar duramente do ponto de vista do debate público, ⁠vamos recorrer, vamos à Organização Mundial do Comércio (OMC). E caso haja impacto aos setores, se tivermos condições fiscais, tem que ter ajuda aos setores no Brasil", disse essa ‌fonte da equipe econômica sob condição de anonimato.

Ainda não há uma reação oficial do Brasil. Questionados pela Reuters, Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), Itamaraty e Presidência da República não responderam de imediato. 

A decisão foi apresentada pelo USTR na noite de segunda-feira. Em declaração, o representante de comércio norte-americano, Jamieson Greer, alega ‌que algumas políticas brasileiras relacionadas a comércio eletrônico, pagamentos digitais, tarifas preferenciais, desmatamento, mercado de etanol, entre ‌outras questões, restringem o comércio norte-americano e por isso o país pode ser alvo de medidas sob a Seção 301 de uma lei norte-americana ⁠sobre comércio. 

"São as mesmas alegações de quando eles abriram a 301 (investigação), desconsideraram todas as explicações. É político mesmo", disse uma das fontes. 

A investigação foi aberta em julho de 2025, no mesmo momento em que os EUA anunciaram tarifas de 50% contra as exportações brasileiras e uma série de sanções a membros do Supremo Tribunal Federal (STF) e do governo, com base em uma suposta perseguição ao ex-presidente Jair Bolsonaro

Desde então, depois de Lula e do presidente norte-americano, Donald Trump, terem estabelecido uma relação, uma porção razoável das tarifas foi suspensa, o restante, derrubado desde a decisão da Suprema Corte dos EUA de que a base legal para imposição de tarifas ‌comerciais amplas não tinha fundamento.

A expectativa, no entanto, era de que a Seção 301 pudesse ser usada como base legal para retomada de taxações - desde a decisão da ‌Suprema Corte, os EUA abriram investigações contra mais de ⁠80 países com base na 301. 

A decisão ⁠anunciada na segunda, no entanto, descumpre, ainda que por poucos dias, o prazo acordado entre os presidentes durante a viagem recente de Lula a Washington. Na conversa na Casa Branca ⁠o acerto foi que, por 30 dias, os dois países tentariam chegar a um acordo, antes ‌de tarifas serem anunciadas.

A fonte da equipe econômica descreveu ‌um cenário difícil na negociação tarifária entre os dois países, com os EUA demandando corte amplo e drástico de Imposto de Importação pelo Brasil, movimento que o governo brasileiro não aceita.

"Eles acham que o Brasil deveria ceder, deveria tirar todas as tarifas, e não é por aí, tem que ter uma negociação", disse, mencionando que o Brasil aceita negociar tópicos específicos, como o comércio de etanol e bens de capital.

Segundo ele, o Brasil também tem ⁠argumentado aos pares dos EUA que uma redução ampla de tarifas teria que beneficiar todos os países, o que acabaria beneficiando também a China, o que contraria interesses de autoridades norte-americanas.

DEPARTAMENTO DE ESTADO VISTO COMO BASTIÃO BOLSONARISTA

Apesar da boa relação entre os presidentes Lula e Trump, há pontos de conflito generalizados entre as equipes dos governos dos dois países. Recentemente, uma disputa entre Brasil e Estados Unidos sobre uma moratória para impostos em comércio eletrônico dentro da OMC azedou as relações comerciais um pouco mais, com Greer dizendo que não teria mais "boa vontade" com o ‌Brasil. 

No entanto, o governo brasileiro vê o Departamento de Estado dos EUA como principal bastião de apoio ao bolsonarismo dentro do governo Trump, e aponta um crescimento das articulações neste ano eleitoral. 

"O Departamento de Estado é um lado consistentemente contrário ao Brasil, a gente sabe disso", disse uma terceira fonte. 

Na semana passada, depois ⁠do encontro com o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), filho mais velho do ex-presidente Jair Bolsonaro e pré-candidato à Presidência na eleição deste ano, o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, anunciou a inclusão das facções criminosas Primeiro Comando da Capital (PCC) e Comando Vermelho na lista de organizações terroristas internacionais, uma medida que o governo brasileiro havia tentado evitar.

Em publicação em suas redes sociais nesta terça, Flávio publicou um trecho de entrevista que deu à rádio Itatiaia na qual afirma que pediu "expressamente" nas reuniões com Trump e com outras autoridades norte-americanas que os EUA não impusessem tarifas sobre empresas brasileiras.

Após o tarifaço dos EUA sobre o Brasil no ano passado, o governo Lula passou a adotar o discurso de defesa da soberania nacional e a responsabilizar o ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro, também filho do ex-presidente, por influenciar na imposição das taxas. A estratégia levou a uma recuperação de Lula nas pesquisas de opinião. 

Nesta semana também foi anunciada a indicação de um novo embaixador dos EUA para o Brasil, cargo vago há mais de um ano. Daniel Perez, um deputado estadual da Flórida, filho de imigrantes cubanos, é um seguidor fiel do movimento Make America Great Again (Maga), núcleo duro da base de apoio de Trump, e não um diplomata de carreira. 

A imposição das tarifas propostas não é obrigatória, cabe a Trump decidir quando, como e se vai impor as tarifas. 

"A Casa Branca vai ficar com essa carta na manga para usar quando quiser, e em um ano eleitoral", aponta uma das fontes ouvidas pela Reuters.

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