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RS: mães de vítimas de incêndio fazem limpeza na frente da Boate Kiss

Ação aconteceu após juiz pedir esclarecimentos sobre os produtos tóxicos presentes na casa noturna, alvos de um inquérito civil

4 out 2013 22h05
| atualizado às 22h05
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Jaqueline fixa em tapume camiseta em homenagem ao filho morto na tragédia da Boate Kiss
Jaqueline fixa em tapume camiseta em homenagem ao filho morto na tragédia da Boate Kiss
Foto: Luiz Roese / Especial para Terra

Com cuidado, Jacqueline Malezan arrumou a camiseta com a foto de seu filho Augusto, que está presa no tapume colocado em frente à Boate Kiss, em Santa Maria (RS). Assim como a roupa que lembra o jovem que morreu aos 18 anos na tragédia do dia 27 de janeiro, faixas, cartazes, bilhetes e outras mensagens que homenageiam as vítimas do incêndio na casa noturna foram deixadas no mesmo local, durante o mutirão realizado na sexta-feira à tarde por mães que perderam seus filhos.

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Marta Beuren, mãe de Silvio Beuren Júnior, que morreu na tragédia aos 31 anos, disse que a ação foi para "não deixar Santa Maria feia". "Não sei a quem caberia esse trabalho, mas nós, mães, resolvemos nos reunir para fazer essa limpeza, como uma forma de homenagear nossos filhos. Esse trabalho acaba sendo um bálsamo para o nosso coração", comentou Marta.

Mães aproveitaram para prestar homenagens a seus filhos mortos no incêndio
Mães aproveitaram para prestar homenagens a seus filhos mortos no incêndio
Foto: Luiz Roese / Especial para Terra

Os familiares retiraram somente as flores e plantas que já estavam secas e deterioradas e também fizeram uma varrição. As mães acabaram recolhendo vários sacos de lixo do local.

Para realizar o trabalho, as mulheres, que fazem parte do Grupo Mães de Janeiro, usaram máscaras de proteção, já que a quantidade de produtos tóxicos que rondam a boate é grande. Em março, profissionais do Centro de Referência em Saúde do Trabalhador (Cerest), sediado em Santa Maria, recolheram amostras de resíduos do interior da casa noturna, e depois enviaram o material para análise do Companhia de Tecnologia de Saneamento Ambiental (Cetesb), vinculada ao governo paulista. O exame apontou a presença de 17 produtos químicos no pó residual que estava na Kiss.

Diante dos riscos ambientais e de saúde, o juiz Ulysses Fonseca Louzada, responsável pelo processo criminal da tragédia, pediu duas vezes explicações ao Ministério Público Estadual (MP), à prefeitura e à Fundação de Proteção Ambiental (Fepam). O Ministério Público chegou a abrir um inquérito civil para investigar o caso. A Econn Empreendimentos de Turismo e Hotelaria, dona do imóvel, já se prontificou a contratar uma empresa para fazer um projeto de limpeza e descontaminação do local e a execução do serviço. Por enquanto, nada foi decidido em relação ao que restou da Boate Kiss.

Voluntárias usaram máscaras de proteção devido ao risco de contaminação do local
Voluntárias usaram máscaras de proteção devido ao risco de contaminação do local
Foto: Luiz Roese / Especial para Terra

Tragédia pode ser retratada em documentário
A quinta e a sexta-feira foram de muito trabalho para o cineasta Luiz Alberto Cassol em Santa Maria. Ele viajou à cidade para gravar depoimentos prévios que podem servir de base para um documentário sobre a tragédia da Boate Kiss. Cassol será o diretor da produção. Para as gravações dos últimos dias, ele foi acompanhado pelos produtores Paulo Nascimento e Leonardo Machado.

"Para este documentário, queremos fugir de todo e qualquer sensacionalismo e das questões política e judicial a respeito da tragédia. Queremos dar voz aos pais", explica Cassol. Na quinta-feira à noite, foi gravado o depoimento do jornalista Claudemir Pereira, na condição de alguém que noticiou o incêndio na Kiss e, ao mesmo tempo, como assessor de comunicação do Hospital de Caridade, lidou com a prestação de informações aos familiares das vítimas.

Na sexta-feira, também foi entrevistado o presidente da Associação dos Familiares de Vítimas e Sobreviventes da Tragédia de Santa Maria (AVTSM), Adherbal Ferreira, pai de Jennefer, que morreu no incêndio da Kiss aos 22 anos. Outra pessoa que participou de uma entrevista prévia foi Carina Correa, mãe de Thanise, outra vítima da tragédia. 

O material gravado na quinta e na sexta agora vai ser analisado pela equipe de produção, para que eles decidam se vai fazer parte do documentário. Ainda devem ser entrevistadas uma sobrevivente e uma avó de vítima, ambas fora de Santa Maria.

A expectativa dos cineastas é finalizar o documentário até janeiro de 2014. Cassol é santa-mariense, e Paulo Nascimento é formado em Comunicação Social pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). Já Leonardo Machado, porto-alegrense e ator da Rede Globo, tem aproximado sua ligação com a cidade desde que participou das filmagens do longa Os Senhores da Guerra.

Incêndio na Boate Kiss
Na madrugada do dia 27 de janeiro, um incêndio deixou 242 mortos em Santa Maria (RS). O fogo na Boate Kiss começou por volta das 2h30, quando um integrante da banda que fazia show na festa universitária lançou um artefato pirotécnico, que atingiu a espuma altamente inflamável do teto da boate.

Com apenas uma porta de entrada e saída disponível, os jovens tiveram dificuldade para deixar o local. Muitos foram pisoteados. A maioria dos mortos foi asfixiada pela fumaça tóxica, contendo cianeto, liberada pela queima da espuma.

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Os mortos foram velados no Centro Desportivo Municipal, e a prefeitura da cidade decretou luto oficial de 30 dias. A presidente Dilma Rousseff interrompeu uma viagem oficial que fazia ao Chile e foi até a cidade, onde prestou solidariedade aos parentes dos mortos.

Os feridos graves foram divididos em hospitais de Santa Maria e da região metropolitana de Porto Alegre, para onde foram levados com apoio de helicópteros da FAB (Força Aérea Brasileira). O Ministério da Saúde, com apoio dos governos estadual e municipais, criou uma grande operação de atendimento às vítimas.

Quatro pessoas foram presas temporariamente - dois sócios da boate, Elissandro Callegaro Spohr, conhecido como Kiko, e Mauro Hoffmann, e dois integrantes da banda Gurizada Fandangueira, Luciano Augusto Bonilha Leão e Marcelo de Jesus dos Santos. Enquanto a Polícia Civil investiga documentos e alvarás, a prefeitura e o Corpo de Bombeiros divergem sobre a responsabilidade de fiscalização da casa noturna.

A tragédia fez com que várias cidades do País realizassem varreduras em boates contra falhas de segurança, e vários estabelecimentos foram fechados. Mais de 20 municípios do Rio Grande do Sul cancelaram a programação de Carnaval devido ao incêndio.

No dia 25 de fevereiro, foi criada a Associação dos Pais e Familiares de Vítimas e Sobreviventes da Tragédia da Boate Kiss em Santa Maria. A associação foi criada com o objetivo de oferecer amparo psicológico a todas as famílias, lutar por ações de fiscalização e mudança de leis, acompanhar o inquérito policial e não deixar a tragédia cair no esquecimento.

Indiciamentos
Em 22 de março, a Polícia Civil indiciou criminalmente 16 pessoas e responsabilizou outras 12 pelas mortes na Boate Kiss. Entre os responsabilizados no âmbito administrativo, estava o prefeito de Santa Maria, Cezar Schirmer (PMDB). A investigação policial concluiu que o fogo teve início por volta das 3h do dia 27 de janeiro, no canto superior esquerdo do palco (na visão dos frequentadores), por meio de uma faísca de fogo de artifício (chuva de prata) lançada por um integrante da banda Gurizada Fandangueira.

O inquérito também constatou que o extintor de incêndio não funcionou no momento do início do fogo, que a Boate Kiss apresentava uma série das irregularidades quanto aos alvarás, que o local estava superlotado e que a espuma utilizada para isolamento acústico era inadequada e irregular. Além disso, segundo a polícia, as grades de contenção (guarda-corpos) existentes na boate atrapalharam e obstruíram a saída de vítimas, a boate tinha apenas uma porta de entrada e saída e não havia rotas adequadas e sinalizadas para a saída em casos de emergência - as portas apresentavam unidades de passagem em número inferior ao necessário e não havia exaustão de ar adequada, pois as janelas estavam obstruídas.

Já no dia 2 de abril, o Ministério Público denunciou à Justiça oito pessoas - quatro por homicídios dolosos duplamente qualificados e tentativas de homicídio, e outras quatro por fraude e falso testemunho. A Promotoria apontou como responsáveis diretos pelas mortes os dois sócios da casa noturna, Mauro Hoffmann e Elissandro Spohr, o Kiko, e dois dos integrantes da banda Gurizada Fandangueira, Marcelo de Jesus dos Santos e Luciano Augusto Bonilha Leão.

Por fraude processual, foram denunciados o major Gerson da Rosa Pereira, chefe do Estado Maior do 4º Comando Regional dos Bombeiros, e o sargento Renan Severo Berleze, que atuava no 4º CRB. Por falso testemunho, o MP denunciou o empresário Elton Cristiano Uroda, ex-sócio da Kiss, e o contador Volmir Astor Panzer, da GP Pneus, empresa da família de Elissando - este último não havia sido indiciado pela Polícia Civil.

Os promotores também pediram que novas diligências fossem realizadas para investigar mais profundamente o envolvimento de outras quatro pessoas que haviam sido indiciadas. São elas: Miguel Caetano Passini, secretário municipal de Mobilidade Urbana; Belloyannes Orengo Júnior, chefe da Fiscalização da secretaria de Mobilidade Urbana; Ângela Aurelia Callegaro, irmã de Kiko; e Marlene Teresinha Callegaro, mãe dele - as duas fazem parte da sociedade da casa noturna.

Fonte: Especial para Terra
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