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Vale recebeu alerta anônimo 2 semanas antes de Brumadinho

Segundo o jornal 'The Wall Street Journal', mensagem trazia advertências sobre a segurança das barragens da mineradora

5 nov 2019 - 13h40
(atualizado às 13h50)
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Bombeiros de Minas Gerais localizaram parte de um corpo na área atingida pela lama da barragem da Vale que se rompeu em Brumadinho
Bombeiros de Minas Gerais localizaram parte de um corpo na área atingida pela lama da barragem da Vale que se rompeu em Brumadinho
Foto: CBMMG/Divulgação / Estadão Conteúdo

Executivos da Vale receberam um e-mail anônimo com advertências sobre a segurança das barragens da mineradora duas semanas antes da tragédia de Brumadinho. O texto levou o então presidente da empresa, Fabio Schvartsman, a buscar a identidade do autor e chamar essa pessoa de "um câncer", mostra um documento de inquérito policial ao qual o jornal americano The Wall Street Journal (WSJ) teve acesso.

Autoridades afirmam que estão investigando a resposta de Schvartsman, no momento em que apuram se uma cultura de retaliação na companhia contribuiu para o colapso da barragem em 25 de janeiro. Com 270 mortos, é o maior desastre desse tipo na mineração em mais de 50 anos.

O e-mail de 9 de janeiro foi enviado a Schvartsman, ao atual presidente da Vale, Eduardo Bartolomeo, ao diretor financeiro, Luciano Siani Pires, e a outros executivos.

O texto dizia que as barragens da companhia estavam "em seu limite", de acordo com um resumo de 15 páginas do recente interrogatório de Schvartsman pela polícia feito por policiais e promotores, ao qual o jornal teve acesso.

Procurada, a Vale afirmou ao WSJ que o e-mail era genérico e não trazia evidências, além de negar com veemência uma cultura de retaliação na companhia. Segundo a mineradora, os executivos não tiveram conhecimento sobre um risco crítico ou iminente na barragem antes de seu colapso.

Já a defesa de Schvartsman disse que seu cliente sempre atuou quando era presidente diante de reclamações quando elas incluíam informações concretas e declarou que o e-mail não continha fatos específicos.

Os advogados de Bartolomeo e Pires não foram localizados pela reportagem do WSJ.

'A Verdade'

O e-mail anônimo, intitulado "A Verdade", foi parcialmente reproduzido no documento policial. Ele não menciona a estrutura que ruiu em Brumadinho cerca de duas semanas depois, segundo o resumo.

"Nós estamos enfrentando grandes desafios pela frente, nossas operações não têm o nível mínimo adequado de investimento, estamos com falta de pessoal nas áreas de operação, manutenção e engenharia e eles são mal remunerados... o equipamento está quebrando, as barragens estão no seu limite", afirmava a mensagem.

No domingo seguinte após receber o e-mail, Schvartsman - que deixou o posto em março - enviou e-mails a três colegas para tentar descobrir quem havia escrito o e-mail. Segundo os policiais, ele queria "olhar olho no olho" do autor.

Schvartsman não determinou uma apuração sobre os problemas citados no e-mail. Ele disse a autoridades que o autor nunca foi identificado.

Questionado sobre sua resposta, o executivo da Vale disse acreditar que o e-mail anônimo fosse de um empregado descontente com sua política para acabar com uma cultura corporativa que segundo ele era dividida em feudos.

O advogado de Schvartsman também afirmou que dois outros diretores da Vale disseram que o e-mail continha inconsistências e acreditavam que o remetente tivesse agido de má-fé.

Blindagem de executivos

Em entrevistas coletivas após a tragédia, Schvartsman disse que os problemas técnicos relacionados às barragens eram responsabilidade de empregados de nível mais baixo e que todas as informações que havia recebido mostravam que elas estariam seguras.

No entanto, investigadores do caso suspeitam que o comando da Vale deliberadamente se blindava de informações que poderiam incriminá-los para evitar ser responsabilizados, com práticas de táticas de retaliação e intimidação em um setor que a companhia dominava.

Promotores preparam acusações criminais contra funcionários da Vale que poderiam incluir executivos de alto nível, afirmaram autoridades ao The Wall Street Journal.

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