Debate da Band: os principais momentos do primeiro confronto entre candidatos à Presidência
Embate na Band, com apenas três postulantes, foi explorado por Renan Santos, do Missão, que usou 'agressividade' e 'estilo performático' para se apresentar como antissistema. Trio atacou Lula e Flávio.
O primeiro debate presidencial de 2026 na Band foi marcado pelo esvaziamento, contando apenas com Augusto Cury, Ronaldo Caiado e Renan Santos, após as ausências dos líderes nas pesquisas, Lula e Flávio Bolsonaro, e a desistência de Romeu Zema. Os três candidatos atacaram os líderes ausentes com denúncias de corrupção e discutiram segurança pública. Enquanto Caiado e Cury adotaram um tom mais moderado, Renan Santos destacou-se pela agressividade contra os adversários e seus eleitores.
No confronto mais esvaziado desde 1989, o primeiro debate entre candidatos a presidente na eleição de 2026 contou com três candidatos que, juntos, têm cerca de 10% das intenções de voto.
Durante uma hora e meia, Augusto Cury (Avante), Renan Santos (Missão) e Ronaldo Caiado (PSD) discutiram propostas e dispararam contra os líderes nas pesquisas, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL), que não estiveram presentes no confronto organizado pela Rede Bandeirantes.
Veja, a seguir, como foi o debate a partir dos principais momentos da transmissão.
Debate esvaziado
O debate aconteceu sem os dois candidatos que lideram as pesquisas de intenção de voto, Lula e Flávio Bolsonaro, e teve mais uma defecção ao longo do domingo - Romeu Zema (Novo).
Lula, que está à frente no Agregador de Pesquisas da BBC News Brasil, decidiu não comparecer ao confronto e Flávio afirmou que só iria caso o petista participasse. Em um vídeo publicado durante o debate, o filho 01 de Jair Bolsonaro disse não considerar presentes seus adversários e criticou Lula sem citá-lo nominalmente.
"O meu adversário é quem está no poder e está destruindo o Brasil. Você sabe quem ele é, é com ele que quero debater", afirmou.
Ex-governador de Minas Gerais, Zema desistiu durante o domingo argumentando que a mudança da data do evento de 16 para 23 de agosto havia acontecido diante da possibilidade de participação de Lula e que, por conta da ausência dele "e de outros concorrentes, a alteração de data perdeu o seu propósito inicial".
A poucos minutos do início da transmissão, marcada para as 20 horas, o candidato do Avante, Augusto Cury, também chegou a dizer que retiraria sua participação, mas mudou de ideia.
Cury afirmou que sua desistência seria um protesto pela ausência de Lula e Flávio Bolsonaro. "Os principais atores que deveriam participar não estão aqui", disse ao chegar aos estúdios da Band.
"Isso não é debate. É teatro. A gota d'água foi o Lula fazer uma entrevista ao vivo na hora do debate", completou.
A entrevista, veiculada pela Rede Record, foi gravada na tarde do domingo e transmitida durante o debate, às 20h30.
Acusações de corrupção contra Lula e Flávio
No decorrer de 20 minutos, Lula respondeu a perguntas sobre sua relação com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, sobre segurança pública, violência contra a mulher, sobre economia e sobre as investigações contra o filho, Fábio Luís Lula da Silva, conhecido como Lulinha.
Lulinha é investigado em três inquéritos que tramitam no Supremo Tribunal Federal, um deles por suposto tráfico de influência em envolvimento com o lobista Antônio Carlos Camilo Antunes, conhecido como Careca do INSS. Ele nega ter cometido irregularidades.
As investigações contra o filho do presidente também foram assunto no debate entre os candidatos. Tanto Renan Santos quanto Caiado mencionaram o caso para atacar Lula.
As suspeitas de corrupção em torno de Flávio Bolsonaro relacionadas à sua ligação com Daniel Vorcaro, dono do banco Master, também foram exploradas pelos candidatos.
Caiado disse que Flávio "realmente não deu satisfação" sobre o dinheiro que pediu emprestado a Vorcaro para supostamente financiar o filme Dark Horse, baseado na vida do pai. O caso foi exposto em mensagens de áudio vazadas nas quais Flávio pede US$ 24 milhões (cerca de R$ 134 milhões) ao então banqueiro mencionando a produção cinematográfica.
"Ou seja, ele exatamente fugiu da explicação à sociedade. Como é que um candidato à presidência da República pode querer ter a presunção da inocência, sendo que não explicou aonde foi parar esses milhões e milhões de reais?", afirmou Caiado.
"O primeiro candidato tem o Dark Horse, que é esse que vocês conhecem. E o Lula tem o Dark Lobby, aí é a Roberta, e o Lulinha, que é o artífice desse jogo", concluiu o candidato, apelidando o caso envolvendo o filho do presidente de "Dark Lobby".
As críticas mais ácidas foram feitas por Renan Santos, que chamou Lula e Flávio de "criminosos", "covardes" e "canalhas" em sua fala no início do debate.
"Lula com Lulinha, com Petrolão, com Mensalão, Flávio Bolsonaro com seu envolvimento com o Daniel Vorcaro, com seu escândalo de rachadinha. Covardes e canalhas."
Na avaliação do cientista político Rafael Cortez, da Tendências Consultoria, as críticas não devem ter grande impacto sobre as intenções de voto de Lula e Flávio Bolsonaro, porque as pesquisas apontam que os dois líderes têm um eleitorado mais consolidado.
Mas, de forma geral, ele acrescenta, o debate pode produzir efeitos na disputa entre os candidatos que concorrem à terceira posição atualmente.
"Se existe alguma chance de mudança, é uma mudança interna aos nomes da polarização. Eventualmente, Renan pode começar a pegar um pouco desse voto do Zema e do Caiado, que não é um voto muito seguro. Não vi evento que por si só já chame atenção para essa possibilidade, agora é, eventualmente, a exploração nos próximos dias do que sair do debate", diz Cortez.
Nesse sentido, Mayra Goulart, professora de Ciência Política da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e coordenadora do Laboratório de Eleições, Partidos e Política Comparada (Lappcom), ressalta que Renan deve sair do debate "com enorme quantidade de material para as redes", uma estratégia que tem usado desde a pré-campanha em suas aparições em entrevistas e sabatinas para gerar conteúdo em um esforço para tentar torná-lo mais conhecido do eleitorado.
"É um ciclo no qual as mídias tradicionais aumentam o público atingido e conferem 'legitimidade' ao veiculado nas redes. Esse mesmo ciclo foi usado por Jair Bolsonaro ao longo de sua trajetória e a facada foi o ponto auge nesse processo."
Em sua avaliação, Renan foi "o grande personagem da noite", "mas permanece a questão central: o personagem concebido para gerar engajamento é capaz de produzir confiança?", questiona a professora.
'Agressividade' de Renan e moderação de Cury e Caiado
Goulart se refere ao tom agressivo usado pelo candidato do Missão, que chegou a expor duas fraldas com os nomes dos dois líderes, dizendo que "ambos deveriam ter vindo com elas".
"Dois fracassados, dois medrosos. Lula e Flávio Bolsonaro, vamos colocar aqui, dois criminosos que fazem negócio com o crime organizado", afirmou Renan.
Ao longo do debate, ele chegou a dizer que Flávio "não é inteligente" e que "tem gravíssimos déficits cognitivos", disse que o senador dançou "igual ao um imbecil" na agenda de campanha do sábado em Barretos (SP).
Além de falas contundentes contra Lula, Renan também disparou contra os eleitores do petista e disse não querer o voto de parte daqueles que o apoiam, chamando-os de "canalhas".
"Tirando um pedaço dele que é aquele eleitor que está no Bolsa Família, que ainda acredita que o Lula é a única fonte de comida dele, de maneira errônea, o eleitor restante que apoia esse cara está sendo canalha. Canalha. Está rifando o nosso futuro e eu não quero o voto dele", afirmou Renan.
"Olha, Renan, você tem um nível de agressividade que me assombra", retrucou Augusto Cury em sua fala na sequência.
"Tuas ideias podem ter fundamento, mas a agressividade, ela asfixia a capacidade das pessoas de terem suas opiniões. Nós estamos numa democracia. Na democracia, a beleza dela está na divergência", continuou.
"Você pode criticar as ideias de Lula e são criticáveis, mas você não pode criticar a pessoa transformando ela numa escória humana, quase que um lixo", completou.
A manifestação marca o contraste entre o tom dos três candidatos que participaram do primeiro debate, mais moderado, no caso de Cury e Caiado, e mais agressivo, no caso de Renan.
"Esse estilo pode funcionar para uma parcela do eleitorado que procura contundência e não se incomoda com a agressividade. Mas ele tem um limite importante: pode acionar o botão do ceticismo", analisa a cientista política Mayra Goulart.
"Em determinados momentos, Renan parece excessivamente performático, arrogante e até artificial. A agressividade e a performatividade pode colocar em dúvida a autenticidade do personagem", afirma a coordenadora do Lappcom.
Goulart chama atenção para as investidas de Renan contra Lula e Flávio Bolsonaro - na questão da soberania, por exemplo, Lula representaria um Brasil "de joelhos para a China", enquanto Bolsonaro seria alguém que "puxa o saco dos Estados Unidos" - e avalia a estratégia de bater nos dois como uma tentativa de construir uma terceira posição.
"Renan tenta ocupar um lugar antissistema que não seja nem lulista nem bolsonarista. Por isso, Lula é apresentado como inimigo, mas Flávio Bolsonaro precisa ser simultaneamente ridicularizado e desqualificado", avalia a professora.
"O objetivo é disputar o eleitor antipetista dizendo que a família Bolsonaro deixou de ser o instrumento adequado para enfrentar o PT."
"Renan precisa que o eleitor veja Flávio como fraco, despreparado e dependente do sobrenome Bolsonaro para que possa se oferecer como uma direita mais nova, agressiva e antissistema", afirma Goulart.
Segurança pública como gerador de engajamento
Entre as propostas, um dos temas mais explorados por Renan foi o da segurança pública - esteve na abertura e no encerramento de sua participação do debate.
"Existe evidência de que a campanha já identificou a segurança pública como especialmente eficiente para essa estratégia. Levantamento divulgado poucos dias antes do debate mostrava que, embora Caiado falasse mais sobre segurança nas redes, Renan conseguia gerar maior engajamento com o tema", aponta Goulart.
"Portanto, o 'banho de sangue' não surge espontaneamente: é uma radicalização de uma linguagem que já vinha produzindo retorno digital para sua candidatura", diz a coordenadora do Lappcom, referindo-se a uma das últimas falas de Renan, quando ele diz que no primeiro dia do governo iniciaria "um banho de sangue contra os membros das facções."
"Cury vai falar que eu sou muito agressivo novamente, faz parte", disse ele, antes de entrar no assunto.
Cury e Caiado também se debruçaram sobre o tema.
O candidato do PSD usou a oportunidade para criticar a gestão Lula, afirmando que "a maior parte do território brasileiro está totalmente confiscado pelas facções criminosas" e que "a Amazônia brasileira é 100% comandada pelo PCC, Comando Vermelho" por conta da "conivência do atual governo com as facções criminosas no Brasil".
"Ele se acovardou, ele se ajoelhou para o crime. Quando você se ajoelha para o crime, ele cresce", afirmou Caiado.
Cury disse que "pior do que o crime organizado é o Estado desorganizado" ao compartilhar sua proposta de integração da Polícia Federal com as polícias Militar, Civil e Rodoviária, além da criação da "Polícia Foco", "5% da força de trabalho de todos os municípios convertidos numa polícia de combate".
"Vamos acrescentar mais 400 mil policiais que serão treinados pela elite dessas forças de segurança. Assim, de fato, vamos ter um ecossistema tão poderoso que vamos chegar antes do crime", colocou.
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