Quem são Tiriça e Vida Loka, ala opositora a Marcola em meio a racha no PCC
Ex-integrantes da 'sintonia fina' da facção acusam líder de ser 'fraco' e 'delator'
Abel Pacheco de Andrade, o Vida Loka, que está no centro de um racha na facção Primeiro Comando da Capital (PCC), já foi um dos principais braços direitos de Marco Willians Herbas Camacho, o Marcola. Era ele quem recebia diretamente as ordens do líder e repassava para outros integrantes da 'sintonia fina', a cúpula da organização.
O racha na alta cúpula do PCC opõe Marcola e três antigos aliados: além de Vida Loka, Roberto Soriano, o Tiriça, e Wanderson Nilton de Paula Lima, o Andinho. Conforme mostrou o Fantástico, os ex-aliados agora acusam Marcola de ser um dirigente fraco e 'cagueta' (delator).
A reportagem não conseguiu contato com as defesas de Vida Loka, Tiriça, Andinho e Marcola.
Natural do Paraná, Abel Pacheco está condenado a mais de 70 anos de prisão por crimes diversos. Recentemente, ele tentou obter o indulto natalino - perdão da pena -, mas teve o pedido negado. Vida Loka ascendeu no PCC pelas mãos de Marcola. No início dos anos 2000, ele já havia se tornando um dos sete integrantes da Sintonia Fina Geral, a alta cúpula da facção.
Marcola delegou a ele a formação da Sintonia dos Gravatas, o elenco de advogados que atuam na defesa dos faccionados. Vida Loka também teria sido responsável por levantar os endereços e dados de autoridades para eventuais ataques do PCC. Ele ficou conhecido pelo apelido de "General", devido ao rigor com os subordinados e à alta periculosidade.
Atualmente, Vida Loka cumpre pena em uma penitenciária federal. Ele já foi investigado por latrocínio, associação criminosa, tortura, roubo, tráfico de drogas e lavagem de dinheiro. Quando já estava preso, teria ordenado a execução de cinco rivais.
Em maio de 2017, o Ministério Público de São Paulo divulgou ter conseguido a condenação de Vida Loka a 47 anos de prisão por ter ordenado os assassinatos de Nilton Fabiano dos Santos, o Midas, e Rogério Rodrigues dos Santos, o Digue, na zona oeste da capital.
Segundo o MP, interceptações telefônicas autorizadas mostraram que Andrade e Rogério Jeremias de Simone, o Gegê do Mangue, ordenaram a morte dos dois dissidentes do PCC por questões ligadas ao tráfico. Eles estavam presos e usaram celulares para repassar as ordens de execução a comparsas soltos.
Em junho deste ano, Roberto Soriano, o Tiriça, foi condenado a 44 anos e oito meses pelo assassinato do agente penitenciário federal Alex Belarmino de Souza, ocorrido em 2016, em Cascavel, no Paraná. No julgamento, a promotoria federal utilizou um áudio de Marcola, gravado em junho de 2022 na Penitenciária Federal de Porto Velho (RO). Na conversa com um agente penitenciário, o chefe do PCC diz que Tiriça é um psicopata e indica que o ex-aliado matou Alex Belarmino.
Em agosto de 2023, Tiriça foi condenado a 31 anos e 6 meses de prisão pela morte da psicóloga Melissa de Almeida Araújo, de 37 anos, em Cascavel. O crime aconteceu em maio de 2017. Ela atuava como psicóloga na Penitenciária Federal de Catanduvas, no mesmo estado.
A investigação apontou que Soriano vinha ordenando, de dentro da prisão, execuções contra agentes de segurança. Melissa se tornou alvo por sua atuação como servidora incumbida de elaborar laudos sobre a condição psicológica de detentos de alta periculosidade. Ela foi morta quando buscava o filho na escola. A defesa dele entrou com recurso contra a condenação, ainda não julgado.
Wanderson de Paula Lima, o Andinho, foi condenado a mais de 700 anos de prisão, sendo apontado como autor ou mentor de 12 sequestros em Campinas, no interior de São Paulo. Na disputa que envolve a cúpula da facção, ele se aliou a Vida Loka e Tiriça, ficando contra Marcola. Os três teriam sido "expulsos" do PCC e jurados de morte. Uma das acusações contra ele é de ter mandado jogar granadas na sede de um jornal de Campinas.
O Fantástico exibiu trechos de um áudio atribuído a Marcola em conversa com um chefe de segurança da Penitenciária Federal de Segurança Máxima em Porto Velho, Rondônia, que não foi identificado. Nele, faz referência a Tiriça.
"Eu poderia me tornar um psicopata desses, [fazendo] igual ao [que] Soriano fez. Não é minha política, matar agente penitenciário. Aqui, não. Eu tenho uns, já, assassinados, mas por outras circunstancias, que eu era espancado...Eu não vou dizer para o senhor que eu sou um cara bonzinho. Sou um cara perigoso, de verdade", diz.
O áudio teria sido usado durante o processo de julgamento de Roberto Soriano. Diante disso, em outro momento, ao falar com sua mulher diante das câmeras do presídio, Marcola comenta: "Falei que eu não tenho nada a ver com isso, que eu não sabia de nada. O cara veio na maior conversinha comigo, entendeu? Gravador escondido... E usaram isso no júri contra os caras, foram condenados um montão."
Abel Pacheco, o Vida Loka, deixou claro a tensão com Camacho ao ser ouvido durante o julgamento: "O Marcola não vale nada. Ele é fraco. Ele foi covarde. O Marcola é um 'cagueta'. [...] O Mundo do crime tem a sua ética. Nós excluímos Marcola do mundo do crime. O crime de São Paulo não merecia passar por essa vergonha." Em outro momento, Tiriça acompanhou as críticas: "Ele [Marcola] pode mentir para se beneficiar, passar por bonzinho. Não deixa de ser cagueta."
Outro áudio mostra uma conversa de Marcola com seu advogado. Nela, ele pediria para que um ex-diretor de presídio de São Paulo fosse chamado para ser sua testemunha de defesa num processo.
"Ele sempre gostou de mim como filho, porque eu conseguia acalmar toda a cadeia dele. Eles tinham perdido completamente o controle das penitenciárias de São Paulo. Ele me buscava lá na RDD [Regime Disciplinar Diferenciado] de Taubaté, e me levava, deixava solto na penitenciária do Estado, para que eu administrasse a penitenciária para ele. Eu falei: 'Vou segurar as pontas aqui para vocês, mas na condição de me transferirem para outro Estado'", afirmou.
O áudio também foi repercutido negativamente por Vida Loka: "Eu nunca ouvi uma situação tão absurda dessa, partindo de um preso, falar que ele administrava prisões junto com o diretor de uma das maiores prisões do Estado de São Paulo. [...] Pô, doutor. Ele ainda tem a cara de pau de falar que se sentia filho do diretor. Pô, ele esqueceu que ele é bandido? Que polícia é polícia e bandido é bandido? Deu um tapa na cara do crime".
O Estadão buscou contato com a Secretaria de Segurança Pública do Estado de São Paulo a respeito das declarações exibidas no Fantástico deste domingo, 13, mas não obteve retorno até a publicação desta reportagem.