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Brasil

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Com recorde de brasileiros no exterior, terapia Navegantes oferece apoio a imigrantes em 40 países

Apesar da onda anti-imigração que se espalha pelo mundo, o número de brasileiros vivendo no exterior não para de crescer e bateu um novo recorde em 2025. Foi para apoiar essa diáspora brasileira espalhada pelo mundo que a psicóloga intercultural brasiliense Barbara Andrade criou, em 2024, a Navegantes.

28 ago 2026 - 15h40
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Resumo
Com o recorde de quase 5,3 milhões de brasileiros no exterior e o aumento de pedidos de assistência consular, o projeto Navegantes oferece apoio psicoterapêutico intercultural online em cerca de 40 países. Criada em 2024 pela psicóloga Barbara Andrade, a iniciativa foca na saúde mental da diáspora brasileira, frequentemente afetada por choque cultural, solidão e preconceito. A maioria do público atendido é composta por mulheres, que buscam suporte individual e em comunidades de acolhimento.

O relatório consular anual do Itamaraty, divulgado no início de julho, contabilizou quase 5,3 milhões de imigrantes brasileiros no ano passado, 110 mil a mais do que em 2024.

Os dados oficiais do governo brasileiro não fazem distinção entre cidadãos em situação regular ou irregular. A contagem se baseia nas estimativas repassadas pelos consulados com base em cadastros e registros locais. Mas a diáspora brasileira seria muito maior porque os chamados "clandestinos", que não têm visto de residência, costumam evitar o registro oficial com medo de serem deportados.

Com o aumento do fluxo, os pedidos de assistência consular deram um salto de 55%, atingindo 95 mil atendimentos no ano passado. As demandas evidenciam a complexidade e a diversidade das situações vividas pelos imigrantes brasileiros. Vulnerabilidade social, questões jurídicas, problemas psicológicos, choque cultural e falta de integração são algumas das dificuldades encontradas.

No ano passado, essa realidade foi ainda impactada pelo endurecimento das regras de imigração em vários países, como os Estados Unidos de Donald Trump, que deportaram milhares de brasileiros.

Apoio psicológico negligenciado

Para apoiar a diáspora brasileira espalhada pelo mundo, a psicóloga intercultural brasiliense Barbara Andrade criou, em 2024, a Navegantes.

O projeto nasceu da percepção de que "a saúde mental, muitas vezes, não é priorizada durante o processo migratório", explica a psicóloga. Segundo ela, os imigrantes geralmente estão concentrados em questões legais, financeiras e logísticas, o que faz com que o cuidado psicológico seja negligenciado.

Barbara Andrade fundou a Navegantes Psicologia Intercultural de terapia para imigrantes em 2024.
Barbara Andrade fundou a Navegantes Psicologia Intercultural de terapia para imigrantes em 2024.
Foto: RFI

A Navegantes tem uma equipe de 15 psicólogos e oferece atendimento psicoterapêutico intercultural online, sempre em português, em cerca de 40 países. Atualmente, atende regularmente 42 imigrantes. Além das consultas individuais, também tem iniciativas coletivas em três áreas. O Guia de Bordo, em parceria com a BRASA (Rede Global de Estudantes Brasileiros no Exterior), é voltado para jovens que estudam no exterior. O Projeto Farol é direcionado a empresas e expatriados, e a Comunidade CAIS reúne cerca de 200 mulheres migrantes de língua portuguesa. O objetivo do projeto é combater o isolamento e fortalecer redes de apoio.

A brasileira Dayanne Lopes Vieira, cientista de dados natural de Vitória, Espírito Santo, vive na França há nove anos. Hoje, ela é casada com um francês e mãe de uma menina de 3 anos. Sua trajetória como imigrante foi marcada por desafios de adaptação cultural, profissional e emocional. Os primeiros anos foram difíceis devido às diferenças no ambiente de trabalho e à sensação de solidão. Mais tarde, a maternidade trouxe novos desafios.

"Ter um filho já é uma coisa que muda você, mas foi difícil porque a minha família não tava aqui, porque era uma cultura diferente, meu marido é francês, então eu tive que me adaptar bastante a uma rotina bem diferente, que seria completamente diferente no Brasil se eu tivesse o apoio da minha família por perto", conta.

Dayanne participou de reuniões de apoio da Comunidade CAIS. "Eu tive alguns apoios ao longo da minha estadia aqui na França. Quando eu busquei ajuda na Comunidade CAIS foi mais porque eu queria me conectar com mulheres, eu queria me conectar com mulheres que também eram imigrantes", detalha.

A Comunidade CAIS, da Navegantes, reúne cerca de 200 mulheres migrantes de língua portuguesa.
A Comunidade CAIS, da Navegantes, reúne cerca de 200 mulheres migrantes de língua portuguesa.
Foto: RFI

Acompanhamento psicológico direcionado

A paulista Larisse Milato, profissional de marketing, vive fora do Brasil há 13 anos e é paciente da Navegantes há bastante tempo. Depois de passar pela Alemanha, onde teve muitas dificuldades de integração, Larisse mora há pouco mais de um ano em Paris. Ela divide sua vida entre a França e a Arábia Saudita, onde o marido trabalha.

A paulista Larisse Milato, profissional de marketing, mora há pouco mais de um ano em Paris.
A paulista Larisse Milato, profissional de marketing, mora há pouco mais de um ano em Paris.
Foto: RFI

Para Larisse, o diferencial da Navegantes é o acompanhamento psicológico especializado para brasileiros que vivem no exterior. "O grande diferencial é que elas sabem o que estão fazendo e podem te ajudar, porque já viveram as dificuldades que um imigrante passa. Eu não abro mão da minha terapia semanal. Faz parte da minha rotina", afirma.

A paulista se sente integrada à cultura francesa, mas um elemento novo está complicando sua vida em Paris. "O calor está fora da curva", diz, rindo, ao se referir às repetidas ondas de calor que atingiram a França neste verão.

Grávida, Larisse pretende se mudar de vez para a Arábia Saudita depois do parto e do fim de seu atual contrato de trabalho. As diferenças culturais no mundo árabe são ainda maiores, mas ela lembra que todo imigrante sai do país para melhorar de vida.

"Imigrante sai do seu país por dinheiro. Foi o meu caso e o do meu marido. A vida lá não é prazerosa. Você fecha os olhos para algumas coisas em países árabes. Você não gosta, mas está ganhando bem. Tem alguns luxos que tornam a vida um pouco mais fácil e você entra nessa bolha e segue", relativiza, garantindo que essa vida de imigrante vale a pena. "Eu estou fazendo isso hoje, aos 36 anos, para daqui a 10 anos eu poder parar de trabalhar."

A catarinense Júlia Panazzolo vive na França há três anos. Ela morou dois anos em Paris e recentemente se mudou para Nice com o marido. Formada em Direito e ex-advogada, Júlia redirecionou sua carreira para a área criativa e hoje atua como criadora de conteúdo, artista plástica e professora de aquarela.

Júlia Panazzolo vive na França há três anos.
Júlia Panazzolo vive na França há três anos.
Foto: RFI

A experiência migratória trouxe desafios que ela não esperava enfrentar, e Júlia buscou ajuda no acompanhamento psicológico da Navegantes. "Na minha cabeça eu achava que ia lidar super bem com a migração. Eu falava: 'vou tirar de letra', mais uma mudança. Quando eu cheguei aqui, a realidade foi outra", lembra, citando dificuldades relacionadas à língua, ao clima, à solidão e ao início de um casamento em um novo país.

A busca por apoio psicológico foi fundamental nesse processo, e a mudança de Paris para Nice, uma cidade menor e mais ensolarada, ajudou ainda mais Júlia a ganhar confiança para falar francês, criar conexões e se sentir mais integrada. Mesmo com os avanços, ela acredita que há um aspecto da imigração que permanece presente. "Eu acho que o fato mais difícil é que eu sempre vou me sentir imigrante", afirma.

Mulheres representam maioria dos clientes

As mulheres, que podem ser mais vulneráveis no contexto da imigração, representam a maior parte da clientela da Navegantes. "As mulheres enfrentam desafios específicos ligados à maternidade, aos relacionamentos interculturais e à adaptação em novos contextos sociais. Elas merecem uma atenção especial", indica a fundadora Barbara Andrade. A psicóloga da Navegantes acaba de se mudar para Portugal para fazer um mestrado, onde vive sua primeira experiência de imigração, que "tem ampliado sua compreensão do tema".

A Navegantes também trabalha voluntariamente com refugiados no Brasil, com retornados e com imigrantes deportados em consequência do endurecimento das políticas migratórias em outros países.

"Eu diria que 2025 foi um dos anos mais desafiadores para a população migrante de modo geral. Nós tivemos inúmeros brasileiros que retornaram dos Estados Unidos para o Brasil. Essas pessoas buscam atendimento porque, apesar de terem voltado, elas ainda estão na condição de migrante, mas agora migrante no seu próprio país", explica.

Ondas anti-imigrantes

As três migrantes brasileiras entrevistadas pela RFI não enfrentaram grandes problemas burocráticos para se instalar na França, mas ouviram muitas histórias de discriminação vividas por amigos ou conhecidos. As ondas anti-imigrantes em vários países, inclusive contra brasileiros como ocorreu recentemente em Portugal, também têm aumentado a busca por apoio psicológico.

"Há casos de xenofobia, de pessoas que também sofrem racismo e violência institucional. Esse sofrimento psíquico acontece por conta de injustiças em relação ao direito migratório e à possibilidade de legalização", relata.

A capacidade de resiliência dos imigrantes impressiona Barbara Andrade. "São pessoas que também, muitas vezes, conseguem transformar essa dor, essas adversidades, em um processo coletivo", ressalta.

Processo coletivo

As comunidades de brasileiros nas redes sociais se multiplicam, e muitas imigrantes criam perfis para contar suas experiências e ajudar os compatriotas, como Dayanne que, além de cientista de dados, virou influenciadora. "Quero mostrar que não é fácil, mas que também vale a pena."

O perfil gloriar.te, de Júlia Panazzolo, no Instagram teve "recentemente um boom de crescimento", depois que ela passou a compartilhar como tem sido a transição entre Paris e Nice. "Muitas pessoas se identificaram com o conteúdo e pretendo continuar trabalhando com essa ideia de mostrar um pouco da minha vida aqui em Nice." Na sequência, ela criou o Clube Criativo Riviera, uma comunidade que já reúne mais de 70 brasileiras na região para fortalecer laços, promover encontros e incentivar atividades criativas, que Júlia espera transformar em uma associação.

Muitas ferramentas estão disponíveis para facilitar a integração e o fortalecimento da comunidade brasileira no exterior. Além da Navegantes Psicologia Intercultural, outros serviços também oferecem apoio aos imigrantes, assim como os consulados do Brasil em todo o mundo.

RFI A RFI é uma rádio francesa e agência de notícias que transmite para o mundo todo em francês e em outros 15 idiomas.
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