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Cozinheira salvou 60 adolescentes com freezer em Suzano

Pastora evangelista e mãe de três jovens juntava latas de refrigerante para comprar tempero para a merenda da escola Raul Brasil

20 mar 2019
05h11
atualizado às 08h35
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Até uma semana atrás, Silmara Moraes, de 49 anos, era a mãe de três jovens, a "pastora" de uma igreja da zona leste e a "tia da merenda" entre os alunos da Escola Estadual Professor Raul Brasil. Hoje, ela é uma heroína. Das redes sociais até o grafite feito no portão de onde mora, a "Silmara Maravilha" é lembrada como a mulher que usou um freezer para impedir a entrada de atiradores no refeitório da instituição, salvando cerca de 60 adolescentes.

Estudantes e moradores participam de um abraço simbólico em homenagem às vítimas de ataque na escola Raul Brasil, em Suzano
15/03/2019
REUTERS/Ueslei Marcelino
Estudantes e moradores participam de um abraço simbólico em homenagem às vítimas de ataque na escola Raul Brasil, em Suzano 15/03/2019 REUTERS/Ueslei Marcelino
Foto: Reuters

Agora, Silmara quer ajudar a reerguer a escola e, garante, no fim do ano, estará ainda maior. Os esforços em melhorar o dia a dia começaram, contudo, há 10 anos, logo que entrou na instituição. Junto das colegas Sandra e Lisete, ela abria todos os enlatados fornecidos à escola, lavava a comida e adicionava novos temperos. A meta era aumentar de 50 para 100 o número de alunos que faziam as refeições no turno da manhã. Ela conseguiu e, hoje, o número passa de 200 nos dias mais concorridos. "A gente nunca se conformava com o que estava bom, sempre queria melhorar", explica.

Se a presença de comida industrializada diminuiu nos últimos anos, Silmara garante que a popularidade da merenda no Raul Brasil está no tempero. Grande parte da salsa, do orégano e outras ervas que usa para cozinhar são compradas por ela e as duas colegas de profissão com o dinheiro que arrecadam da venda de latas de refrigerante. Os itens são coletados em uma lixeira estrategicamente colocada perto do refeitório.

Além disso, no ano passado, professores e alunos criaram uma horta do pátio, de onde vem manjericão e outros ingredientes. "Os alunos acham isso fenomenal. Falam: 'pô, tia, está da hora, não existe tia melhor'. Pra gente, é o maior prazer, motiva", conta.

Como a escola tem um centro de línguas, alguns alunos fazem curso de idiomas pela manhã e já ficam na instituição já para as aulas regulares no turno da tarde. Nesse caso, costumam levar marmitas, que são esquentadas na cantina perto do meio dia. Em alguns casos, contudo, o conteúdo é insuficiente para as crianças - e Silmara não hesita em interferir novamente: "A gente vê muito isso: que tem crianças carentes. É mais no período da tarde, no fundamental", conta. "Como o potinho geralmente é transparente. dá para ver. Quando a gente vê que não tem mistura, a gente abre e coloca mistura lá dentro e deixa para a hora que eles vêm comer."

'Lembrava de todos', diz cozinheira sobre vítimas do massacre em Suzano

Há 10 anos no Raul Brasil, Silmara diz lembrar de todos os alunos que passaram pela escola. Das vítimas do massacre, diz que Cleiton Ribeiro, de 17 anos, era o mais quietinho. "Ficava sempre nos cantos. Lembro dele desde a quinta série."

Sobre o dia do ataque, explica que o freezer tinha rodinhas, então o puxou até a entrada. Depois, fez a barricada com uma das mesas, com a ajuda das duas colegas de cozinha.

"Ainda não caiu a ficha. Eu não vejo por esse lado, como uma heroína. Eu vejo assim, como um coração de amor. Eu faria isso em qualquer lugar que estivesse, acho que seria essa a minha reação, pelo amor que tenho àquele lugar."

Movimentação após tiroteio ocorrido na Escola Estadual Raul Brasil, na Rua Otávio Miguel da Silva, em Suzano, na Grande São Paulo, nesta quarta-feira, 13
Movimentação após tiroteio ocorrido na Escola Estadual Raul Brasil, na Rua Otávio Miguel da Silva, em Suzano, na Grande São Paulo, nesta quarta-feira, 13
Foto: GERO RODRIGUES/O FOTOGRÁFICO / Estadão Conteúdo

Na terça-feira, 17, a cozinheira participou do acolhimento aos alunos na escola. Quando foi recebida por muitos abraços de quem nem sabia que tinha salvo. De todos, uma menina a agradeceu também com trufas e um bicho de pelúcia. "Segunda não foi bom chegar ali, deu um apertinho no coração. Mas hoje, quando chegaram os alunos, foi bom. Uns vinham, choravam, abraçavam, agradeciam. Foi um momento muito bom, saber que vão voltar."

No dia do velório, Silmara lembra que passou perto de todos os caixões, o que mais marcou foi a reação de uma mãe, que, naquele momento, dizia: "Levanta filho, levanta daí". "Comecei a chorar muito. Ela levantou a cabeça e perguntou porque não salvei o filho dela. Eu queria ter salvado todos que estavam ao meu alcance, mas não consegui. A gente tinha de agir rápido."

Mãe, esposa e evangelista em Guaianazes

Silmara sempre morou na exata mesma rua em Guaianazes, distrito do extremo leste da cidade de São Paulo. Foi lá que cresceu com os três irmãos e duas irmãs (filhos de um casal de migrantes mineiros), começou a vida na igreja Assembleia de Deus e criou os três filhos, entre 18 e 26 anos, fruto de um casamento que já dura 27 anos.

Na igreja, foi voluntária durante 30 anos no departamento infantil, onde foi professora da escola dominical além de ter outras funções. "Até hoje me chamam de Tia Sil. Tenho alunos que já estão casados e que cheguei a dar aula para os filhos."

Ainda na Assembleia de Deus, foi regente (onde ensina os louvares aos demais) e trabalhou na "obra de amor", em que ajudava, por exemplo, a recolher itens para o enxoval de mães carentes. "A mãe tinha bebê e não tinha roupa nem para a saída do hospital", conta. Hoje, é evangelista, sendo esposa do segundo pastor da congregação.

Homenagem às vítimas do ataque em frente ao portão da Escola Estadual Raul Brasil, na manhã desta quinta-feira, 14, em Suzano
Homenagem às vítimas do ataque em frente ao portão da Escola Estadual Raul Brasil, na manhã desta quinta-feira, 14, em Suzano
Foto: Ananda Migliano / O Fotográfico / Estadão Conteúdo

Quando teve o primeiro filho, Marcos Paulo, deixou o trabalho em uma gráfica. Em paralelo, fez trabalhos para complementar a renda, como a venda de coxinhas caseiras e de arranjos de flores. "Depois que eles cresceram, decidir fazer o concurso para a Prefeitura (de Suzano). Tinha terminado o ensino médio fazia muito tempo, então pensei que não iria passar. Fiz em 2006. Demorou, mas me chamaram e comecei em março de 2009 no Raul Brasil", lembra ela, que estudava junto com uma cunhada para a seleção.

"Determinei que iria entrar como merendeira. Mas o meu objetivo não é morrer como merendeira, é algo mais. A gente vai ficando, se envolvendo", conta ela. "A gente tem que abrir mão para ajudar os filhos."

Agora que já ajudou no casamento do primogênito, Marcos Paulo, e Aline está prestes a casar, poderá investir no sonho de fazer uma faculdade de Serviço Social. Pelo gosto em cozinhar, Silmara pensava em estudar Nutrição. Tempos atrás, contudo, o objetivo mudou. "Quando você trabalha, vê a necessidade das pessoas. Na assistência social, vou poder ajudar mais gente, ter um número maior para atingir. É a minha cara."

Já no campo da cozinha, o sonho é abrir uma bomboniere junto à barbearia do filho primogênito, Marcos Paulo. O espaço já existe e foi nele que amigos do rapaz grafitaram um desenho em homenagem à "Silmara Maravilha", em que ela aparece com acessórios típicos da Mulher Maravilha.

Estadão

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