'Crimes de Maio' completam 20 anos: ataques do PCC paralisaram SP em 2006 após transferência de integrantes da facção
Ao todo, onda de violência deixou 564 mortos no Estado, sendo 505 civis e 59 agentes públicos, como policiais militares e civis
Em maio de 2006, o Estado de São Paulo paralisou diante de uma onda de ataques, com rebeliões e atentados, promovidos pela facção Primeiro Comando da Capital (PCC). O resultado, diante da inércia inicial do governo paulista e que depois se transformou em uma violenta reação policial, foi de 564 mortes, sendo 505 civis e 59 agentes públicos.
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Ao todo, foram registradas mais de 70 rebeliões em unidades penitenciárias espalhadas por São Paulo. No entanto, a violência não ficou restrita ao sistema prisional: prédios públicos, como delegacias, corpo de bombeiros e agências bancárias foram alvo de tiros e explosões. Os criminosos também incendiaram pelo menos 90 ônibus.
Mas o que imperou no Estado e em parte do Brasil há 20 anos foi o pânico entre a população, semeado através de toques de recolher, comércios fechados, ameaças de ataques a hospitais, escolas e outros prédios públicos. Em maio de 2006, o crime fez com que vias conhecidas pela ampla multidão, como a Avenida Paulista, ficassem desertas.
A onda de violência promovida pelo PCC teve como ponto de partida o que é considerada como ‘uma das piores operações da história do Estado de São Paulo’, nas palavras de Lincoln Gakiya, promotor do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (GAECO) do Ministério Público de SP, em entrevista recente à CNN Brasil.
ATAQUES DO PCC:
20 ANOS DOS CRIMES DE MAIO
Entenda a cronologia, os números e o legado da maior onda de violência da história recente do Brasil.
O GATILHO: 11 DE MAIO
A transferência repentina de 765 líderes da facção para o presídio de segurança máxima de Presidente Venceslau.
A Cronologia do Caos
12 de Maio
Início de rebeliões em massa e ataques a delegacias.
14 de Maio
Auge da violência no Dia das Mães sob medo absoluto.
O Custo Humano
O LEGADO E A IMPUNIDADE
A maioria dos inquéritos sobre civis foi arquivada sem conclusão, gerando um rastro de impunidade que dura 20 anos.
Relembre os 'Crimes de Maio'
No dia 11 de maio, véspera do início dos atentados, a inteligência da polícia paulista interceptou ligações entre integrantes da facção que planejavam uma megarrebelião. A resposta do Governo de São Paulo foi a inesperada transferência de mais de 760 líderes do PCC para a Penitenciária 2 de Presidente Venceslau, uma prisão de segurança máxima.
"Foi uma das piores operações da história do Estado de São Paulo. Simplesmente fizeram uma relação dos presos mais perigosos, em absoluto sigilo, e fizeram a remoção. Só os presos removidos que não foram pegos de surpresa, porque sabiam e já deixaram as ordens para os ataques”, afirmou Gakiya.
No dia seguinte, Marcos Willians Herbas Camacho, o Marcola, e outras sete lideranças foram levados para interrogatório na sede do Departamento Estadual de Investigações Criminais (DEIC), na capital. Marcola teria se recusado a depor, mas, assim que pôs os pés na sede do DEIC, foi dada a ordem para que os presos dessem início a rebeliões simultâneas por todo o Estado.
Os primeiros dias dos ataques foram marcados por atentados contra agentes públicos, como policiais militares e civis, guardas municipais e até mesmo bombeiros. Ainda no primeiro dia, 19 ações foram registradas até meia-noite, incluindo tiros contra o 55º Distrito Policial (DP) de SP, no Parque São Rafael, e postos da Polícia Militar.
Além dos ataques em si, ameaças de atentados foram enviadas a diferentes cidades do interior paulista, como as estâncias turísticas de Campos do Jordão, Serra Negra e Águas de Lindoia, além de ataques a prédios públicos de Presidente Epitácio, Taubaté, Marília e Poá.
O revide do Governo de São Paulo não demorou a acontecer: no dia 14 de maio, um domingo de Dia das Mães, e já na madrugada da segunda-feira seguinte, pelo menos 107 civis foram assassinados. As mortes foram atribuídas a agentes do Estado e a grupos de extermínio, que saíram às ruas por retaliação.
Em meio ao caos, circulou um boato que dava conta sobre a implementação informal de um ‘toque de recolher’, o que intensificou o pânico da população. Na segunda-feira, 15 de maio, primeiro dia útil desde o início dos ataques, o comércio fechou mais cedo, aulas em escolas e faculdades foram canceladas e as ruas de São Paulo ficaram vazias.
Centenas de mortos e falhas na investigação
Um rastro de sangue se formou ao longo dos nove dias de duração dos atentados, entre 12 e 21 de maio: 564 pessoas foram mortas, sendo 505 civis. O relatório ‘São Paulo sob Achaque’ aponta que, em pelo menos 122 dessas mortes, houve indícios de execução com participação policial.
O fim dos ataques coincidiu com um encontro secreto entre autoridades do Governo de São Paulo e Marcola. O Executivo estadual negou, e nega até a hoje, a existência de um suposto acordo com o líder do PCC para que os atentados fossem cessados. Mas, coincidentemente, todas as rebeliões encerraram-se na noite seguinte à do suposto encontro.
Além da violência si, os ‘Crimes de Maio’, como é conhecida a onda de violência daquele mês em 2006, também é marcada por falhas na investigação das mortes registradas entre civis.
Um relatório da Secretaria Nacional dos Direitos Humanos aponta que quase todos os inquéritos policiais sobre as mortes de civis no período foram arquivados pela Justiça a pedido do Ministério Público. Por outro lado, as mortes de agentes públicos foram esclarecidas, o que demonstraria uma ‘investigação seletiva’, diz o relatório.
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