Fundação Príncipe Albert II de Mônaco recompensa inovação brasileira de fios têxteis à base de algas
Um projeto brasileiro para a produção de fibras têxteis à base de algas marinhas acaba de ser recompensado pelo programa internacional Líderes do Futuro, promovido desde 2022 pela Fundação Príncipe Albert Segundo de Mônaco. A iniciativa brasileira visa contribuir para a transformação global do setor da moda, hoje um dos mais poluidores do planeta.
A fabricação de fibras têxteis à base de algas no Brasil está sendo desenvolvida pela Phycolabs, startup sediada em São Paulo, fundada há quatro anos pela empresária Thamires Pontes, profissional com longa experiência na indústria têxtil que migrou para a biotecnologia e soluções climáticas relacionadas ao oceano. O projeto foi um dos dez selecionados este ano pelo programa Líderes do Futuro, promovido desde 2022 pela Fundação Príncipe Albert Segundo de Mônaco para recompensar projetos de jovens empreendedores engajados com a proteção do meio ambiente.
Thamires é a segunda brasileira recompensada pelo programa do principado, depois de Ezequiel Vedana da Rosa, criador do produto inovador "Piipee", em 2004. Durante um ano, a Phycolabs receberá acompanhamento da Fundação Príncipe Albert II de Mônaco e maior visibilidade internacional.
Em entrevista à RFI, a empreendedora considera o reconhecimento do Líderes do Futuro um marco importante, especialmente por vir de uma instituição com forte atuação na proteção ambiental e dos oceanos. Segundo a CEO da Phycolabs, a premiação amplia a credibilidade e abre portas para uma rede de contatos internacionais de alto nível. A iniciativa já havia sido reconhecida por importantes organizações do setor da moda, mas a "validação da Fundação para a Phycolabs é indispensável nesse setor" de proteção do meio-ambiente.
A startup trabalha com comunidades costeiras brasileiras para desenvolver uma biotecnologia sustentável voltada à indústria têxtil. O setor da moda responde por cerca de 10% das emissões globais de gases de efeito estufa, 24% de pesticidas e inseticidas no ar e 35% dos microplásticos nos oceanos. O projeto ainda está em fase de desenvolvimento e os fios à base de algas ainda não estão disponíveis no mercado.
Algas como matéria-prima
A empreendedora explica que os impactos ambientais da indústria têxtil estão presentes em toda a cadeia produtiva, do cultivo das matérias-primas ao descarte das roupas. A ideia dos fios à base de algas surgiu durante seu mestrado na USP, após mais de uma década trabalhando no setor. "Quanto mais eu conhecia a indústria têxtil a fundo, mais eu fui ficando frustrada e comecei a pensar quais poderiam ser as soluções."
Segundo Thamires, as algas são uma matéria-prima estratégica porque apresentam uma das maiores taxas de crescimento do planeta e podem acompanhar a escala de consumo exigida pela indústria têxtil.
Ela destaca que o cultivo dessa biomassa não compete com terras agrícolas e tem rápida capacidade de regeneração. "Se a gente quer uma alternativa para uma indústria que consome muito, a gente precisa de um recurso natural que seja capaz de acompanhar esse consumo."
Para cultivar algas, são necessários apenas água do mar, luz solar e CO₂. Além disso, elas não exigem pesticidas ou inseticidas, ajudam a absorver gases de efeito estufa e favorecem a biodiversidade marinha. Thamires ressalta que as algas podem ser utilizadas não apenas para tecidos, mas também para alimentação humana, animal e outros bioprodutos.
Desafios tecnológicos
A Phycolabs trabalha atualmente no aprimoramento das propriedades dos fios, como resistência, acabamento, tingimento e compatibilidade com a infraestrutura já utilizada pela indústria. Um dos maiores desafios é fazer com que os novos materiais possam ser processados nos maquinários existentes, facilitando sua adoção em larga escala.
A fundadora da startup observa um interesse crescente da indústria da moda, impulsionado por novas regulamentações ambientais, sobretudo na Europa, e por consumidores cada vez mais atentos à sustentabilidade.
A tecnologia está sendo desenvolvida inicialmente para roupas, mas poderá futuramente ser aplicada também a calçados, bolsas e acessórios. Como ainda está em desenvolvimento, o material tem custo superior ao das fibras convencionais. A expectativa é que os preços diminuam conforme a produção aumente.
A estratégia inicial da Phycolabs é atuar no segmento de luxo e junto a grandes marcas, que demandam menores volumes e valorizam a inovação e a sustentabilidade dos materiais. Thamires revela que grandes marcas, brasileiras e internacionais, já se interessaram pelo novo produto, e diz que em breve os consumidores poderão vestir uma camisa de fibra à base de alga.
Parceria com comunidades costeiras
A empresa mapeia produtores de algas em diferentes regiões do Brasil e trabalha com comunidades costeiras, especialmente nos estados do Rio de Janeiro e Santa Catarina.
Nos testes mais recentes, a biomassa foi adquirida de uma produtora localizada na Ilha Grande, no município litorâneo de Angra dos Reis (RJ). Segundo Thamires, o cultivo de algas pode criar novas fontes de renda para pescadores e comunidades locais, especialmente em períodos de baixa atividade pesqueira ou turística.
Apesar dos desafios, Thamires acredita que a transformação da indústria da moda é possível e que novos biomateriais terão papel central nesse processo.
"É por isso que eu acordo todos os dias. Eu acredito, do fundo do meu coração, que sim, vai haver essa mudança."
Para ela, o mercado, os consumidores e as empresas já estão se movendo em direção a soluções mais sustentáveis, abrindo espaço para uma nova geração de materiais capazes de reduzir os impactos ambientais da moda.
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